1. Retomando para concluir.

Bela imagem de um Reino de amor que se espalha por círculos concêntricos de regência, todos sob a obediência ao Todo Misericordioso que é Deus. Nenhum círculo de regência impede o círculo inferior de funcionar, de modo que, sob o manto da solidariedade entre todos os seres, há o manto da subsidiariedade, que comanda o governo do Reino: não há uma disputa cega pelo poder, mas uma disponibilidade de apoio e suporte, desde o círculo mais concreto e individualizado até o círculo mais elevado, mais abstrato e mais universal. Deus coordena tudo isso de modo direto e imediato, porque o poder infinito de Deus não é apenas no sentido da universalidade e da abstração, ou seja, a onipotência não atinge apenas aquilo que é enorme, imenso e universal: Deus também é onipotente para o concreto, para o pequeno, para o individual.

Assim, com estes princípios, sabemos que as criaturas materiais são governadas pelos anjos. Mas ainda nos resta detalhar esse governo, o que faremos em seguida, estudando as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que visitamos no primeiro texto que versa sobre este artigo. Vamos retomá-los, com as respectivas respostas de Tomás.

  1. Os argumentos objetores iniciais e as respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

Aqueles entes que têm suas funções inscritas em si como potencialidades não precisam ser regidos por alguma coisa superior, quando se encaminham até a realização dessas potencialidades. Apenas quando se encaminham para algum fim diferente daqueles já inscritos em si é que precisam ser conduzidos por outro. Assim, por exemplo, um grão de milho, encontrando água, solo e luz, vai se tornar naturalmente um pe de milho, mas para que venha a se transformar em pipoca precisa que algum ser humano o conduza a isto deliberadamente, de fora. 

Ora, a natureza se conduz sempre e espontaneamente à realização de suas potencialidades, sem precisar de alguma condução externa inteligente. Logo, não precisamos supor que os anjos rejam o mundo material, conclui apressadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

A resposta de Tomás pode parecer bem peculiar, frente à visão de universo que temos hoje, mas faz perfeito sentido quando compreendemos que, para a ciência de seu tempo, as forças provocadas pelos anjos correspondem àquilo que a ciência de nosso tempo faz corresponder a forças físicas impessoais. De fato, no exemplo do grão de milho, sabemos que é a energia do sol que estimula as moléculas e proteínas da semente a, na presença da água e do solo (que viabilizam e alimentam as reações químicas e biológicas da semente), provocam a germinação. Mas parece razoável afirmar que a condução de todos estes fatores, de modo sincronizado, a atingir o fim de germinar depende da atuação inteligente dos anjos, que desencadeiam o processo com su poder sobre a matéria e coordenam todos os fatores para o fim preestabelecido de transformar a semente num pé de milho. É uma visão consistente, quando se parte de pressupostos diferentes dos nossos, que admitem o fim como causa e a estrutura não-mecanicista do universo. Deste modo, os processos naturais, vistos assim, são desencadeados e conduzidos de modo inteligente pelos anjos que governam a natureza material.  É uma visão muito diferente da que temos hoje em dia. 

O segundo argumento objetor.

Existe, diz o argumento, uma estrutura hierárquica que caracteriza a regência do universo. De fato, essa hierarquia existe entre as criaturas puramente espirituais, mas existe também no mundo material: aqui, temos uma hierarquia que começa pelos seres inanimados, passa pelos vegetais, chega aos animais e culmina em nós, humanos. Esta hierarquia é suficiente para explicar toda a regência do universo material, de tal modo que não é necessário postular que os anjos influem nas coisa que ocorrem por aqui, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Este argumento faz muito sentido, diz Tomás, e até mesmo o grande Aristóteles concordava com ele. Na visão que Aristóteles tinha sobre o funcionamento do universo, havia alguns “motores imóveis”. seres espirituais inteligentes similares, na concepção dele, aos anjos, que moviam as esferas mais elevadas do universo; isto era suficiente para que todas as outras esferas, até a nossa, aqui da Terra, tivesse energia suficiente para se mover também. Assim, a unica força espiritual que geria diretamente as coisas, por aqui, nas esferas inferiores, seríamos nós, humanos, quando dirigimos as coisas a fins diferentes dos naturais. Aristóteles, então, tinha uma visão naturalista do universo abaixo da lua, que coincidia, neste particular, em grande medida, com a que temos hoje em dia.

Tomás aceita, em grande medida, a visão da física de Aristóteles, ressalvando, porém, que, para ele, os anjos têm sim uma intervenção direta, mesmo no mundo infra lunar, governando o mundo por mandato de Deus e movendo as coisas de tal modo a coordenar seu caminho a seus fins, sem que isto signifique que estes fins já não estejam inscritos na própria natureza das coisas materiais. É por isto que, por um lado, as coisas apresentam a regularidade que apresentam e, por outro, podem ser estudadas por nós e compreendidas, porque obedecem a uma lógica interna. Muito belo pensar e contemplar um universo com regularidade natural, capaz de ser estudado e compreendido pela ciência, mas com regência inteligente, capaz de se deixar conduzir ativamente pelo e para o amor que é o fim de todas as coisas

O terceiro argumento objetor.

Já vimos, na questão 108, as nove grandes ordens de anjos. Ora, elas têm funções bem claras, que não envolvem a regência individual de cada ente do universo material.

MAs se os anjos regesse o universo material com este nível de envolvimento, a ponto de se preocupar com o movimento de cada pequeno ente inanimado, seria necessário imaginar que existissem tantas ordens de anjos quantas fossem as espécies de seres materiais, inanimados, vivos ou inteligentes. Mas isto não ocorre. Logo, os anjos não regem todas as criaturas materiais no universo criado, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Tomás nos lembra, agora, as diversas posições filosóficas sobre esta relação entre o funcionamento do universo material e  a existência de inteligências imateriais, que sempre foi pressuposta pelos antigos e pelos clássicos para explicar, de modo consistente, aquilo que nós, hoje em dia, explicamos pela existência de forças impessoais que são descritas como leis físicas.

De fato, diz Tomás, Platão imaginava um reino transcendente de puras formas que regeriam o universo, havendo uma hierarquia entre elas. Assim, além das espécies (a forma, por exemplo, de cão, de cavalo, de amendoeira), ele pleiteava a existência de formas universais como o justo, o belo e o bem, formas mais reais do que aquelas existentes aqui no mundo material, e governando e informando todas as coisas aqui neste nosso mundo. Assim, haveria, por exemplo, uma pura forma inteligível e plenamente atual do milho, mas imaterial, que guiaria a semente do milho até se transformar em pé de milho e em nova semente, e assim por diante.

Para Aristóteles, porém, essas formas existem apenas na matéria ou em alguma mente, não separadas em alguma dimensão platônica. Como seres imateriais e inteligentes, governando o universo material, ele imaginou apenas aqueles motores imóveis capazes de mover as esferas celestes mais elevadas – as esferas menos elevadas, como a nossa, movem-se em razão de suas próprias potencialidades, que são, por sua vez, “energizadas” pelas esferas mais elevadas. Assim, aqueles que hoje chamamos de “anjos” não seriam, para Aristóteles, governantes da nossa realidade imediata, mas apenas dos movimentos mais universais, mais amplos, do cosmos. Aristóteles já iniciou o caminho para a impessoalização das leis da física, como conhecemos hoje.

A seguir, Tomás cita o filósofo muçulmano Avicena, que  tem uma posição mais próxima de Platão: pressupõe que cada coisa material é regida diretamente por uma forma espiritual, que a encaminha à realização de seus atos: todas as coisas materiais são estruturadas e guiadas por essa forma puramente espiritual. Mas, diferentemente de Platão, ele não imagina um reino transcendente composto de inúmeras puras formas das quais a realidade material seria uma cópia tosca, mas imaginou apenas um único espírito imaterial transcendente que governa todas as coisas, e que denominou de inteligência agente.

E no mundo cristão? Aqui, houve a influência platônica, que faz presumir que cada coisa é guiada pelo mundo imaterial, espiritual, pessoal e inteligente. Mas, diferente de Avicena, não se trata de apenas uma inteligência, mas de todo um universo hierárquico de anjos. E, diferentemente de Platão, não se trata de um arquétipo imaterial de cada coisa material, mas de seres pessoais e imateriais que guiam o mundo material a partir do mundo espiritual. São João Damasceno defende, inclusive, que o Diabo era regente deste mundo, e Orígenes procura, no episódio da mula de Balaão (Nm 22, 23) a prova escritural de que os anjos regem, de fato, todos os entes materiais.

  1. Concluindo.

Não precisamos, portanto, imaginar que há, por exemplo, um anjo para cada planta, nem que há uma ordem de anjos para reger as plantas e outra ordem ainda para reger os animais, com um anjo especializado para cada animal concreto. As coisas não são assim: há ordens de anjos, como as Virtudes (segundo São Gregório) que são capazes de reger as coisas inanimadas, os vegetais e os animais, bem como nossa vida material (que também está sujeita às leis da natureza), justamente porque qualquer anjo tem mais poder do que qualquer coisa material