- Retomando.
Estamos estudando, agora, a relação dos anjos conosco. Qual a função essencial dessa relação? A hipótese inicial, como vimos, é a de que não cabe a eles nos iluminar a respeito da vontade de Deus quanto a nós. Esta função caberia apenas ao próprio Deus, às suas obras, a Jesus, ao Espírito Santo, às Escrituras, enfim, não aos anjos.
Mas não podemos esquecer que a revelação não envolve apenas a apresentação de certas verdades abstratas ou universais sobre Deus; na verdade, ao revelar-se, Deus estabelece uma relação de amizade pessoal conosco, e passa a contar conosco na concretude de nossa vida. Assim, se, por um ladeo, as fontes da revelação (fides quae) são aquelas que conhecemos (as Escrituras e a Tradição, como interpretadas pelo Magistério, são o testemunho fiel de Jesus em sua atuação reveladora do Pai), por outro lado a apreensão da vontade de Deus em cada contexto histórico, concreto, que vivemos, envove sempre a intermediação dos Santos Anjos.
É o que veremos, agora, na resposta sintetizadora de Tomás.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
A ordem do universo, diz Tomás, no seu funcionamento natural, obedece a uma hierarquia do ser. Assim, o ser mais elevado serve ao menos elevado, orientando-o no caminho do bem. Isto se aplica, diz Tomás, às ordens dos anjos, nas quais, como vimos nas questões 109 e 110, os superiores iluminam os inferiores, tanto para alargar sua capacidade de conhecimento quanto para conceder o conhecimento que lhes falta.
Isto ocorre também entre os santos anjos e os seres humanos, levando a “comunhão dos santos” a uma dimensão muito maior do que a visível para nós. Pois, além de se iluminarem uns aos outros, os anjos também nos iluminam. Mas o modo pelo qual o fazem é diferente daquele pelo qual um anjo ilumina o outro.
De fato, os anjos são capazes de conhecer as coisas por intuição intelectual direta, vendo intelectualmente as essências daquilo que conhecem. Deste modo, quando um anjo superior quer iluminar um anjo inferior, ele simplesmente reforça o intelecto do inferior, capacitando-o a receber aquela verdade mais elevada, e em seguida transmite a ele a verdade iluminadora, de intelecto para intelecto. Para usar uma metáfora que pode tornar as coisas mais fáceis para nós, é como se os anjos conversassem entre si como o fazem os computadores, que transmitem informações diretamente em linguagem matemática, sem necessidade de uma camada simbólica que torne aquela informação perceptível ao outro antes de ser inteligível. Os computadores “conversam” entre si por impulsos elétricos, mas nós sempre precisamos de algum tipo de interface simbólica, alguma linguagem acessível aos sentidos, para conhecer os dados que estão sendo transmitidos entre as máquinas. De modo análogo, os anjos transmitem o conhecimento entre si sem necessidade de uma “camada perceptível de linguagem”: eles interagem diretamente de intelecto para intelecto.
Mas nós, humanos, não podemos receber iluminação deste modo. Não somos capazes de absorver ou transmitir diretamente a informação inteligível. Sempre precisamos de algum tipo de mediação sensível para inteligir. Assim, exploramos o mundo com os nossos sentidos e, a partir deles, extraímos o conhecimento inteligível que nos enriquece. Quando trocamos ideias, sempre usamos uma linguagem que depende de representações sensíveis, como sons, imagens, desenhos, gestos, cores, etc. Ninguém é capaz de transmitir informações nem de recebê-las de outro modo, de “mente a mente”, sem a intermediação dessa camada simbólica da linguagem.
Assim, quando os anjos nos iluminam, eles provocam, de algum modo, estímulos sensíveis em nós, quer nos nossos sentidos, quer na nossa imaginação, quer no mundo externo; deste modo, a verdade da vontade de Deus a nosso respeito chega a nós sempre mediada, sempre como que velada pelo simbólico, pelo sacramental, pelo perceptível. Somos, nós humanos, seres essencialmente formados de uma unidade entre corpo e alma, de modo que a comunicação conosco sempre se dá, também, por meio dessa unidade entre o significado e o suporte material da comunicação. Não é por outro motivo que a Igreja nos apresenta os sacramentos e os sacramentais como maneira ordinária de entrar em relação com Deus: nos sacramentos e nos sacramentais a dimensão espiritual está ligada à dimensão perceptível de um modo que pode nos atingir respeitando nosso modo de ser. Também a iluminação que os anjos nos trazem assume uma maneira assim: sempre o estímulo sensível para transmitir a verdade inteligível sobre (de) Deus.
Mas é claro que não podemos, nós, humanos, inteligir e compreender naturalmente, com nossas próprias capacidades limitadas, a dimensão da vontade de Deus que se dirige a nós; deste modo, ao nos iluminar, os anjos também podem fortalecer nosso intelecto, colaborando conosco, para que possamos aceitar e entender aquilo que Deus quer para nós.
- Encerrando por enquanto.
Estímulo sensível, transmissão e enriquecimento de nossa inteligência. É assim que a generosidade dos santos anjos nos inclui nessa relação maravilhosa que é o Reino de Deus, do qual eles são gestores também.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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