1. Retomando.

Estamos debatendo, aqui, se os anjos podem ou não iluminar as mentes humanas, de modo análogo àquele pelo qual um anjo mais elevado ilumina o inferior. Vimos, nos dois textos anteriores, a hipótese provocativa de que os anjos não iluminam os seres humanos, e a resposta de Tomás a ela, estabelecendo os princípios da iluminação que eles nos concedem.

A fé não é simplesmente a adesão a verdades universais reveladas, nem a simples confiança de que, independentemente dos méritos de cada um, Deus o salvará no final apenas pela confiança depositada em Jesus. A fé deve ser colocada na categoria das relações, quer na sua dimensão objetiva (em quem crer, como crer), quanto na subjetiva (em quem creio, como creio). Trata-se, pois, de viver, na concretude da vida, como alguém tocado pela graça, e fazê-lo a cada momento e em cada lugar, atento à vontade de Deus que se encarna em Jesus e se apresenta em nossa vida, sempre no tempo e no espaço. Esta relação, portanto, ultrapassa o conhecimento abstrato de Deus e de Jesus, e envolve intimidade com ele. Esta intimidade, que determina cada ato nosso, cada passo que damos, envolve a atividade dos anjos em nossa vida, não somente como atentos acompanhantes, como também como portadores da verdade de Deus para a concretude de nossa existência – iluminando-nos com o necessário para que a fé impregne cada um dos nossos atos – e como apoio de inteligência para que possamos penetrar no mistério de Deus – que nos ultrapassa infinitamente – e possamos lidar com os efeitos concretos da relação com Deus.

Vimos tudo isto nos últimos textos. Agora vamos examinar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O ser humano, diz o argumento, é iluminado pela ; segundo o próprio Pseudo-Dionísio, especialista em anjos e demônios, a fé nos é dada pelo batismo, que era chamado, justamente por isso, de sacramento da iluminação, pelos mais antigos. De fato, as Escrituras atestam que a iluminação vem da fé, que é dom do próprio Deus (Efésios 2, 8): “Porque é gratuitamente que fostes salvos mediante a fé. Isto não provém de vossos méritos, mas é puro dom de Deus”. Portanto, conclui apressadamente o argumento, o ser humano não é iluminado por algum anjo, mas diretamente por Deus.

A resposta de Tomás.

Sabemos, diz Tomás, que a fé é o assentimento da inteligência humana a Deus que se revela. Ora, há, portanto, duas disposições humanas envolvidas no ato pelo qual alguém é iluminado pela fé: a inteligência e a vontade. Ora, não é por argumentação que a nossa inteligência se curva a Deus, porque ninguém é capaz de acolher a verdadeira fé apenas por causa de argumentos, por mais racionais que eles sejam, já que a fé é algo que supera a capacidade humana de argumentar. Portanto, é a vontade humana, movida pela graça de Deus, que leva a inteligência a receber a fé como verdadeira e se aperfeiçoar com ela. Santo Agostinho ensinava que só crê quem quer. E só crê quem anui com a graça que vem de Deus, quer por nos apresentar, em seu filho Jesus, a Sua palavra para ser crida, quer por mover nossa vontade a, pela graça, aderir a ele. Tudo isto, portanto, é obre de Deus, e não dos anjos.

Ocorre que, para anuir com a fé, o intelecto precisa ouvi-la, descobri-la, ser instruído naquilo que é o conteúdo ao qual deve dar seu assentimento. É por isso que São Paulo nos ensina (Romanos 10, 17) que “a fé provém da pregação e a pregação se exerce em razão da palavra de Cristo”. Assim, tanto aquelas pessoas que nos educam na fé (sacerdotes, catequistas, pais, amigos, avós, etc.) quanto os anjos, que nos ensinam e nos conduzem nos caminhos de Deus, fortalecendo nosso intelecto para conhecer melhor a revelação, contribuem no processo de iluminação do ser humano. Neste sentido, de participação, de condução, de orientação, os anjos nos iluminam quanto à fé, tanto para conhecer melhor seu conteúdo, quanto para nos ajudar com a resposta e com o modo pelo qual devemos tornar a fé operante em nossa vida.

O segundo argumento objetor.

São Paulo nos lembra (Romanos 1, 19) que se pode conhecer algo da vontade de Deus apenas pela contemplação da obra da criação, pois Deus inscreveu algo de si mesmo na criação do universo, bem como na criação do próprio ser humano. Assim, não somente pela reflexão sobre sua própria existência e sua própria inteligência, mas também pela contemplação da criação, o ser humano pode chegar a saber que há um Deus. Ocorre que tanto a inteligência humana quanto o universo são obras do próprio Deus, de modo que podemos dizer que a iluminação que ocorre, por este meio, decorre do próprio Deus, por suas obras. Assim, não são os anjos que iluminam o ser humano, conclui o argumento, imprudentemente.

A resposta de Tomás.

É certo que a contemplação da natureza pela criatura inteligente que é o ser humano pode realmente levá-lo a um certo conhecimento sobre Deus, como testemunha esta passagem das Escrituras. Mas isto não exclui a condução dos anjos, bem como sua ajuda no reforço ao intelecto humano pelo seu intelecto poderoso, de forma a iluminar o ser humano e levá-lo a um certo conhecimento de Deus pela contemplação das obras maravilhosas que são de autoria do próprio Deus. Desta forma, mesmo na chamada “revelação natural”, a participação dos anjos na iluminação dos seres humanos não está excluída, conclui Tomás.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor afirma que, quando alguém é iluminado, ele não apenas recebe um novo conhecimento, mas também sabe exatamente quem o iluminou, e quando. Ora, prossegue o argumento, nós, seres humanos, nunca temos lembrança ou consciência de alguma vez termos sido iluminados pelos anjos. Então, os anjos nunca iluminam os seres humanos, conclui imprudentemente o argumento.

A resposta de Tomás.

Tomás faz uma distinção, aqui: de fato, esta questão da iluminação pode ser encarado a partir de dois critérios: a partir do critério do objeto da iluminação ou a partir do critério do sujeito ou princípio que causa a iluminação.

Quanto ao objeto da iluminação, nós realmente temos uma consciência reflexiva: sabemos que fomos iluminados e sabemos a respeito de que fomos iluminados. Assim, quando recebemos, no batismo e na catequese, a fé, tanto sabemos que recebemos a fé como um conjunto de relações objetivas nas quais cremos, e que existe independentemente de nós, e que nos é dado por Deus no batismo (fides qua) como sabemos em que consiste esta fé que abraçamos e vivemos (fides quae).

Mas com relação ao princípio, o fato de que somos iluminados e nos reconhecemos como iluminados não implica dizer que sabemos ou conhecemos o princípio pelo qual fomos iluminados. Por exemplo, uma criança que investiga um pequeno bichinho pode tomar algum conhecimento sobre esse bichinho, mas não necessariamente desenvolverá uma teoria do conhecimento para explicar como é que seu intelecto chegou a esse conhecimento. De modo análogo, quando somos iluminados pelos anjos, não necessariamente percebemos que o princípio dessa iluminação é um anjo – normalmente não o fazemos. Mas isto não significa que algum anjo não tenha, de fato, nos iluminado.

3. Concluindo.

Os anjos nos iluminam, não somente porque a fé precisa dessa companhia constante que a torna concreta na vida, como porque, muitas vezes, ela ultrapassa a capacidade de nosso intelecto, e se faz necessário esse “acréscimo intelectual” que os anjos nos dão para nos fazer penetrar nos mistérios que seriam excessivos para nosso intelecto limitado.