1. Retomando.

Antes de entrar propriamente na resposta de Tomás, seria bom lembrar a abordagem que Descartes dá a este problema, e que ainda nos influencia muito fortemente hoje: a dualidade que opõe o pensamento e a matéria, a mente e o corpo, a natureza e a cultura. Pode-se dizer que Descartes foi o grande iniciador dessa dualidade, ao separar o pensamento, de um lado, da matéria e da extensão, de outro. Para ele, parecia claro que pensar era algo que independia da matéria, e que aquele ego que cogitava não possuía extensão. Deste modo, ele separou dois mundos, como dois mundos substancialmente diversos: o mundo do espírito, no qual a mente existe porque pensa, e o mundo da extensão, no qual a matéria seria desprovida de pensamento, porque se dava a conhecer mas não era capaz de pensar. 

A modernidade herdou, de certo modo, essa dualidade: o próprio Kant separa o mundo da natureza, dominado pelo determinismo, do mundo da liberdade espiritual, dominado pela liberdade. E até hoje a modernidade tem dificuldade para reconciliar a mente e a matéria, o pensamento e a extensão. O próprio Hegel, com o seu pensamento dialético, chega a negar a substancialidade de tudo aquilo que não é pensamento: o real é o ideal, o ideal é o real, dizia ele, negando substancialidade a tudo aquilo que não é pensamento.

Mas na visão antiga, da qual Tomás é a expressão mais articulada, essa dualidade não existe. Há apenas uma substância real, no mundo criatural: a substância composta. Tudo mais é elemento, que deve entrar em composição para que alguma coisa exista de fato. Assim, os anjos são compostos de essência e existência, porque não existem necessariamente: são pensados e dados a existir por Deus. Nós, seres materiais, somos compostos de dois elementos, a forma (ou alma, no caso de seres vivos) e a matéria, que se integram num único ente. No caso dos seres materiais inteligentes, como nós humanos, a forma é alma espiritual, isto é, capaz de pensar. Deste modo, não há dualidade entre pensamento e extensão, entre corpo e alma, entre forma e matéria. Quando pensamos em nos mover, a mesma coisa que pensa é a mesma coisa que se move. 

Posto isto, vamos estudar a própria resposta de Tomás. 

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Há uma hierarquia do ser, segundo a visão de Tomás. Desde os seres materiais inanimados até os seres puramente espirituais, como os anjos, a escala de perfeição vai aumentando; mas estas categorias não são completamente isoladas entre si, não são opostas, mas contínuas. Assim, em cada classe do ser, há aqueles seres que quase tocam a categoria superior. Por exemplo, entre os seres inanimados e os seres vivos há aquelas substâncias complexas, como os vírus, que guardam características de seres vivos e de seres inanimados. Entre vegetais e animais há seres como as plantas carnívoras, capazes de reações semelhantes a de animais mais simples. Entre os animais mais complexos e o ser humano há uma interação intensa e até um grande compartilhamento de código genético. Por fim, entre nós, humanos, e os anjos, há em comum a capacidade de conhecer e pensar.

Assim, nós compartilhamos, de modo inferior, aquilo que, nos anjos, é o próprio modo de ser: uma mente com características espirituais – que, neles, é muito mais poderosa do que em nós. Ora, a nossa alma espiritual move naturalmente nosso corpo material, que obedece à nossa mente como um princípio do composto que somos nós obedece ao princípio superior. 

De todas as transformações pelas quais passamos, diz Tomás, esta é a mais interessante, a mais importante, a mais completa: a capacidade de nos mover de um lugar para o outro. De fato, citando Aristóteles, Tomás diz que esta é a característica mais perfeita dos seres materiais, porque todas as outras transformações que os seres materiais sofrem são internas, são aperfeiçoamentos de potencialidades internas. Apenas a capacidade de se deslocar é uma potencialidade externa, quer dizer, envolve realizar uma potência que tem como referência o mundo exterior. Não é à toa que esta foi, classicamente, a maneira de diferenciar os animais dos vegetais e dos seres inanimados: animais são aqueles seres que, por serem mais perfeitos e mais complexos, são capazes de se deslocar, por suas próprias capacidades, de um ponto a outro do espaço.  

Portanto, é de se esperar que esta capacidade da nossa alma espiritual seja compartilhada pelos seres que estão acima de nós, no mundo material. E é de se esperar que a matéria receba, do espírito, o impulso para se mover. Mas a nossa mente, sendo apenas um elemento do composto que somos nós, só é capaz de mover diretamente o nosso próprio corpo, com quem, afinal, forma uma só coisa.

No caso dos anjos, porém, eles não possuem uma dimensão material em si mesmos, que limite o alcance de sua mente – que, aliás, é muito mais poderosa do que a nossa. De modo que podem mover espacialmente, com a sua mente, qualquer porção de matéria sobre a qual depositam seu pensamento. E, de fato, os antigos imputavam aos anjos aqueles movimentos materiais que hoje imputamos a forças impessoais como a gravidade ou as forças eletromagnéticas. O movimento espacial de astros e planetas, a atração magnética, a dinâmica fundamental do universo, tudo isto era, a seus olhos, prova direta da atuação dessas forças espirituais inteligentes, imateriais e poderosas que são os anjos.

Portanto, sem a atuação dos anjos, diz Tomás, toda essa movimentação espacial fica sem explicação. Mas, dizemos nós, ainda que expliquemos (como fazemos hoje) essa movimentação por meio de forças impessoais de natureza física, resta-nos reconhecer que as mentes e a matéria não estão em oposição nem são como que dois reinos sem conexão, mas a mente (ou espírito) pode mover a matéria, porque é mais penetrante e mais poderosa do que ela. A mente comanda a matéria, que a obedece. E as mentes desencarnadas comandam a matéria corporal como um todo, podendo movê-la espacialmente para a realização dos planos de Deus. É por isso que Jesus pode ordenar aos ventos e à água: “silêncio, cala-te” (Mt 8, 26 e paralelos) e será obedecido. Não porque a matéria pudesse ouvi-lo, mas porque os anjos a comandam.

3. Encerrando.

Que o espírito é mais poderoso que a matéria, isto até os filósofos idealistas contemporâneos intuíram – claro, de um modo diferente daquele que os antigos apontavam. O fato é que, onde hoje vemos a ação de forças impessoais, físicas, cegas, os antigos viam a ação dos anjos.

No próximo texto estudaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.