1. Retomando.

Nem tudo aquilo que atrai a nossa vontade o faz por livre escolha nossa. Difícil, para nós, hoje, entender isto. De fato, para os antigos, parecia muito óbvia uma verdade que ainda deveria ser óbvia hoje: aquilo a que a vontade humana se inclina necessariamente não se opõe à liberdade. Vale dizer: o fato de que nossa vontade é atraída pelo desejo de completude, de repouso no bem, de plenitude que os antigos chamavam de felicidade, e o é de modo necessário, não implica que a vontade não se incline para a felicidade livremente. A liberdade consiste, justamente, em seguir esta inclinação à plenitude e alcançá-la. A falta de liberdade consiste em ser impedido a alcançar a plenitude, e a plenitude consiste em desejar o bem universal, alcançá-lo e repousar nele. Em suma, como diz o próprio Tomás na obra “Quaestiones de Potentia, “a necessidade natural, segundo a qual se diz que a vontade necessariamente quer algo, como a felicidade, não entra em conflito com a liberdade da vontade. De fato, a liberdade se opõe à violência e à coação, e não há compulsão naquilo que move algo de acordo com a estrutura de sua natureza; mas há violência e compulsão, de fato, quando o movimento natural é impedido. Ali onde a vontade livremente deseja a felicidade, ela assim a deseja necessariamente. (q. 10, a. 2)”. 

Por isto, somente Deus pode mover necessariamente a vontade. E isto representa justamente a plenitude da liberdade humana. Os anjos – e os próprios sujeitos humanos – somente podem persuadir a vontade, mas nunca determiná-la com necessidade, porque nem anjos, nem seres humanos, são bons sob todos os aspectos, nem podem propor à vontade algum bem que o seja em todos os aspectos.

Vimos tudo isto no texto anterior. Passamos, agora, a estudar as respostas de Tomás Às objeções iniciais.

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que, na Carta aos Hebreus (1, 7), citando o salmo 103, 4, está registrado que “Ele [Deus] faz dos seus anjos sopros de vento e dos seus ministros chamas de fogo”. Comentando essa passagem, a chamada “Glosa interlinear”, que comentava as passagens bíblicas no tempo de Tomás, afirma que os anjos são chamados de fogo porque são ferventes de espírito e queimam nossos vícios. Ora, prossegue o argumento, os anjos não poderiam queimar nossos vícios se não fossem capazes de determinar nossa vontade de modo a cessar nossas condutas viciosas. Assim, os anjos podem determinar a vontade humana, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Não há dúvida de que os Santos Anjos podem queimar nossos vícios e inflamar nossas virtudes, diz Tomás. Mas eles o fazem por meio da persuasão, que não vincula de modo necessário a vontade, mas apenas a atrai para o bem ou afasta dos vícios por estímulos orientadores, não por algum tipo de determinação irresistível. 

O segundo argumento objetor.

Segundo São Beda, o Venerável, o Diabo não é o causador de nossos maus pensamentos, mas é o incentivador. Mas São João Damasceno vai além, e diz que o Diabo é o próprio causador de maus pensamentos, ensinando que toda malícia e as paixões imundas entram em nossas cogitações por influência dos demônios, porque há a permissão de que causem tais pensamentos nos homens. Ora, prossegue o argumento, pela mesma razão deveríamos admitir que os Santos Anjos podem causar e incentivar bons pensamentos em nós. Mas nem os anjos, nem os demônios, teriam este poder sobre nós se não pudessem determinar nossa própria vontade. Assim, anjos e demônios podem determinar nossa vontade, conclui imprudentemente o argumento.

A resposta de Tomás.

Quem controla os nossos pensamentos, diz Tomás, é a nossa própria vontade. Pensamos porque queremos pensar, e pensamos no que queremos pensar. Assim, nem anjos, nem demônios, podem causar diretamente pensamentos em nós. 

Mas isto não significa que os demônios não possam sugerir, incentivar, influenciar e até propor pensamentos maus, estimulando, persuadindo, seduzindo nossa mente para o mal, acendendo sentimentos, estimulando paixões e emoções. É disso que São Beda fala, e que São Damasceno descreve com a palavra causar, porque todas essas ações demoníacas são interiores a nós, ocorrendo em nosso coração. 

Quanto aos bons pensamentos, eles são sempre atribuídos a Deus, mas o ministério dos Santos Anjos funciona no sentido de, por sua influência, provocá-los em nós. Portanto, os anjos e os demônios não podem determinar nossa vontade, mas podem exercer uma influência muito forte sobre ela

 O terceiro argumento objetor.

Quando estudamos o primeiro artigo desta questão, vimos que os anjos podem iluminar os seres humanos, por estímulos em sua sensibilidade, imaginação e memória. Ora, a sensibilidade, a imaginação e a memória, no ser humano, estão a serviço do intelecto, e podem ser diretamente modificados pelos anjos. 

De modo similar, portanto, as inclinações sensoriais, como os apetites sensíveis, decorrem diretamente dessas faculdades citadas, Logo, os anjos podem mover diretamente esses apetites, porque podem estimular diretamente as capacidades que determinam esses apetites.

Se a inteligência humana é iluminada pelos anjos pela atuação direta sobre as capacidades de apreensão, então a vontade humana, diz o argumento, pode ser dirigida pela atuação sobre os apetites sensíveis, conclui. Portanto, o argumento, imprudentemente, propõe que anjos e demônios podem dirigir e determinar a vontade humana.

A resposta de Tomás.

Na nossa vida biológica, aqui na nossa caminhada na Terra, nossa inteligência depende inteiramente da nossa sensibilidade, da nossa memória e da nossa imaginação para inteligir. Assim, a influência dos anjos sobre essas capacidades leva necessariamente à iluminação de nosso intelecto, por ação angélica. 

Mas a vontade não está submetida às inclinações sensíveis do mesmo modo que a inteligência está submetida às potências sensíveis. Por isso, mesmo que um anjo (ou um demônio) venha a dominar e possuir integralmente nossas faculdades corporais, a nossa vontade continua a ter a liberdade de rejeitar os estímulos e influências sensíveis e decidir seguindo a inteligência. Portanto, o argumento não procede: os anjos e os demônios nunca podem determinar infalivelmente a vontade humana, diz Tomás, e por isso, mesmo sob influência ou possessão demoníaca, a responsabilidade individual humana permanece em algum grau.

  1. Concluindo.

Recentemente, um filme muito interessante e muito bem produzido, chamado Nefarious, retratou a situação de um assassino em série condenado a pena de morte que deve ser examinado por um psiquiatra para determinar sua sanidade. O condenado apresenta uma suposta possessão demoníaca que, segundo propõe o filme, excluiria sua responsabilidade pessoal pelos homicídios e o livraria da pena de morte. No entanto, se seguirmos atentamente os ensinamentos de Tomás, veremos que mesmo a possessão demoníaca completa encontra limite na natureza espiritual da inteligência e da vontade do possuído, que jamais pode ser completamente dominada pelo demônio. Portanto, mesmo sob possessão, remanesce, em algum grau, embora talvez diminuída, a responsabilidade pessoal do possuído por suas ações lesivas a outros.