1. De volta para concluir.

No Reino dos Céus a hierarquia se fundamenta na semelhança com Deus: quanto mais semelhante, por natureza ou por graça, uma criatura estiver de Deus, tão mais alta ela está na hierarquia celeste. Portanto, qualquer um que esteja na graça é mais alto do que qualquer um que simplesmente exista. Assim, qualquer santo anjo é superior hierarquicamente ao mais poderoso dos demônios.

Cientes deste princípio, que estabelecemos nos dois textos anteriores, vamos examinar agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

  1. Os argumentos objetores e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que o principal sinal de que um ente espiritual é superior hierarquicamente ao outro é que o superior é sempre o que ilumina o inferior, e nunca o inferior ilumina o superior. Ora, os demônios nunca são iluminados pelos Santos Anjos, porque os demônios são da escuridão e não podem ser iluminados nunca. Ora, se os Santos Anjos nunca podem iluminar os demônios, então os demônios não estão submetidos aos Santos Anjos, e os Santos Anjos não são superiores aos demônios, conclui erradamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Iluminar, como já sabemos, significa revelar a vontade de Deus a um ente espiritual inferior. Ora, acontece que os Santos Anjos, muitas vezes, revelam a vontade de Deus aos Demônios, quando, por exemplo, permite a eles que punam os réprobos, ou quando revelam a eles o sofrimento que receberão por sua repulsa a Deus. São como os oficiais de justiça humanos, que transmitem aos condenados o teor da sentença condenatória que o juiz de direito prolatou contra eles. 

Assim, com relação aos Santos Anjos, ao transmitirem a vontade e as permissões de Deus quanto aos demônios, eles estão iluminando os demônios, ainda que contra a vontade destes, e sem que estes, ao receberem estas revelações, se deixem iluminar por elas, optando por permanecer na escuridão. Por isto, podemos dizer que os Santos Anjos iluminam os demônios, subordinando-os; mas os demônios, que preferem a própria perversão à luz divina, não se deixam iluminar, embora tenham que se submeter contra a própria vontade. E isto implica exatamente  a submissão deles aos Santos Anjos

O segundo argumento objetor.

Quando encontramos um grupo que funciona numa estrutura hierárquica, aqueles que são subordinados agem sob a supervisão do superior, e portanto aquilo que os subordinados fazem de mau pode ser atribuído aos respectivos superiores hierárquicos, de tal modo que os superiores são responsáveis pelo mal que os inferiores fazem. Mas os demônios são fundamentalmente malfeitores. Se eles estivessem subordinados aos Santos Anjos, estes seriam responsáveis pelo mal que os demônios fazem, ao menos por uma responsabilidade de negligência. Ora, não se pode admitir que os Santos Anjos sejam responsáveis pelo mal que os demônios fazem. Portanto, não há subordinação dos demônios aos Santos Anjos, conclui apressadamente o argumento.

A resposta de Tomás. 

Os Santos Anjos são os ministros da sabedoria divina, diz Tomás. Assim, precisamos distinguir, neles, a vontade de Deus, que eles ministram e executam, da simples permissão de Deus, a que eles dão curso. A permissão de Deus incide sobre criaturas com livre arbítrio, e portanto não implica a responsabilidade de Deus ou dos Santos Anjos pelo mal que as criaturas inteligentes livremente praticam; e a permissão divina, levada a curso pelos Santos Anjos, envolve o fato de que “Deus todo-poderoso […] sendo soberanamente bom, nunca permitiria que qualquer mal existisse nas suas obras se não fosse suficientemente poderoso e bom para do próprio mal, fazer surgir o bem”, é o que ensina Santo Agostinho, citado pelo Catecismo da Igreja Católica, § 311. Assim, o fato de que os demônios estão submetidos ao poder do Santos Anjos não significa que sejam responsáveis pelo mal que estes últimos praticam, conclui São Tomás.

O terceiro argumento objetor.

As criaturas espirituais inteligentes, como os anjos e demônios, são diferentes em natureza – alguns são mais dotados em inteligência e vontade do que outros; na verdade não há duas criaturas espirituais imateriais inteligentes que sejam iguais em inteligência e poder. Deste modo, a hierarquia entre os seres espirituais imateriais se dá pela diferença das naturezas mesmo.  Ora, muitos demônios foram criados como naturalmente superiores a outros anjos, e pertenciam a ordens muito elevadas, como querubins, potestades e dominações, antes da queda que escolheram. Deste modo, os demônios podem ser muito mais poderosos do que alguns Santos Anjos que não caíram, porque têm naturezas mais poderosas do que as deles. Assim, não há necessariamente subordinação entre os demônios e os Santos Anjos, conclui equivocadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

Até mesmo um dos Santos Anjos que seja inferior em natureza a um demônio é capaz, no entanto, de subordiná-lo e  governá-lo. Isto porque o Santo Anjo se insere, pela graça, na própria ordem de justiça divina, ou seja, são livres no poder de Deus. E não há poder autônomo fora do poder de Deus. Deste modo, a natureza elevada pela graça é sempre superior a qualquer natureza que rejeita a graça e se apoia apenas em si mesma – como é o caso dos demônios. Então o argumento não se sustenta. Isso se confirma pelas Escrituras, especialmente por São Paulo,que, em 1 Coríntios 2, 15, nos ensina que “o homem espiritual julga todas as coisas e não é julgado por ninguém”. Isto, compreendido como a ideia de que a criatura elevada pela graça está no Espírito Santo, pode ser aplicado aos anjos.

  1. Concluindo

Não há superioridade fora do amor; mas devemos estar atentos às artimanhas do demônio. Ele quer convencer a nós, humanos, que o mal é mais poderoso que o bem. Isto é mentira, mas tem iludido muita gente. No fim, vale o princípio: mesmo o menor no amor é maior do que o mal, no Reino dos Céus. Confiemos nisso.