- Introdução.
O que está em jogo, agora, é a origem mesma das coisas materiais. Não estamos tratando do mundo da cultura, que é diretamente formado pelos seres humanos – sem que se possa descartar a influência que os anjos e os demônios exercem sobre a criatividade do homem decaído. Estamos falando, aqui, das coisas naturais mesmo: trata-se de restabelecer a ideia de que Deus é a única origem das coisas naturais, que Ele é o único criador e, por isso, todas as coisas naturais são intrinsecamente boas e gozam da mesma dignidade de criaturas de Deus. Não podemos imaginar que algumas coisas que nos aparecem como naturais pudessem ser produzidas por outras forças senão por Deus mesmo, embora usando a causalidade segunda – a geração. Não podemos imaginar que os anjos ou os demônios, ou mesmo, como pensamos hoje em dia, o acaso e a evolução, pudessem explicar a própria razão de existir das coisas naturais.
Mas estamos nos adiantando, e apresentando como conclusão aquilo que, neste momento da discussão, ainda não passa de uma hipótese. Vamos acompanhar o raciocínio de Tomás, abertos a aprender com ele.
2. A hipótese polêmica inicial.
A hipótese controvertida inicial, colocada aqui para provocar o debate, é a de que os anjos e os demônios têm tal poder sobre a matéria que são capazes, se quiserem, de fazer surgir coisas materiais novas, ou seja, de gerar efetivamente seres materiais naturais. Anjos e demônios poderiam, assim, submeter a matéria à sua vontade e dar origem, por exemplo, a um novo animal, a uma planta diabólica, ou mesmo a um ser inanimado qualquer, a partir de alguma matéria preexistente. Neste caso estes novos entes materiais não seriam apenas aparentes ou ilusórios, mas reais, concretos e verdadeiros. Haveria, pois, coisas materiais surgidas da vontade dos espíritos imateriais, e não das mãos de Deus pelas forças causais materiais preexistentes.
Há três argumentos objetores, que tentarão comprovar esta ideia agora proposta.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Não podemos ter dúvida, diz o argumento, de que qualquer anjo ou qualquer demônio são espiritualmente muito mais potentes do que qualquer ser humano. Ora, a alma humana, que é espiritual, exerce tal poder sobre o corpo humano que é capaz de modificá-lo; às vezes, sentimos frio ou calor apenas por sugestão mental, embora o clima não esteja especialmente frio e quente. Outras vezes, a alma humana se deixa apoderar por tal euforia ou tal tristeza a ponto de fazer adoecer o corpo, apenas como consequência de seu próprio desequilíbrio espiritual. Ora, se a alma espiritual humana, que é tão pouco poderosa em comparação com os puros espíritos, possui tal poder sobre a matéria do próprio corpo, criando nele estados que não se podem explicar apenas por razões materiais externas, com muito mais razão devemos admitir que a vontade de anjos e demônios pode moldar a matéria de tal modo a modificar profundamente sua configuração e até mesmo transformá-la em coisas novas, conclui apressadamente o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra o princípio de que “o superior sempre pode fazer tudo que o inferior faz, e pode fazer ainda mais”. Ora, prossegue o argumento, o espírito é inegavelmente superior à matéria, e portanto pode fazer tudo o que a matéria faz, e pode fazer ainda mais, de acordo com o princípio mencionado.
Nós sabemos que as coisas materiais, mesmo as inanimadas, são capazes de modificar o mundo material, transformando as outras coisas materiais e até gerando novas coisas. Assim, por exemplo, os rios podem escavar profundos vales, os meteoros podem gerar novas luas, as reações químicas espontâneas podem provocar combustão e dar origem a novas substâncias. Ora, se mesmo seres materiais inanimados são capazes de alterar o mundo material, modificando as coisas e até fazendo surgir novos entes materiais, muito mais os seres imateriais inteligentes, como anjos e demônios, que são muito mais poderosos do que qualquer ser material, podem provocar efetivas alterações no mundo material, diretamente, e até gerar novos seres materiais a partir da matéria preexistente, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento lembra que já estabelecemos que os anjos são regentes do reino material, que está submetido a eles. Ora, isto significa que os anjos são, com relação ao mundo material, como artesãos que manipulam instrumentos e ferramentas. Vale dizer, o mundo material está para os anjos como as ferramentas e os instrumentos estão para o artesão.
Assim, por exemplo, o sistema digestório processa o alimento, mas é a própria alma quem dirige o modo pelo qual o alimento se incorpora no crescimento do corpo, orientando esta digestão. Outro exemplo ainda seria o da serra de madeira: é a serra que corta a madeira em tábuas e ripas, mas é a arte do artesão que combina esses pedaços de modo a construir uma cama ou uma cadeira.
Assim, se o mundo material é instrumento em poder dos anjos, os efeitos principais, substanciais, que ocorrem neste mundo são causados diretamente pelos anjos, e não pelo poder dos simples instrumentos que são os entes materiais. Desse modo, por exemplo, quando dois animais fazem sexo, diz o argumento, são os anjos que imprimem diretamente as formas substanciais nos filhotes, como o marceneiro imprime a forma de cadeira nas tábuas e ripas obtidas pela atuação da serra. Portanto, o mundo material é organizado e informado efetivamente em razão da atuação dos anjos, conclui este argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra resgata uma citação de Santo Agostinho, da obra Sobre a Trindade, a respeito dos demônios: “não devemos acreditar que a matéria das coisas visíveis obedeça diretamente ao poder da vontade dos anjos decaídos; as coisas materiais obedecem diretamente somente a Deus”.
Ora, não devemos temer que haja “seres materiais demoníacos”, ou entes materiais, diretamente criados por demônios. Somente Deus cria e modifica diretamente o mundo material como causa primeira, conclui o argumento, e aos anjos e demônios não é dado esse poder.
5. Encerrando.
Está colocado o debate. Como vimos, são argumentos fortes que nos forçam a pensar; confrontam um mundo mágico em que as coisas surgem, se modificam e se destroem não por uma ordem natural, mas pela ação de anjos e demônios. É uma visão equivocada, e no próximo texto veremos por que.
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