1. Retomando.

Nós, pessoas de hoje em dia, pensamos na nossa vontade como uma capacidade autônoma e incondicionada de tomar decisões; e quanto mais essas decisões forem tomadas sem ou fora das inclinações naturais, mais moralmente perfeitas elas seriam, para nós. Vivemos na era da autonomia da vontade, e tudo isto seria impensável para Tomás. Para ele, a vontade é o apetite da razão, então ela não se move autonomamente, nem independentemente das inclinações, mas justamente por causa delas, uma vez que a vontade não é o fundamento da liberdade: a liberdade, para os antigos, está na razão, não na vontade. Assim, alguém que imagina que a autonomia da vontade, sua arbitrariedade, sua desconexão de qualquer outro fundamento senão o próprio querer, representaria a expressão de alguém livre, seria alguém muito estranho, para Tomás. Seria um orgulhoso, um arrogante, um verdadeiro insano. Não é a vontade que move a si mesma, mas é o bem, tal como reconhecido pela razão, que a move. A vontade não se move porque um sujeito humano se considera poderoso o suficiente para escolher o que quiser, sem condicionamentos de inclinação, como nós pensamos hoje: ela se move porque reconhece o bem e nos inclina para ele. Deste modo, ela flutua com uma certa indefinição, um livre arbítrio perante as coisas criadas, simplesmente porque ela busca o bem universal, o bem incondicionado – ela é o apetite da razão, e o objeto da razão é a verdade total, completa. Assim, perante o bem incondicionado, universal, completo, que é Deus, já não há escolha: a vontade se move com necessidade, e nesse movimento necessário ela se torna plenamente livre, porque alcança aquela única coisa que a faria descansar na felicidade: o bem completo.

Portanto, ao contrário do que pensamos hoje, o livre arbítrio não é a marca da liberdade, mas a marca de que ela ainda não chegou, defende Tomás, e com ele todo o mundo antigo. 

Mas estamos nos desviando, entrando em debates filosóficos profundos, em vez de nos dirigir ao âmago da questão. O debate, aqui, é se anjos e demônios podem mover a vontade do ser humano com necessidade. Os termos da controvérsia foram estabelecidos no texto anterior. agora examinaremos a resposta de Tomás a esta bela discussão. 

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

A vontade individual não é um absoluto, não é uma capacidade incondicionada de escolher arbitrária e indiferentemente aquilo que apraz ao indivíduo; esta visão, que temos hoje, não é, de modo algum, a visão de Tomás – e, eu diria, não é a visão verdadeira. Imaginamos, hoje, que a vontade é o centro da liberdade, e seu movimento incondicional pelo indivíduo seria a marca do ser humano livre. Nada mais distante da visão de Tomás. 

Para Tomás – e na verdade dos fatos – quem move a verdade é o bem. A vontade é o apetite da razão, e, portanto, tem a mesma abertura para a realidade do ser que tem a razão. Os sentidos têm seus próprios apetites: a fome é o apetite dos sentidos ativados por alguma comida apetitosa. Ocorre que os sentidos só têm abertura para um aspecto da realidade, aquele que os estimula a se aproximar ou a fugir de um determinado objeto. Assim, quando se depara com o objeto certo, os apetites sensoriais não podem refletir sobre outros aspectos do bem senão aqueles que imediatamente se dão aos sentidos. Por isso, todo objeto dos sentidos é bom sob todos os aspectos, para o respectivo apetite, e por isso o objeto move necessariamente o apetite sensorial. 

Mas não é assim com a vontade. Uma vez que ela tem a mesma abertura para o bem que a razão tem para a verdade, isto significa que, do mesmo modo que a razão não se aquieta senão na presença daquilo que é verdade sob todos os sentidos, isto é, Deus, também a vontade somente se aquietaria quando pudesse repousar naquilo que é bom sob todos os sentidos, isto é, Deus. Então, uma vez que nenhum bem criado pode mover irresistivelmente a vontade, somente Deus pode mover irresistivelmente a vontade. 

Assim, para Tomás, e para toda a tradição pré-moderna, não é o indivíduo que move a sua própria vontade indiferentemente. É o bem que move a vontade, e o fato de que nada, neste mundo criado, contém o bem absoluto, resta ao livre arbítrio ponderar, dentre os bens criados, aqueles que mais atraem a vontade num dado momento e lugar, de tal modo a aumentar a felicidade, isto é, alcançar o bem possível num dado contexto.

Com tudo isto em mente, passamos a estudar diretamente a resposta de Tomás.

De duas maneiras, diz Tomás, a vontade pode ser movida. A maneira interior e a maneira exterior.

Quem ou o que move a vontade a partir de dentro dela mesma? Aqui, nós modernos teríamos a tendência, derivada do pensamento de Descartes e principalmente de Kant, de achar que só quem move a vontade a partir da interioridade é o próprio sujeito humano, quanto à sua própria vontade. Mas Tomás nem cita o sujeito individual como aquele que move a vontade internamente: Tomás, aqui, de um modo surpreendente para nós, afirma claramente que somente Deus pode mover a vontade a partir de dentro!

De fato, se a vontade se move sempre para o bem, diz Tomás, por ter sido criada deste modo por Deus, somente aquilo que é bom sob todos os aspectos é que pode mover a vontade. Aquele que criou a vontade o fez de tal modo que somente ele pode ser o objeto perfeito e infalível para movê-la. Entendendo bem, aqui: esse “objeto” perfeito para a vontade é um sujeito, ou melhor, é o sujeito por definição. Deste modo, Deus, ao criar a vontade, fê-lo de tal modo que somente ele é capaz de movê-la infalivelmente. E o faz doando a si mesmo àquela criatura dotada de vontade. Deste modo, Deus conduz a vontade a partir de dentro, porque a criou, e a criou para si mesmo, não porque queira controlá-la ou dominá-la, mas porque quer se doar a ela

Mas há um outro meio pelo qual a vontade pode ser movida: a partir de fora dela mesma, ou seja, a partir dos estímulos que recebe. Isto é o que Tomás chama de mover a vontade a partir do exterior. E de dois modos a vontade pode ser movida a partir desses estímulos: a partir dos estímulos intelectuais e a partir dos estímulos sensoriais. Com a advertência de que nós, humanos, somos seres simultaneamente intelectuais e sensoriais, de tal modo que aquilo que separamos analiticamente para estudar (como estamos fazendo aqui) não se separa tão claramente no concreto da vida. Mas vamos estudar considerando essa distinção, que não é separação.

Nos anjos, que também são indivíduos dotados de inteligência e vontade, somente aquilo que é inteligível é capaz de mover a vontade externamente. isto é, somente o bem que se pode captar intelectualmente é que move o anjo, porque ele não é dotado de sentidos, já que o anjo não é material. Isto não significa que os anjos não sabiam exatamente o que é um estímulo sensível e não compreendam o que ele provoca, de modo similar àquele pelo qual um adestrador ou domador de feras conhece os estímulos sensoriais que movem o animal que ele quer treinar, mesmo que sejam estímulos que não estão presentes no ser humano. Por isso, os anjos são movidos externamente pelo bem que conhecem intelectualmente, e que move sua vontade. Ora, nenhuma inteligência criada pode conhecer inteiramente o bem sob todos os aspectos. Por isso, as criaturas inteligentes, anjos e seres humanos, movem intelectualmente sua vontade, no mundo criado, de um modo sempre limitado e imperfeito, porque limitado e imperfeito é seu intelecto na relação com o bem inteligível. Nossa vontade é movida por nós por meio da persuasão

Entre nós, humanos, as correntes psicanalíticas e psicológicas de modo geral lidam justamente com essa imperfeição da relação entre nossa inteligência e nossa vontade. Com a ressalva, que Tomás faz (também sem jamais ter conhecido a psicanálise), de que Deus, sendo o bem infinito e a plena inteligibilidade, é capaz de mover infalivelmente a vontade também a partir de fora: conhecer de fato a essência de Deus, deixar-se alcançar por sua maravilhosa revelação, é amá-lo e alcançar, por necessidade, a plena liberdade. Paradoxo que nós, modernos, já não conseguimos aceitar.

Para nós, humanos, existe ainda outra possibilidade de mover externamente a vontade: justamente por meio dos estímulos sensoriais, que os anjos não recebem (mas conhecem). Assim, sentimentos (paixões) desencadeados por estímulos sensoriais externos (como a libido, a ira, o medo) podem mover a vontade; embora esses estímulos sejam sempre filtrados, de algum modo, pela inteligência (salvo casos extremos), eles podem, de fato, mover a vontade humana. E, como sabemos, os anjos e demônios podem eventualmente criar esses estímulos, movendo o mundo material (respeitadas as leis naturais que regem o universo criado e a permissão de Deus).

Assim, os anjos podem mover nossa vontade, por persuasão, por estímulo, mas não podem determinar a nossa vontade a mover-se necessariamente

  1. Encerrando.

Como dizia Santo Agostinho, Deus é “interior intimo meo et superior summo meo” (Confissões, III, 6, 11). Isto é, Deus está mais no meu interior, conhece a minha vontade e influi nela muito mais do que eu mesmo; nossa maior tarefa consiste em preparar nosso terreno para receber a graça e não atrapalhar nosso próprio processo salvífico.

No próximo texto estudaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.