1. Introdução.

Talvez em nenhum outro lugar da Suma Teológica apareça de modo mais claro a diferença entre a física medieval e a física newtoniana do que aqui. De fato, os antigos não tinham uma teoria da gravitação, nem uma teoria das forças eletromagnéticas. Assim, eles precisavam explicar os fenômenos, que eles já observavam, de que os corpos parecem atrair um ao outro, e que os corpos celestes se movem e influenciam o modo pelo qual as coisas, na Terra, se comportam, inclusive os seres vivos. Ali onde Newton enxergou uma força impessoal, que ele chamou de gravidade, os antigos – Tomás inclusive – viam a atuação fundamental dos anjos que dinamizaram, de modo regular e constante, o universo. A regularidade e a constância, que para nós são traços de forças impessoais, para os antigos seriam traços de obediência; assim como os movimentos irregulares seriam, talvez, traços de que havia forças rebeldes a Deus, dentre aquelas forças invisíveis, dotadas de inteligência e vontade e capazes de influenciar no mundo material. Vê-se, então, como anjos e demônios eram muito mais próximos, para eles, do que para nós.

No artigo anterior, concluímos que os seres espirituais não podem gerar nem modificar diretamente os seres materiais. O debate agora é outro, e é essencial para a visão de mundo medieval,que precisava de uma explicação para o movimento das coisas materiais no espaço, causado por forças invisíveis.  Que forças seriam estas?  Restava perguntar se anjos e demônios poderiam deslocar as coisas materiais, movendo-as de um lugar para outro. É esta a discussão que se inicia agora.

  1. A hipótese polêmica inicial.

Nós não hesitaremos em dizer aos antigos, como faz a hipótese controvertida deste artigo, que não há anjos por aí causando o movimento local das coisas corporais no universo, porque simplesmente não há algo como o poder dos anjos para movimentar as coisas materiais. Esta é a hipótese que passará a ser debatida agora. Há três argumentos objetores iniciais que querem comprová-la. Vamos examiná-los. 

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que as coisas se movimentam em conformidade com sua forma substancial, ou seja, em razão de sua natureza e estrutura interna. Assim, um corpo inanimado pode rolar em razão de seu formato esférico, como se dá com certos seixos de rio,  uma planta pode ter um movimento determinado pela fonte de luz, como é o caso dos girassóis, ou da busca de uma presa, como os animais, ou ainda em razão de sua órbita, como os planetas. Ora, se é a forma substancial que determina o modo pelo qual um ente corpóreo se move, e se os anjos e demônios não podem (como vimos no artigo anterior) moldar as formas substanciais na matéria, então eles não podem determinar o modo pelo qual esses entes se movimentam, porque seu movimento decorre justamente de sua forma substancial. Logo, anjos e demônios não podem movimentar as coisas corporais, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Na filosofia aristotélica, toda a dinâmica do universo está fundamentada, em primeiro lugar, no movimento local; é justamente porque as coisas se mexem que elas se transformam, são geradas e são corrompidas, e deste modo o mundo material vive seu fluxo. Se não houvesse esse deslocamento espacial de lugar, nenhuma outra transformação seria possível, porque, no fim das contas, toda transformação tem sua explicação fundamental aqui.

Ora, se anjos e demônios não podem realizar transformações diretas nos entes materiais, gerando-os, corrompendo-os ou transformando-os diretamente, então estes seres imateriais também não podem causar movimentos locais de entes materiais, conclui o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Existe uma relação entre o pensamento do ser vivo material e seu movimento local; e isto se dá porque a própria alma, que pensa, também é o princípio que torna o corpo um ser vivo. O ser humano é um ser composto, no qual a matéria corporal é o elemento de individualização e a alma é o elemento de estruturação e vivificação; não são duas coisas, mas dois elementos fundamentais e integrados na mesma coisa que é composta em sua essência. Deste modo, uma vez que o corpo é vivificado pela mesma alma que pensa, então o corpo pode obedecer à alma e se movimentar espacialmente em resposta ao seu pensamento. 

Ocorre que o mundo material não é vivificado pelos anjos; então ele não pode ser movimentado pelo pensamento dos anjos. Não há analogia, portanto, entre a relação entre a alma espiritual e o corpo individual, por um lado, e o anjo com o mundo material, por outro. Assim, os anjos não podem movimentar localmente as coisas materiais, conclui o argumento. 

  1. O argumento sed contra. 

No debate, chegou agora o momento de trazer aquele argumento que se opõe à hipótese inicial. Este argumento é retirado de Santo Agostinho, que, na obra De Trinitate, que, falando das “razões seminais” das coisas (todas as potencialidades que Deus já inscreveu no universo material desde o primeiro momento da criação, como, por exemplo, naquela matéria criada ali naquele primeiro instante já existia a potencialidade para todas as variações individuais, digamos, de todas as rãs que existiram e existirão. Ora, os anjos e os demônios podem agir sobre estas sementes, fazendo-as surgir ou retardando seu surgimento, quando, por exemplo, usando das potencialidades da matéria, anjos e demônios são capazes de provocar ilusões em nós, tomando aparência humana ou fazendo aparecer coisas e animais ilusórias. Eles só podem fazer isto se forem capazes de movimentar espacialmente a matéria, para provocar figuras e ilusões. Assim, conclui o argumento, os anjos e demônios podem mover espacialmente a matéria, conclui o argumento. 

5. Encerrando.

Após estabelecermos que os anjos não são responsáveis por, digamos assim, “moldar” o mundo material, como se fossem personificações das ideias de Platão, ou mesmo uma multiplicidade de semideuses lidando com a matéria inerte, o artigo propõe debater, agora, a atuação, digamos, “mecânica” dos anjos, ou seja, seu papel como as forças da natureza que dinamizam o universo, movimentando-o; algo como se aquilo que conhecemos, hoje, como forças impessoais regidas por campos regulares e uniformes que podem ser medidos e controlados fossem, em vez disso, anjos inteligentes, disciplinados e muito obedientes a Deus causando os mesmos efeitos que essas forças que temos hoje como impessoais. É uma visão interessante, embora anacrônica para nós.