1. Retomando.

Vimos, no texto anterior, que nosso debate aqui diz respeito à estrutura hierárquica que parte dos anjos (cuja estrutura hierárquica estudamos na questão 108) para as criaturas materiais; esta relação entre o Reino de Deus como realidade puramente imaterial e a concretude material do nosso universo. Não é pouco importante lembrar que nós, humanos, nem sequer somos as criaturas inteligentes mais elevadas na criação, mas mais importante ainda é lembrar que a comunhão dos santos ultrapassa muito os limites daquilo que nos é dado a conhecer empiricamente.

A hipótese que iniciou o presente debate pretende propor que os anjos não governam nosso universo material. Quer porque todas as criaturas materiais já têm inscritas em si suas próprias potencialidades, quer porque há uma hierarquia do ser no interior do próprio mundo material, quer porque a hierarquia dos anjos não guarda um paralelismo estrito com a hierarquia do mundo material. Mas o argumento contrário à hipótese nos lembra que esta regência dos anjos sobre o mundo material foi reafirmada por Santo Agostinho e São Gregório Magno, duas autoridades na fé e no conhecimento dos anjos. E neste ponto ficamos, no texto anterior.

  1. A resposta sintetizadora de Tomás.

Toda estrutura de governo, toda regência verdadeira, não se caracteriza pela exclusividade do exercício do poder do superior sobre o inferior, de tal modo que haja apenas uma esfera que governa e uma esfera que é governada. Esta é uma visão equivocada da regência, e muito mais ainda quanto ao Reino de Deus. Não existe absolutismo nem autoritarismo que funcione: qualquer estrutura equilibrada e santa de exercício de poder funciona de um modo que poderíamos ilustrar como círculos concêntricos; há círculos menos amplos que estão contidas nos círculos mais amplos, mas o poder e a regência dos círculos menos amplos são reais e efetivos, embora estejam contidos pelos mais amplos

Com relação ao Reino, em sua dimensão imaterial dos Santos Anjos, já estudamos, na questão 108, que eles estão organizados justamente assim: círculos respectivamente contidos de poder, que regem, no amor, o Reino, sob a regência imediata de Deus. Deste modo, os círculos mais inferiores têm um poder mais concreto, mais direto sobre as situações individuais, mas estão submetidos aos círculos superiores, cujo poder é mais universal, mas também mais abstrato, em termos de conhecimento e amor, no sentido de mais intensos, ainda que menos apontados para a concretude de tempo e lugar. 

E onde nós, criaturas materiais (inanimadas ou vivas, sensíveis e inteligentes) nos encaixamos nas estruturas desse Reino que ultrapassa nossa realidade visível e sensível? 

Ser material significa justamente ser concreto, estar inserido no tempo e no lugar, ser particular – ou, para usar uma linguagem quase kantiana, aceitar nossa condição categorial. Esta condição é comum a todos os seres materiais: ser corporal significa existir sempre num determinado ponto do lugar e do tempo. 

Mas ser espiritual é estar fora do tempo e do espaço, embora submetido à sucessão de eventos da história; somos assim de certo modo, nós humanos, pela nossa mente, mas não pela nossa inteireza. Mas os anjos são completamente espirituais, em inteireza, completamente imateriais, e portanto não submetidos a limitações de espaço e tempo. Neste sentido, eles são mais poderosos do que qualquer ser que seja substancialmente material. Mesmo que esse ente material seja, como nós somos, animais espirituais. Nossa corporeidade nos individualiza, mas nos torna, de certo modo, obscuros a nós mesmos. Os anjos, sendo incorpóreos, são individualizados apenas por suas próprias mentes, e deste modo são totalmente transparentes a si mesmos – e neste sentido são completamente inteligíveis a si e ao outro (anjos não têm inconsciente ou subconsciente), além de indestrutíveis e imortais (se a morte é a destruição da unidade entre forma e matéria, e os anjos não têm uma dimensão material em sua composição, então eles não estão submetidos à morte). 

Portanto, essas mentes poderosas e imateriais, muito mais capazes em inteligência e amor do que qualquer ser material (ainda que esse ser corpóreo seja, como nós humanos, também inteligente), formam um círculo de regência mais amplo do que qualquer círculo interno ao mundo material. Vale dizer, sem negar a efetividade dos círculos de organização hierárquica dentro dos próprios seres materiais (e a responsabilidade plena que Deus nos dá como verdadeiros gestores do mundo material em Gênesis 1, 26: “Que ele [o ser humano] reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra”), os Santos Anjos se apresentam como gestores do mundo material, em círculos mais amplos, mais externos e mais poderosos do que qualquer círculo formado no interior deste mundo material. Este é o ensinamento dos Padres e Doutores da Igreja, também.

  1. Encerrando.

É muito bonito perceber o poder das relações no interior do Reino. Não somos membros isolados do Reino, e neste sentido é muito verdadeiro dizer que “ninguém se salva sozinho”, como faz o Papa Francisco na Gaudete et Exsultate, § 6. Mas as relações hierárquicas no Reino não são de dominação e controle, mas de orientação e amor.

Veremos mais isto no próximo texto.