- Introdução.
O ser humano tem inteligência e vontade; já sabemos que estas características são espirituais, isto é, funcionam de modo independente, com relação ao corpo. Isto, como já vimos, pode ser constatado pelo simples fato de que a inteligência pode contemplar seus próprios pensamentos, a vontade pode querer suas próprias vontades, a vontade pode querer que a inteligência pense e a inteligência pode discernir que é bom querer o que se quer. Isto, a capacidade de reflexão de uma capacidade, é a marca do espiritual, porque a matéria não pode dobrar-se sobre si mesma.
Ora, já vimos, nos textos anteriores, que os anjos não têm poder sobre outros espíritos, no sentido de que não pode determiná-los, não pode movê-los, não pode desvendar sua interioridade. Anjos não podem ler pensamentos nem vontades, embora às vezes a sua capacidade intelectual permita que eles deduzam facilmente os pensamentos alheios a partir de sinais externos. Mas os anjos e demônios, como já vimos também, podem mover espacialmente, podem deslocar a matéria.
Ora, como já sabemos também, as capacidades sensoriais do ser humano são vinculadas ao corpo, e portanto são compostas de forma e matéria. Deste modo, os sentidos, o sentido comum, a memória e a imaginação estão sujeitas à ação dos anjos, porque dependem de órgãos corporais, materiais, para funcionar, e esses órgãos podem sofrer a atuação dos anjos. Mas como isso acontece? É o que vamos estudar agora.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial sempre visa despertar o debate, provocando-nos a pensar sobre alguma coisa que, anteriormente, não foi refletida. Aqui, a hipótese inicial nos propõe que os anjos não têm poder para agir sobre a imaginação humana. Há quatro argumentos iniciais que se propõem a comprovar esta hipótese polêmica inicial.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O argumento lembra que, segundo Aristóteles, a nossa imaginação é ativada pelo funcionamento efetivo de nossos sentidos. No sentido propriamente filosófico, a imaginação não diz respeito à criatividade desenfreada, ao pensamento liberto de qualquer compromisso com a realidade circundante, como parece ser a ideia que temos, hoje em dia, sobre ela. A nossa imaginação, na verdade, é a faculdade que reúne e ordena os dados colhidos pelos nossos sentidos (visão, tato, audição, paladar e olfato) de modo a formar imagens em nossa mente, imagens que viabilizam nosso conhecimento intelectual a respeito do mundo que nos cerca.
Ora, se essa imaginação é uma faculdade que reúne os dados sensoriais obtidos sobre as coisas reais que nos cercam, e uma vez que os anjos são seres estritamente imateriais, fica claro, diz o argumento, que os anjos e demônios não podem, de modo algum, atuar sobre a nossa imaginação, conclui.
O segundo argumento objetor.
Como sabemos, os sentidos captam os dados das coisas reais (seu cheiro, aparência, sabor, textura, sons) e armazenam esses dados na memória; a imaginação organiza esses dados em imagens, que são, na verdade, as formas das coisas, abstraídas de suas condições particulares: formas abstratas, portanto. A imaginação é como o espaço corporal, material, no qual as formas são depositadas já abstratamente, para dar origem ao conhecimento intelectual, universal e abstrato. Neste sentido, os dados guardados na imaginação são mais gerais, mais universais, mais preciosos do que os dados que existem nas próprias coisas que existem individualmente na natureza.
Ora, já vimos, em debates anteriores, que os anjos não têm poder para imprimir formas diretamente na matéria, dando origem a novas coisas concretas. Eles não podem, por exemplo, fazer surgir uma pedra ou, digamos, uma planta, a partir de matéria preexistente. Os anjos não podem gerar novas coisas individuais pela composição entre matéria e forma.
Ora, se eles não podem imprimir a forma na matéria individualizante, muito menos eles poderiam imprimir, do nada, novas formas abstratas na matéria corporal que constitui a imaginação. Portanto, os anjos não podem atuar diretamente na imaginação humana, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento lembra que, como Santo Agostinho ensinava, os anjos se comunicam por meio da influência recíproca de suas mentes imateriais, espirituais, quando um anjos transmite ao outro seu conhecimento inteligível, imaterialmente, fazendo com que o outro compreenda intelectualmente aquele conhecimento ou, caso se trate de algum conhecimento que ultrapasse sua própria capacidade intelectual, aceite o conhecimento detido pelo outro e a ele revelado.
Ora, é próprio da imaginação receber dados sensoriais, concretos, advindos de estímulos sensoriais. Mas os anjos não têm órgãos sensoriais nem lidam com informações deste tipo, nem a imaginação tem a capacidade de receber diretamente informações intelectuais vindas de alguma mente externa. Assim, os anjos e demônios não podem atuar diretamente sobre a imaginação humana, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
Se a imaginação pudesse receber estímulos diretamente dos anjos, isto significa que ela guardaria imagens que não correspondem às coisas reais, mas a estímulos vindos de outra mente. Mas imagens que não correspondem a coisas reais são simplesmente falsas e enganosas. Ocorre que um santo Anjo não pode ser causa de engano para o ser humano; e, se os bons anjos não têm esse poder, tampouco os demônios seriam capazes disso. Assim, os anjos e demônios não podem atuar sobre a imaginação, causando visões imaginárias, conclui o argumento.
- O argumento sed contra.
Sabemos que, após apresentar os argumentos iniciais que tentam comprovar a hipótese controvertida, o artigo apresenta um argumento que nos impede de aceitar aquela hipótese.
Aqui, o argumento traz um argumento bíblico. A Bíblia nos conta, em várias passagens, a respeito de sonhos que, por meio de visões imaginárias, revelam alguma coisa aos respectivos sonhadores, e isto se dá por intervenção dos anjos. Isto ocorre, por exemplo, com São José em Mateus 1, 20. Ali, as Escrituras narram que um anjo apareceu a São José em sonho, e lhe revelou: “José, filho de Davi, não temas receber Maria por esposa, pois o que nela foi concebido vem do Espírito Santo”.
Ora, uma vez que a própria Bíblia nos ensina que os anjos são capazes de provocar visões imaginárias em sonhos, devemos acreditar que eles podem atuar diretamente sobre a imaginação humana.
- Encerrando.
Rico debate, com consequências que se espalham muito além deste artigo. Em que medida as nossas inspirações, nossas influências interiores, nossas inclinações, e até mesmo nossas intuições e memórias mais internas são resultado dessa influência dos anjos (e dos demônios) em nós? Se por um lado os nossos sentidos e a nossa razão são confiáveis, porque não se enganam quanto a seus objetos, por outro lado as estruturas que existem entre os dois podem ser objeto da ação de seres espirituais. Veremos mais sobre isto no próximo texto.
Deixe um comentário