1. Retomando.

Vimos o poder do pensamento sobre a matéria, como dois elementos desta mesma unidade que somos nós. Vimos, em seguida, como nós, criaturas materiais mais complexas e perfeitas, nos aproximamos dos anjos mais simples, que são mais poderosos do que nós; vimos que nosso pensamento tem poder sobre a matéria de nosso próprio corpo, porque forma com ele uma unidade; e vimos, finalmente, como os anjos têm poder para movimentar espacialmente qualquer matéria, justamente por não estarem limitados a um corpo, como nós. 

Agora veremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais. 

  1. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

  O argumento lembra que as transformações das coisas estão inscritas em sua estrutura mesma; deste modo, é em razão de sua forma substancial, que se expressa em seu genoma, que uma semente de milho resulta num pé de milho. Assim, as coisas se movem em razão de sua forma substancial. Ora, vimos no artigo anterior que os anjos não conseguem imprimir formas substanciais diretamente na matéria. Logo, os anjos não podem mover espacialmente as coisas, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

As coisas não se movem apenas em razão de sua forma substancial. É certo que, por um lado, o crescimento de um pé de milho se deve ao seu genoma, que representa sua forma substancial de milho e organiza o modo pelo qual essa planta se desenvolve. Deste ponto de vista, os anjos não participam deste crescimento, que pode ser explicado apenas pela própria estrutura da coisa. Mas os movimentos que representam deslocamentos espaciais nem sempre são explicados apenas em razão da forma substancial da coisa: veja-se, por exemplo, que os oceanos estão sujeitos às marés por causa da força da lua, e não por causa de sua própria forma substancial. Assim, nada impede que os anjos possam causar deslocamentos espaciais nas coisas materiais, conclui Tomás. 

O segundo argumento objetor. 

Segundo Aristóteles,diz o argumento, não há movimento mais fundamental, mais importante, do que o deslocamento espacial. Todas as outras transformações ocorrem, em primeiro lugar, porque existe o movimento de deslocamento espacial. De fato, é justamente este tipo de movimento que explica a própria hierarquia dos seres: os inanimados são incapazes de deslocamento espacial autônomo. Os vegetais sofrem transformações autônomas, mas, via de regra, não possuem movimento espacial autônomo. Por fim, os animais o possuem, e os seres humanos o fazem livremente. Ora, se os anjos não podem imprimir formas na matéria, transformando-a e gerando outros entes materiais diretamente, como vimos no artigo anterior, então tampouco podem realizar este que é o mais fundamental dos movimentos. Logo, os anjos não podem deslocar coisas corporais, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Os anjos, de fato, não podem realizar diretamente transformações internas nos entes materiais. Somente a própria lógica do mundo material, suas potencialidades, suas interações, a forma substancial de cada ente, é que pode explicar as gerações e transformações das coisas. Mas os anjos podem deslocar as coisas materiais de lugar, porque seu pensamento tem poder sobre a matéria – são mentes imateriais, e portanto são seres mais poderosos do que a matéria. E exatamente porque o deslocamento espacial é o mais fundamental dos movimentos, os anjos e demônios são capazes de influir indiretamente em todas as outras realidades materiais, inclusive influir indiretamente sobre suas transformações, corrupções e gerações. 

O terceiro argumento objetor. 

A nossa alma, como a alma de todos os seres vivos, não é uma “coisa”, mas apenas um dos elementos que compõem o próprio ente. Somos seres compostos de alma formal e corpo material. Portanto, continua o argumento, a mesma alma que vivifica o corpo,  tornando-o animado, por compor com ele uma unidade, é a mesma alma que provoca seus deslocamentos espaciais,conforme as suas inclinações. Logo, prossegue o argumento, para que os anjos pudessem realizar deslocamentos espaciais sobre as coisas materiais, seria preciso que eles fossem como que um elemento do mundo material, animando todas as coisas a partir de dentro, como se fossem a “alma do mundo”. Mas os anjos não são um elemento do mundo, mas seres puramente imateriais, completos em si mesmos. Assim, não podem deslocar espacialmente as coisas materiais, conclui o argumento.. 

A resposta de Tomás.

Na verdade, a alma, sendo apenas um elemento de um ser material, tem menos poder do que os anjos: ela somente estende seu poder até o corpo que ela anima, exatamente porque ela não é uma “coisa”em si mesma, mas apenas uma parte, um elemento da composição de um ente material, cujas relações com o mundo em volta de si é sempre mediada pelo corpo. De fato, não existe a possibilidade de que um ente material entre em relação com o mundo que o cerca, senão pelo corpo, porque sua mente é a mente de um ser corpóreo.

Mas os anjos são seres completos em sua imaterialidade. Assim, sua mente não depende de alguma mediação material para entrar em relação com o mundo das coisas: eles podem fazê-lo diretamente,  que os torna mais poderosos, como mentes imateriais, do que qualquer mente de um ser material. Portanto, não há paralelismo possível entre a maneira pela qual nossa mente move o nosso corpo diretamente (e as outras coisas materiais indiretamente, por meio do nosso corpo) e a maneira pela qual os anjos podem fazê-lo. Assim, os anjos se relacionam diretamente com o mundo material, e sua mente pode provocar deslocamentos espaciais das coisas corporais, conclui Tomás.

  1. Concluindo.

Para nós, é muito estranho perceber que Tomás – e com ele toda a tradição filosófica e científica até então – imputava ao poder dos anjos aquilo que, hoje, imputamos a forças físicas invisíveis e impessoais como a gravidade e o eletromagnetismo. A interação entre corpos, pensavam eles, sempre dependia de contato físico e potencialidade, de tal maneira que todo deslocamento não explicado pelo potencial do próprio ente (como a gravidade e a inércia)  eram creditados aos anjos. Se não obedecessem à razoabilidade, como as desordens da natureza, eram creditados aos demônios. Todos, no entanto, obedientes à natureza intrínseca das coisas e às suas potencialidades próprias. 

Ainda hoje o Rito do Exorcismo prevê que um dsindíicios dapossessãoo demoníaca verdadeira é a cappacidade de realizar deslocamentos espaciais não explicáveis por causas intrínsecas, como levantar ou deslocar massas enormes, com força superior a sua idade e sexo, ou mesmo tornar-se pesado a ponto de nãoo poder ser movido por pessoas ou instrumentos ordinários. Ou seja, segue existindo a intuição de que seres imateriais inteligentes e poderosos podem deslocar espacialmente coisas materiais.