- Introdução.
Já vimos, em textos anteriores, que aquilo que nós, hoje, creditamos a leis e forças físicas impessoais, os antigos imputaram à gestão inteligente que os anjos faziam no universo, em nome de Deus, conduzindo todas as coisas materiais ao seu fim, que é o próprio Deus, glorificado por elas quando chegam a ser aquilo que devem ser. Por isso, em vez da interação de forças gravitacionais, eletromagnéticas, genéticas ou evolutivas, temos seres inteligentes, cuja vontade está inteiramente voltada, na mais plena liberdade, para Deus, e que conduzem todas as coisas a seus fins.
É disto que trataremos agora, de modo mais detido. De fato, nas últimas questões, tratamos do Reino de Deus tal como realizado nos Santos Anjos e tal como determinado aos demônios, Agora nos debruçarmos de modo mais atento no Reino de Deus tal como ele envolve os seres materiais. Como os anjos regem os seres corporais do universo?
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial, trazida para estimular a discussão, é justamente a de que os anjos não regem as criaturas corpóreas, e não se envolvem com o jogo de causalidade do mundo material. Os anjos se ocupariam apenas das coisas espirituais, e o mundo material seria regido por suas próprias forças impessoais e materiais. É um argumento surpreendentemente moderno, porque, de certo modo, parece-nos óbvio, em pleno século XXI, que não há anjos regendo o universo, mas apenas leis e forças impessoais quantificadas pelas ciências. Não nos apressemos, no entanto: vamos acompanhar este debate. Há três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento afirma que aquelas funções que estão dentro das potencialidades das coisas não precisam de alguma condução externa para acontecer; assim, por exemplo, uma semente de milho não precisa de algum tipo de condução de um ser inteligente para brotar e se transformar num pé de milho. Somente quando existe a possibilidade de que algo não ocorra do jeito que está programado nas potencialidades das coisas é que uma condução inteligente se faz necessária. Para que o caroço de milho brote, bastam as forças naturais impessoais, mas para que ele se transforme em pipoca ou canjica é preciso que algum ser inteligente exerça uma condução ativa na coisa. Portanto, não é necessário que postulamos que os anjos conduzem as coisas materiais até seu desenvolvimento, porque isto pode ser explicado apenas por forças naturais impessoais, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Existe ordem no universo no interior de cada categoria. Assim, vimos que os anjos superiores governam os inferiores e os maus; do mesmo modo, há uma hierarquia do ser no próprio universo material: seres que apenas existem, mas são inanimados, seres vivos vegetativos, seres sensíveis e seres inteligentes. Logo, também aqui no mundo material os seres com um modo de existência superior podem governar os inferiores. Logo, devemos entender que os próprios seres materiais governam o mundo material, em suas relações, e não é necessário imaginar que os anjos precisam intervir nesse governo, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Vimos, na questão 108 e seus artigos, que há várias ordens de anjos, divididos em razão de seu poder e de suas funções, no Reino de Deus. Ora, se os anjos regessem as criaturas materiais, teríamos que admitir a existência de tantas ordens de anjos quantas fossem as espécies de criaturas corporais, em seus diversos graus de existência. Mas não existe essa multiplicidade de ordens angélicas, como vimos naquela questão. Logo, os anjos não regem as criaturas materiais, conclui apressadamente o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra, como sabemos, costuma trazer alguma razão forte, retirada da observação do mundo, ou das Escrituras, ou mesmo dos Santos Padres e Doutores da Igreja, para rejeitar a hipótese controvertida inicial.
No caso presente, o argumento busca em Santo Agostinho e em São Gregório Magno, duas grandes autoridades quanto ao estudo dos anjos, as razões pelas quais devemos admitir que há forças imateriais inteligentes regendo o mundo material. De fato, a este respeito, Santo Agostinho, na obra De Trinitate, III, diz que “todas as coisas corporais são regidas pelo espírito racional da vida”, apontando para a existência de uma ordem imaterial inteligente regendo o universo visível. São Gregório, por sua vez, é firme em asseverar que “neste mundo visível, nada acontece sem a atuação da criatura invisível”. O testemunho, então, de santos tão profundos parece apontar para a conclusão de que os Santos Anjos regem o mundo material e as criaturas corporais que existem nele, conclui o argumento.
- Encerrando.
A harmonia do universo encantou os antigos, como nos encanta, hoje. Mas a mesma regularidade que, para nós, é traço de impessoalidade, para eles era prova de que forças inteligentes estavam encarregadas dessa regência. Devemos estar abertos à visão deles: podemos aprender muito.
No próximo texto veremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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