1. Retomando para concluir.

Devolver a Deus a imediatidade de origem, suporte e direção das coisas criadas; eis a importância do debate aqui estabelecido. Os anjos são, de fato, mensageiros, gestores, verdadeiros dirigentes no governo de todas as coisas, mas não são artesãos, não são criadores, não são donos, não são poderosos a ponto de prescindir da liberdade alheia e da consistência das coisas. Anjos e demônios são criaturas, não são deuses, e não podem romper a ordem intrínseca do universo. Seu poder é basicamente espiritual, embora, é claro, tenham poder sobre a matéria. Não, porém, para promover alterações substanciais ou gerar novos entes reais. Vimos tudo isto nos textos anteriores. Deste modo fica respondida a hipótese inicial, que propunha que anjos e demônios criavam e modificavam, diretamente, os seres materiais – e até mais, que isso caberia, em primeiro, a eles, e não às causas segundas do mundo material. 

Agora vamos estudar as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

  1. Os argumentos iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

Os anjos (ou mesmo um demônio) são entes mais poderosos do que qualquer alma de ser vivo corporal; mesmo quanto à alma espiritual humana, lembra o argumento, qualquer anjo, ou qualquer demônio é mais poderoso do que qualquer alma humana.

Ora, as almas dos seres vivos, e as almas humanas, são capazes de mover os respectivos corpos, perceber os estímulos físicos exteriores e fazer o corpo reagir de modo adequado, ou mesmo reproduzir-se em novos seres materiais. Ou seja, qualquer alma tem poder sobre o mundo material, para alterá-lo e até para gerar novos seres. Muito mais, portanto, conclui apressadamente o argumento, os anjos e demônios têm poder sobre a matéria, para modificar e até gerar seres materiais

A resposta de Tomás.

A alma não é uma ‘outra coisa’ frente ao corpo; ela é um dos elementos do ente, o princípio que faz com que a matéria se organize e surja o próprio corpo daquele ser. Assim, corpo material e alma são um só ente, organizado pela alma e individualizado pelo corpo. Por isso, a integração entre o pensamento e a reação corporal é natural, nos seres vivos materiais. 

Mas os anjos são verdadeiros sujeitos não-materiais, e não são parte do mundo material, como o são as almas dos seres vivos. Assim, não há paralelismo, aqui, entre as almas e os anjos. Os anjos não têm este poder que as almas têm. 

O segundo argumento objetor.

Tudo aquilo que uma força inferior, numa hierarquia, pode fazer, então a força superior a ela pode fazer. Ocorre que os seres materiais são inferiores aos seres espirituais, na hierarquia do ser. Mas os seres materiais, mesmo os inanimados, são capazes de provocar alterações em outros seres materiais, de modo direto e imediato, como os rios que cavam grandes vales, ou os vulcões que expelem lava, ou até mesmo o fogo que faz gerar mais fogo, dando origem a reações químicas que produzem novas substâncias. Ora, se os seres inferiores são capazes de modificar seres existentes e produzir diretamente seres materiais novos, muito mais o podem os seres espirituais imateriais, como anjos e demônios. Assim, anjos e demônios podem alterar diretamente o mundo material, modificando seres existentes e até gerando novos seres a partir de matéria preexistente, conclui o argumento, apressadamente. 

A resposta de Tomás.

É verdade que aquele que é superior pode fazer aquilo que seu inferior faz, segundo o velho ditado: quem pode o mais, pode o menos. Mas há, na regência do universo, aquilo que a Doutrina Social da Igreja um dia chamará de princípio da subsidiariedade: o superior não desconsidera o inferior, não passa por cima dele, mas o apoia e orienta para que ele atinja seu fim. Assim, as criaturas materiais podem modificar diretamente o mundo material, e os anjos podem dirigir e reger as criaturas materiais, conduzindo-as a seus fins. Assim, os anjos não desconsideram a consistência das criaturas, não as desprezam nem as substituem naquilo que lhes é próprio, mas atuam sobre o mundo material levando-as em conta e dirigindo-as. 

O terceiro argumento objetor.

Os anjos regem toda a realidade material, como já vimos no primeiro artigo desta questão 110. Ora, quem rege age como o artesão age com as ferramentas: torna-se causa eficiente direta, e as ferramentas são apenas causas instrumentais. Assim, quem faz a cama é o marceneiro, e não o serrote e o martelo. 

De modo análogo, prossegue o argumento, os anjos são os verdadeiros artífices das coisas materiais, e são eles que as atualizam, ou que as geram, valendo-se das outras coisas materiais como meros instrumentos. Assim, por exemplo, quando uma árvore dá fruto, são os anjos que moldam e estruturam os frutos, e a árvore é meramente uma ferramenta em suas mãos. Por isso, prossegue, são os anjos e demônios os verdadeiros construtores da realidade, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Mesmo sob o princípio da subsidiariedade, nada impede que os Santos Anjos, quando é necessário para o bem dos eleitos, possam agir diretamente sobre a natureza, fazendo-a produzir efeitos que, por si só, não produziria: é o caso dos milagres, que atestam a santidade de vida de algum cristão, ou de prodígios que ocorrem por sua intercessão. Como um bom cozinheiro é capaz de dirigir o curso do cozimento, fazendo com que as forças naturais do fogo resultem num bom cozimento e não simplesmente num torresmo qualquer, os anjos podem guiar as forças naturais até resultados que, embora não ultrapassem seu poder causador, resultam muito mais complexos, oportunos ou coordenados do que poderiam ser sem a intervenção angélica. Por exemplo, fazendo uma interpretação livre de um fato bíblico, poderíamos dizer que um tremor de terra pode provocar o recuo do mar, mas somente a intervenção dos anjos pode explicar o fato de que um tal recuo tenha ocorrido justamente quando os hebreus fugiram dos egípcios, tendo cessado justamente quando estes últimos estavam prestes a alcançá-los. 

  1. Concluindo.

Anjos e demônios influem sobre a realidade material, mas não são os responsáveis pela ordem, pela atualização ou pela geração que ocorre aqui. São as próprias coisas materiais, por sua força, que explicam o funcionamento ordinário do mundo material.