1. Introdução.

 Falar em milagres, hoje, é arriscar-se: no fundo, estamos presos, na nossa contemporaneidade, entre um positivismo radical que descarta qualquer possibilidade de milagre como algo impossível, por um lado, e uma crença pueril em qualquer truque barato, por outro: a credulidade tola, que alimenta pseudo-ciências, pseudoterapias e coaches gurus. Tomás foge dos dois extremos: ele sabe que o mundo está aberto à atuação de Deus, e que a intervenção divina é algo esperado num mundo assim. Não vivemos numa máquina, mas numa grande orquestra regida por Deus. Mas não podemos, por outro lado, crer em truques baratos. O milagre é o nome que damos à intervenção de Deus, sempre extraordinária, e não aos truques criaturais, por mais sofisticados que sejam. 

Vamos ao artigo. 

  1. A hipótese polêmica inicial.

A hipótese controvertida inicial propõe que os anjos e demônios podem realizar verdadeiros milagres, por seu próprio poder natural – o mundo material seria permeável, assim, à arbitrariedade dos anjos – um mundo inseguro, inconsistente, habitado por humanos patéticos, sujeitos ao poder miraculoso dos anjos, tanto para o bem, quanto para o mal. Há quatro argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese inicial. 

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento é teológico, e lembra a classificação de São Gregório para as ordens de anjos. De fato, diz o argumento, São Gregório diz que há uma ordem de anjos chamada Virtudes, que engloba justamente aqueles espíritos angélicos que são encarregados dos presságios e dos milagres. Ora, se há uma ordem de anjos que fazem milagres, isto deve decorrer do fato de que os anjos são capazes de superar a ordem da natureza e fazer milagres por seu próprio poder, conclui o argumento. 

O segundo argumento objetor.

Segundo Santo Agostinho, os magos e ilusionistas fazem milagres como que por um contrato particular; os bons cristãos o fazem como que pela ordem jurídica pública e os maus cristãos, pelos sinais públicos dessa mesma ordem jurídica. Ora, essa menção a um contrato particular nos milagres praticados pelos magos e ilusionistas só pode ser uma referência a algum pacto com os demônios. Ora, se é por pacto com os demônios que magos e outros malfeitores conseguem realizar prodígios, então podemos concluir que os demônios, que nada mais são do que seres espirituais decaídos, podem realizar milagres, e portanto (e com ainda mais razão) também os anjos, conclui o argumento. 

 O terceiro argumento objetor.

Santo Agostinho nos ensinava que não é absurdo acreditar que todos os fenômenos que vemos acontecer, mesmo aparentemente inexplicáveis, são, na verdade, ocasionados pelas forças que habitam por aqui mesmo, na nossa atmosfera local”. Ora, há fenômenos que ocorrem, por aqui, que não parecem decorrer de causas materiais visíveis ou identificáveis, como naquelas ocasiões em que alguém é curado de alguma doença sem tratamento  independentemente de alguma reação natural do corpo. Logo, mesmo nestes casos, se é verdade que todos os fenômenos que ocorrem por aqui têm explicação por aqui mesmo, então temos que acreditar que os anjos e demônios podem fazer milagres, e são eles os responsáveis por esses acontecimentos aparentemente inexplicáveis, conclui o argumento. 

O quarto argumento objetor.

Aquilo que é hierarquicamente superior não tem seu poder condicionado por aquilo que é hierarquicamente inferior; assim, por exemplo, um general não precisa da licença de um mero soldado para, por exemplo, tomar-lhe a arma e fazer pessoalmente a vigilância do quartel. 

Ora, se as coisas são assim, então a ordem da natureza material, que é inferior ao poder dos anjos e demônios (criaturas puramente espirituais) não pode condicionar a atuação destes na sua relação com este mundo. Isto significa que os seres espirituais não estão limitados pelas leis que regem o mundo material; vale dizer, eles podem atuar desconsiderando, ou mesmo de modo diretamente contrário, às leis do mundo físico. Ora atuar com desconsideração ou de modo contrário às leis naturais do mundo físico é exatamente a definição de fazer milagres”. Logo, conclui o argumento, os anjos e demônios têm poder para fazer milagres

  1. O argumento sed contra.

O artigo traz, neste ponto, um argumento que se opõe à hipótese inicial e demonstra seu equívoco, a partir do próprio texto bíblico. De fato, o Salmo 135(136) nos ensina, no versículo 4: “Somente Ele é que faz prodígios e maravilhas, porque eterno é o seu amor!”. Ora, se as coisas são assim (e as Escrituras nos ensinam que elas de fato o são), então somente Deus, e não os anjos ou os demônios, pode de fato operar milagres.

  1. Encerrando por enquanto.

Defender a exclusividade de Deus para operar milagres é uma verdade que nos ensina a crer tanto na consistência do universo criado, quanto na nossa própria responsabilidade quanto àquilo que de bom ou mau ocorre em nossas vidas e, finalmente, determina que precisamos confiar exclusivamente na providência de Deus quanto a tudo o que precisamos, principalmente quanto àquilo que supera nossas forças naturais. Mas estamos nos adiantando: estudaremos mais sobre isto no próximo texto, no qual examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.