- Retomando para concluir.
Dizíamos, na conclusão do último texto, que essa noção de que nossas ações não são inteiramente dominadas por nossa consciência racional não é uma novidade absoluta que tenha sido introduzida pela psicanálise freudiana. Os antigos tinham também essa noção, mas eles atribuíam este descompasso não somente à fratura interna que o pecado original deixou em nós – sempre nos inclinando ao mal – e, além disso a essas forças espirituais de natureza pessoal que podem nos inclinar ao bem que nos ultrapassa (os Santos Anjos) ou ao mal que nos seduz (os demônios). No meio desse confronto, está a nossa vontade – que não funciona com base na indiferença entre o bem moral e o mal moral, mas com uma inclinação própria e invencível para o bem. A questão do mal, portanto, se resolve como um descompasso entre o bem real e o aparente. Mesmo os mais perversos dos demônios estão condenados a ter que nos apresentar o mal real como um bem aparente, para nos seduzir. E fazem isto influenciando indiretamente na nossa vontade, a partir da atuação direta sobre nossa memória e nossa imaginação.
Examinemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que tentavam, equivocadamente, comprovar a noção falsa de que anjos e demônios não poderiam atuar diretamente nessas capacidades humanas.
- Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
A memória e a imaginação são processos que se formam a partir da estimulação dos sentidos; isto, diz o argumento, o próprio Aristóteles já sabia e ensinava. Ora, se os anjos fossem capazes de atuar diretamente sobre a memória e a imaginação, então nem todo processo de atualização dessas capacidades humanas decorreria da nossa própria exploração do mundo. Com isto teríamos que afirmar que nossos conhecimentos empíricos poderiam ser inteiramente falsos e não corresponder ao mundo que nos cerca. Isto seria inadmissível – estamos seguros de que o mundo externo é real e que os estímulos que recebemos dele são transparentes à realidade. Logo, os anjos e os demônios não podem atuar diretamente sobre a nossa memória e a nossa imaginação, conclui apressadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
O princípio daquilo que está em nossa memória e em nossa imaginação está sempre na estimulação que o mundo real provoca em nossos sentidos. É por isso, por exemplo, que alguém que nasceu sem o sentido da visão não consegue sequer imaginar o que é uma cor – ele não tem essa memória, porque não recebeu esse estímulo. Mas o conjunto de todas as sensações percebidas e armazenadas sofre, em nós, a sistematização que dá sentido ao mundo percebido, e essa sistematização é algo que envolve capacidades corporais. Assim, nossa memória e nossa imaginação, podem sofrer a atuação de inteligências imateriais e pessoais externas a nós, que a tradição chama de “anjos” e “demônios”.
O segundo argumento objetor.
O conteúdo de nossa memória e nossa imaginação tem a natureza formal, não concreta, abstrata portanto. Sendo de natureza abstrata, têm uma dimensão universal e, portanto, espiritual. Ora, se os anjos (e demônios) não são capazes de gerar formas individuais na matéria, como vimos em textos anteriores, então tampouco seriam capazes de gerar formas abstratas na memória e na imaginação; por isso, não poderiam atuar diretamente em nossa memória e em nossa imaginação, conclui apressadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
Os anjos e demônios, de fato, não podem fazer surgir, em nossa memória e em nossa imaginação, formas que não tenham sido, de qualquer modo, apreendidas pelos sentidos. É por isso que, como foi dito na resposta anterior, um cego de nascença não pode ser levado a imaginar alguma cor. Mas essa ordenação interna dos dados sensoriais, que se dá na nossa memória e na nossa imaginação, pode sofrer a atuação de anjos e demônios – podemos perceber isso até pelo modo com que algumas pessoas distorcem a memória de algum fato que nós também testemunhamos, e que são recordados por outros de maneira radicalmente diferente que a nossa. Ou a maneira que a imaginação de um artista processa de maneira tão linda, muitas vezes por algo que ele próprio atribui a uma “inspiração” externa, algo que nós também experimentamos mas não conseguimos imaginar com tanta riqueza. Assim, anjos e demônios podem atuar sobre estas dimensões em nós, conclui Tomás.
O terceiro argumento objetor.
Agostinho nos lembra que a mente de anjos e demônios lida sempre com dados inteligíveis, não com dados sensíveis. Eles se comunicam entre si trocando essas informações inteligíveis de mente a mente, quando o superior manifesta ao inferior essas imagens inteligíveis que ele quer transmitir.
Mas nem a memória, nem a imaginação humanas lidam com dados inteligíveis; elas lidam apenas com dados sensíveis, ainda que combinados e abstraídos, ainda que ordenados e com significado, mas sempre dados sensoriais, concretos, particulares. Se é assim, os anjos e demônios lidam com uma ordem de informação diferente daquela que a memória e a imaginação são capazes de receber. Deste modo, não se poderia admitir que anjos e demônios possam atuar diretamente sobre a memória e a imaginação humanas, conclui imprudentemente o argumento.
A resposta de Tomás.
Os anjos não entram em comunicação inteligente com a nossa memória e com a nossa imaginação, como se pudessem transmitir a elas, diretamente, informações inteligíveis sobre a essência das coisas que conhece. Na verdade, eles atuam sobre a memória e a imaginação pela capacidade que têm de movimentar as coisas materiais, o que possibilita que eles alterem fluxos neurais, hormônios corporais, estímulos elétricos ou conexões, causando impressões que alteram a memória e a imaginação quanto ao que está ali depositado; não se trata, portanto, de uma transmissão de conhecimento, mas de uma alteração de estados físicos com consequências no nosso processo humano de conhecimento.
O quarto argumento objetor.
Quando somos levados pela imaginação, tendemos a projetar em nossa mente coisas que não são reais, e tomamos a representação imagética da mente pela realidade. Há, aí, um processo que é enganoso, porque cria um mundo falso em nosso pensamento, mesmo que seja um mundo criado como literatura ou explicação mítica do mundo ou metáfora para explicar o que é metafísico, transcendente a nós. Somente aquilo que é positivo, experimentável, empírico e evidente aos sentidos, segundo o argumento, é real; o resto, segundo diz, é enganoso e vazio.
Mas os Santos Anjos não podem participar de processos enganosos, ilusórios para nós. E isto aconteceria se eles pudessem atuar em nossa imaginação ou memória provocando experiências, visões e conhecimentos que não foram empiricamente causados pelo mundo externo e real.
Assim, conclui levianamente o argumento, os anjos e demônios não podem atuar diretamente sobre nossa memória e imaginação.
A resposta de Tomás.
Quando o anjo nos inspira conhecimentos elevados, atuando em nossa memória e nossa imaginação para nos infundir conhecimentos e inspirações que ultrapassam aquilo que empiricamente nos é possível conhecer, eles também nos capacitam ao nos associar à sua própria capacidade intelectual superior, a fim de que possamos entender e aceitar o que nos ultrapassa – como fez o anjo que revelou a José a origem maravilhosa de Jesus em Mateus 1, 20. Mas, algumas vezes, graças ao abuso de nossa própria liberdade ou mesmo à limitação de nosso intelecto, alguns significados transcendentes permanecem ocultos para nós, como um dia permaneceram ocultos para muitos que ouviram Jesus falar em parábolas. Isto é, aquilo que é atuação direta sobre nossa memória e nossa imaginação pode ser, perante nossa liberdade, apenas uma influência indireta em nossa vontade, e nossas más escolhas não são de responsabilidade dos anjos nem de Jesus.
- Concluindo.
Atenção, vigilância, oração, vida sacramental, amor ao próximo, autodomínio e discernimento. Estes são os passos para uma batalha em que os outros soldados – tanto os do nosso lado, quanto os do inimigo – são muito mais fortes do que nós e nos são invisíveis. Eles têm poder sobre nós, e nós sequer podemos vê-los. Disto tudo ressai o tamanho do valor da encarnação, morte e ressurreição de Jesus: o general, ou melhor, o próprio imperador do universo, fez-se um de nós, para nos guiar nessa luta. Sigamo-lo.
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