- Retomando.
Vimos, no último texto, a hipótese controvertida de que os Demônios não estariam subordinados a qualquer um dos Santos Anjos, porque há demônios que são naturalmente mais poderosos do que os anjos. Assim, digamos, um demônio que tivesse pertencido à ordem dos Querubins, antes da queda, não se submeteria a um mero Arcanjo, mesmo considerando que o Arcanjo está na ordem da graça do Reino de Deus. Mas, como sabemos, esta é uma ideia errada.
Não se pode imaginar que no Reino de Deus haja duas hierarquias paralelas, algo como a hierarquia dos Santos Anjos, por um lado, e a hierarquia do inferno, por outro. Como se houvesse um paralelismo entre, por exemplo, um Querubim que recebeu e graça e optou pela santidade, por um lado, e um querubim que decaiu para o inferno, por outro. Isto não existe. Não há um Reino dos Céus paralelo a um reino dos infernos. No Reino dos Céus, há a liberdade, o amor e o serviço a Deus e ao próximo, enquanto nos infernos há o individualismo, a disputa, o poder como dominação, a insatisfação eterna dos desejos naturais de felicidade. Não há, então, equivalência ou superioridade entre aqueles que servem ao amor e à felicidade, por um lado, e aqueles que se submetem à lógica da perversidade, por outro. Portanto, por mais poderoso que seja o ser espiritual que está no inferno, “mesmo o menor nos Reino dos Céus é maior do que ele”. Ora, se isto se aplica a João Batista, que Jesus declarou como “o maior dentre os nascidos de mulher” (ver Lucas 7, 28), muito mais se aplica aos demônios.
Mas estamos nos adiantando. Vamos examinar a resposta sintetizadora de Tomás aos problemas levantados no último texto.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
No universo criado, há apenas uma hierarquia: aquela que tem Deus como fonte e ápice. Esta hierarquia reúne todas as criaturas, sejam elas santas ou não. Ora, o critério para organizar essa hierarquia é a semelhança com Deus: estamos, aqui, no campo da hierarquia do ser, que envolve a analogia do ser:
Ser é, em última análise, guardar alguma analogia com o ser de Deus. As coisas são por participação, de modo análogo, derivado, dependente de Deus. Apenas Deus é de modo unívoco, próprio, originário, primário e fundamental. Tudo o mais tem o ser tão mais intensamente quão mais se pareça com o ser de Deus. Ou para falar de modo mais claro: quem ama está sempre mais alto na hierarquia do que quem não ama. E não estamos, aqui, falando em amor como um sentimento, como uma emoção humana, mas como a firme e permanente vontade de querer o bem do outro, tal como nos ensina Bento XVI na maravilhosa Encíclica Deus Caritas Est.
Ora, Deus é aquele que é (Êxodo 3, 14), e mais, ele é amor (1 João 4, 8). Portanto, quanto mais análoga a Deus é uma criatura, tanto mais ela se eleva na hierarquia do ser. E é por isso que qualquer criatura que esteja na glória, que goze da beatitude da santidade em Deus participa de modo mais efetivo do ser, e por isso está hierarquicamente acima de qualquer criatura que esteja fora da glória, morto para o amor, caído no inferno pelo qual optou.
Ou seja, qualquer demônio está numa posição de subordinação frente a qualquer um dos Santos Anjos. Exatamente porque o inferno é o lugar do desamor, da submissão destrutiva, do poder arbitrário, do domínio arrogante. É o lugar mais baixo do Reino de Deus., porque é o lugar em que toda semelhança com Deus é conscientemente desprezada.
Em suma, o inferno não está fora do Reino de Deus: está abaixo. Mas é real, é concreto, e permanece como uma possibilidade aberta aos seres humanos. E, uma vez que, na vida terrena, o amor parece ser uma desvantagem social e política, uma fragilização, uma tolice, enquanto a dominação, o poder, a submissão, parecem ser atitudes muito mais, digamos, espertas, não há muitos que optem pelo caminho do amor. Dificilmente parece crível que o amor, apesar de sua aparência de fragilidade, seja sempre mais poderoso do que o mal. Mas, como nos lembra Tomás, ele o é.
- Encerrando.
Quantas vezes duvidamos do poder do amor… mas até o menor dos que estão sob o amor é maior do que os que estão sob o poder do mal, da perversão, do individualismo, da dominação, da submissão.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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