- Retomando.
A experiência de perceber intuições, inspirações, insinuações e mesmo vozes em nossas mentes que parecem não ser nossas é muito comum e muito antiga na humanidade. Isto não é verdade apenas para as experiências ruins ou maléficas, mas também para inspirações e influências positivas, belas, benfazejas: é, por exemplo, o caso das “musas” gregas que, como eles acreditavam, inspiraram artistas a grandes obras de arte.
Também a experiência de falsas memórias e até mesmo a experiência de imaginações fantásticas, que levam até a regimes de governo cruéis baseados em sonhos mirabolantes, é também muito comum. Em que medida estas experiências decorrem de nossas relações com seres espirituais?
Vimos no texto anterior, a hipótese de que anjos e demônios não teriam poder para agir sobre nossa imaginação, e estudamos quatro argumentos que tentavam comprovar esta hipótese. Por fim, vimos o argumento bíblico que ensina que homens e mulheres santos receberam inspirações angelicais, inclusive no sono, como São José.
Vejamos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás sobre este assunto.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Os Santos anjos podem, de fato, atuar efetivamente sobre nossa memória e sobre nossa imaginação, inscrevendo nelas impressões, insinuações, inspirações e estímulos. E isto se justifica do modo que Tomás passará a nos explicar.
Já sabemos que os anjos e os demônios podem deslocar espacialmente as coisas materiais; vimos isto na questão 110, artigo 3, conforme textos que publiquei aqui, aqui e aqui. As coisas corporais, materiais, obedecem ao poder dos anjos (para realizar a vontade de Deus) e dos demônios (estes últimos sob a permissão de Deus, para maior glória dos santos). Ora, em nós, como já sabemos, memória e imaginação são funções relacionadas aos órgãos corporais. São aquelas funções que armazenam e relacionam, em nosso cérebro, os dados e estímulos obtidos por nossos sentidos. Assim, a nossa vontade e a nossa inteligência, sendo imateriais, estão livres da influência direta das inteligências espirituais de anjos e demônios – eles não podem ler nossos pensamentos ou anular inteiramente nossa vontade por atuação direta. Mas nossa imaginação e nossa memória são funções corporais, e por isso podem sofrer atuação direta de anjos e demônios.
De fato, não somente os anjos e demônios podem provocar ilusões sensoriais, como podem, pela alteração de nossos hormônios e de nossos neurônios e das conexões entre eles, provocar visões e delírios. Deste modo, anjos e demônios podem influir, por exemplo, em nosso sono, provocando sonhos (como no já mencionado caso da anunciação a São José em Mateus 1, 20, ou mesmo em crises de surtos e possessões demoníacas documentadas em todos os tempos e culturas. Mesmo os animais, diz Tomás, podem sonhar, podem sofrer influências deste tipo, como Aristóteles, muito antes da era cristã, documentou na obra sobre o sonho e a vigília.
A nós resta confiar no fato de que nossa inteligência e nossa vontade, sendo espirituais, estão livres de tais atuações diretas. Mas não estão livres de influência indireta: uma vez que somos seres bio-psíquicos e espirituais, não é incomum que a atuação em nossa memória e em nossa imaginação leve o ser humano até à insanidade mesma. A experiência humana mostra isso também.
Mas atenção: a influência e a atuação espiritual que pode levar à insanidade são distintas das doenças mentais e neurológicas. Muitas pessoas que têm doenças mentais e neurológicas podem, apesar de suas limitações, desenvolver grande santidade e lucidez. A influência demoníaca é de outra natureza.
É certo, portanto, que nós podemos sofrer a atuação dos anjos em nossa imaginação e em nossa memória, para nossa condução e santificação, como podemos receber a atuação demoníaca nessas mesmas faculdades, para nossa perdição. Vivamos essa guerra espiritual cega na confiança em Jesus (mais até do que em nossos próprios afetos interiores) e na caminhada sacramental, única forma de ter certeza de que estamos no lado certo da batalha.
- Encerrando.
Os antigos – culminando com Tomás – tinham sua própria teoria sobre aquilo que, hoje, chamamos muitas vezes de “inconsciente” ou “subconsciente” – as forças que influenciam, a partir de dentro, nossas escolhas e nossos comportamentos sem pertencerem à consciência, àquilo que chamados de “nós mesmos”. É claro que nossa mente, diferentemente dos anjos, não é consciente, nesta vida, de todas as forças que movem nosso interior. Mas os antigos estavam convencidos de que uma parte, pelo menos, daquilo que agita nosso interior não nos pertence, mas possui vida e inteligência próprias. Somos soldados cegos numa luta que ocorre, em grande medida, em nossos corações. E estejamos certos de que, pela comunhão dos santos, aqueles que lutam em nosso favor são muito mais poderosos do que os que lutam contra nós. E que somente com nosso consentimento, dado em algum grau, é que eles podem prevalecer.
No próximo texto estudaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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