1. Introdução.

O que está em jogo, aqui, é a própria autonomia do ser humano, frente a essas criaturas muito mais poderosas espiritualmente do que nós – os anjos e os demônios. Se eles são capazes de movimentar espacialmente as coisas, e se nós somos seres materiais, o que impede que os seres espirituais possam determinar diretamente a nossa vontade?

Neste caso, já não seríamos responsáveis pelo que acontecesse em nossa própria vida: jamais poderíamos saber se as decisões que tomamos, as inclinações que seguimos, as ações que escolhemos, são de fato nossas, ou se não são o resultado de uma determinação externa de algum anjo ou demônio. Até no caso de uma completa possessão demoníaca, teríamos que admitir que o possuído já não é responsável de modo algum, porque já não escolhe nem decide nada em sua vida. O que teria consequências inimagináveis, inclusive na vida civil: a responsabilidade penal já não decorreria da liberdade humana, mas da vulnerabilidade do indivíduo às forças externas, boas ou más, que determinam de fora sua vontade. Todos os nossos méritos humanos, assim como todos os nossos crimes, já não seriam, necessariamente, nossos. Ou, pelo menos, seria praticamente impossível determinar quando o são e quando não o são.

Isto causa repugnância às nossas consciências. Por um lado, temos a noção de que há muito mais fatores determinando as nossas escolhas do que simplesmente nossos apelos racionais frios (e estão aí os freudianos para nos mostrar o contrário), mas há também a percepção de que, no fim, somos nós, seres humanos maduros e livres, quem dá a última palavra sobre nossa vontade. Não somos marionetes nas mãos de entidades espirituais mais poderosas do que nós, embora estejamos em grande desvantagem porque não os podemos ver, ao passo que eles não só podem nos ver, como podem movimentar inclusive a matéria de que somos constituídos. E isto significa alterar emoções, sentimentos, imaginação. percepções e memórias, já que tudo isto tem, em nós, uma dimensão material que pode sofrer a influência de anjos e demônios. Mas a vontade, mesmo em nós, é puramente imaterial, e por isso não pode ser diretamente determinada por ninguém senão pela própria pessoa.

Mas estamos nos adiantando. Vamos examinar o próprio e importantíssimo artigo.

2. A hipótese controvertida inicial.

A primeira hipótese, para começar a discussão e nos levar a um conhecimento mais profundo sobre o tema, é a de que os anjos podem determinar a vontade dos seres humanos, se o quiserem. Podem suplantar nossa capacidade de decidir, de querer, de tomar decisões, e nos impor as decisões deles como nossas, porque teriam o poder natural de modificar diretamente nossa vontade, suplantando a nossa autonomia, sempre que o quisessem. Assim, em algumas oportunidades em nossas vidas, foram os anjos (ou os demônios) que tomaram decisões por nós em nossas vidas, decisões que pareciam nossas. Para tentar comprovar esta hipótese bastante controvertida, o artigo apresenta três argumentos objetores iniciais.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que, na Carta aos Hebreus (1, 7), Deus mesmo diz, a respeito de seus anjos: “Ele faz dos seus anjos sopros de vento e dos seus ministros chamas de fogo”. Comentando esta passagem, a Glossa, quer dizer, o comentário bíblico medieval, afirma que os anjos são como chamas de fogo porque são fervorosos de espírito e são capazes de queimar nossos vícios. Mas para que possam queimar nossos vícios com seu fervor, eles precisariam ter o poder de entrar em nossa vontade e modificá-la diretamente, fazendo com que nossas escolhas se tornem mais virtuosas. Então os anjos são capazes de determinar diretamente nossas vontades, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Este argumento resgata um ensinamento de São Beda, o Venerável. Este antigo santo nos diz que o Diabo não somente nos envia maus pensamento, mas os inflama dentro de nós. São João Damasceno complementa isto afirmando que o Diabo é um verdadeiro causador do mal, ao escrever: “toda malícia e todas as paixões imundas entram em nossas cogitações por influência demoníaca, já que lhes é permitido causá-las nos seres humanos”. De modo semelhante, prossegue o argumento, os Santos Anjos causam e incitam os bons pensamentos. Assim, os anjos e demônios possuem efetivamente o poder para modificar diretamente nossa vontade, conclui apressadamente o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento diz que, como vimos no primeiro argumento, os anjos e demônios têm acesso à nossa memória e nossa imaginação, e podem provocar uma influência ali, mexendo com representações imaginárias e até mesmo com lembranças e emoções, porque tudo isto envolve nossas capacidades corporais de perceber e explorar empiricamente o mundo. Portanto, eles podem até determinar nossos apetites sensoriais, atraindo-os para as falsas representações que nos implantam ou para as boas representações que despertam. Ora, o intelecto depende dessas representações sensoriais e do conteúdo da memória e da imaginação para inteligir; a vontade, por outro lado, não é independente nem do intelecto, nem dos apetites sensíveis, que podem ser, portanto, diretamente influenciado por essas criaturas espirituais. Assim, deve-se concluir que eles podem penetrar e determinar a própria vontade, pelas imutações e influências que podem fazer em nós, diz este argumento.

4. O argumento sed contra.

Chegou a hora de visitar o argumento que se põe de modo contrário à hipótese inicial e nos impede de aceitá-la, aprofundado o debate – a antítese no movimento dialético.

Aqui, o argumento contrário à hipótese inicial é retirado das Escrituras, e diz que apenas Deus poderia modificar diretamente a vontade de uma criatura inteligente, penetrando em seu coração e dirigindo-o para onde quiser. Isto não significa que Deus, efetivamente, esteja por aí violando a vontade das criaturas, porque, como diz Santo Agostinho, se Deus nos criou sem nos consultar, no entanto ele não salvará sem nossa liberdade. Mas Deus, que criou todas as coisas, tem acesso aos corações das criaturas e pode, de fato, se quiser, determinar as vontades. O argumento afirma isto com base em Provérbios 21, 1: “o coração do rei é como uma água fluente nas mãos do Senhor; ele o inclina para onde quiser”. Ora, se é assim, o único com acesso ao coração das criaturas, à sede das suas decisões mais pessoais e íntimas, é, além da própria criatura, Deus Nosso Senhor, conclui o argumento.

5. Encerrando.

Estão postos, então, os termos do debate. No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.