1. Retomando.

Vimos, no texto anterior, a hipótese proposta, para provocar o debate, de que os anjos e os demônios são os responsáveis por moldar a matéria e fazer surgir (ou modificar) os entes materiais. Os seres espirituais seriam, assim, algo como semideuses, ou como o demiurgo de Platão, capazes de ver as puras formas na mente de Deus e moldar a matéria a partir disso. Esta visão platônica ainda existe, como existia no tempo de Tomás, e remete, de certo modo, Deus para uma posição distante das coisas, porque as coisas não seriam mais criação de Deus, mas produção dos anjos (e demônios). É esta visão que Tomás quer afastar: todo o universo material, tudo aquilo que vemos e experimentamos, sai de Deus como causa primeira, e das outras coisas como causas segundas, Neste sentido, um animal é prole de seus genitores, mas criatura de Deus. 

Mas estamos nos adiantando. Vamos examinar a resposta sintetizadora de Tomás.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Tomás começa sua resposta alertando para o fato de que a ideia de que as coisas materiais são moldadas por seres imateriais tem origem platônica: presume a existência de um mundo separado de ideias, com poder causador, e de seres imateriais inteligentes capazes de moldar a matéria em conformidade com essas formas. Ou seja, nosso mundo material estaria tão afastado do mundo espiritual que Deus não interviria diretamente sobre a matéria, mas delegaria aos anjos essa tarefa indigna dele. Deus seria tão puro, tão distante e tão separado que não se envolveria diretamente com ela, e as coisas que vemos seriam produto da ação dos seres imateriais intermediários, como anjos e demônios. O próprio Avicena, filósofo islâmico, postula a existência de um ser intermediário, inteligente, um demiurgo, que molda a matéria e origina todas as coisas materiais. Isto tira de Deus a imediatidade com o mundo e tira das coisas materiais a possibilidade de serem verdadeiras causas para as outras coisas. 

Este modo de pensar, diz Tomás, é, portanto, duplamente equivocado, porque: 1) afasta Deus do mundo material e 2) nega a causalidade das coisas materiais, impossibilitando qualquer desenvolvimento do pensamento propriamente científico. 

Não há algo como “ideias separadas” num mundo platônico, diz Tomás. A forma não existe fora das mentes ou da matéria.

Como ensina Aristóteles, o que existe propriamente são os compostos, isto é, tudo o que existe realmente é resultado de alguma composição entre essência e existência, entre matéria e forma, entre ato e potência. Para que alguma coisa tenha realidade, tenha concretude existencial, substancial, ela não pode ser uma pura forma, mas deve ter algum tipo de composição. Pensar numa maçã não faz com que esta maçã exista substancialmente, mas ela existe apenas como pensamento. Se algo não é composto, ou não está numa mente, então simplesmente não existe.

Uma forma pura, portanto, não existe substancialmente, mas é apenas um dos princípios daquilo que existe substancialmente: as coisas têm matéria e forma, ato e potência, essência e existência. Por isso, não existe um ente que seja pura matéria-prima separada, como não existe um ente que seja pura forma subsistente (apenas Deus é pura forma subsistente). 

Ora, para que uma coisa possa dar origem a outra, é preciso que ela tenha, em si, todos os elementos que ela vai transmitir à outra. Um animal pode se reproduzir, pode causar a existência de um filhote, porque possui em si a informação imaterial (a forma, que hoje chamamos de genoma), e a corporeidade que permite transmitir essa informação de modo individualizado a um outro ser. 

Um anjo não possui corporeidade. Ele não pode, então, transmitir corporeidade a algum ente material. Ninguém dá o que não possui. E como não existe algo como uma matéria-prima subsistente para que ele possa usar como um tipo de “massinha de modelar” e dar origem a novos entes materiais, então temos que admitir que os anjos e os demônios não são capazes de modificar ou gerar novos seres materiais: apenas o próprio Deus pode fazê-lo, de modo originário, e as outras criaturas materiais, com causas secundárias. 

  1. Encerrando por enquanto.

Eis um mundo material inteligível, aberto ao conhecimento científico, ao fazer humano, porque é um mundo em que as causas são internas ao próprio mundo (fenomenológicas, diríamos hoje) e portanto podem ser conhecidas (e até controladas) por nós. Num mundo platônico, a ciência, no sentido que conhecemos hoje, não seria possível. Disto se pode ver a importância do pensamento tomista para a nossa contemporaneidade.

No próximo texto veremos a resposta de Tomás aos argumentos objetores iniciais.