1. Introdução.

A graça pressupõe a natureza e a eleva. É assim que mesmo nós, humanos, quando morremos na graça, somos recebidos no Reino dos Céus e integrados nas ordens dos Santos Anjos, que, por natureza, são muito superiores a nós. Por conta da graça, nós elevamos a nossa natureza até ombrear com os próprios anjos.

De maneira similar, os Santos Anjos são elevados, pela graça, muito acima da natureza dos anjos decaídos, que são os demônios. Não é por outro motivo que um simples Arcanjo (Miguel) tenha desterrado o próprio Dragão, derrubando-o ao inferno (Apocalipse 12, 7). 

A pergunta, aqui, é: será que qualquer um dos Santos Anjos, simplesmente por estar na Glória, é superior em poder a qualquer um dos demônios, mesmo aqueles mais poderosos por natureza? Trata-se, portanto, de um debate sobre o poder do bem, do amor, frente ao poder do mal, da perversidade e da destruição. Debate necessário. Vamos a ele.

  1. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial – que, como sabemos, não é verdadeira, mas serve para provocar o debate – é a de que os Santos Anjos são têm superioridade sobre os demônios, de tal modo que, por exemplo, um Arcanjo que caiu não está submetido a um Santo Arcanjo e assim por diante. Assim, no combate entre anjos e demônios, aqueles demônios que naturalmente são de grau mais elevado, em natureza, do que os respectivos Santos Anjos, não se submetem aos Santos Anjos que não sejam naturalmente mais poderosos do que eles. A graça que leva os Santos Anjos à glória do Reino de Deus não daria a eles poder para subjugar os demônios cuja natureza fosse mais poderosa que a deles, segundo esta hipótese. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial. 

  1. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O sinal de superioridade, entre os Santos Anjos, como já vimos em textos anteriores, é que os Anjos superiores sempre iluminam os inferiores, liderando-os na verdade.  Ora, os demônios, sendo anjos das trevas, nunca são iluminados pelos Santos Anjos. Portanto, os Santos Anjos não têm nenhum papel de superioridade e domínio de poder sobre os demônios, conclui o argumento. 

O segundo argumento objetor.

Quando alguém subordinado a outro faz alguma coisa errada, há culpa tanto do subordinado quanto do superior, que negligenciou a vigilância ou não orientou direito o subordinado, lembra o argumento. Ora, não há dúvida de que os demônios fazem somente o mal. Logo, se eles estivessem subordinados aos Santos Anjos, tudo o que fizessem de mau seria, de algum modo, de responsabilidade dos Santos Anjos, que negligenciaram a vigilância ou a orientação sobre os demônios. Mas os santos Anjos não são responsáveis pelo mal que os demônios fazem. Logo, os demônios não estão subordinados aos Santos Anjos, conclui apressadamente o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Os demônios são, na verdade, anjos que, tendo sido criados inocentes por Deus, e dotados por Ele da graça santificante, rejeitaram Deus e escolheram o mal, decaindo para o pecado e a perversão. Mas, em sua natureza, eles são como os santos Anjos: criados em diferentes graus de inteligência e vontade, de modo que, na Queda, anjos dos mais diversos graus de perfeição caíram no pecado e viraram demônios. Assim como muitos anjos que não caíram eram de ordens muito baixas e pequeno grau de perfeição. Assim, há muitos demônios que são muito mais dotados de inteligência e vontade naturais do que muitos Santos Anjos, e são, portanto, mais poderosos do que estes. Logo, nem todos os Santos Anjos são capazes de superar e subordinar todo e qualquer demônio, conclui o argumento.

  1. O argumento sed contra.

O argumento sed contra, para explicar as razões pelas quais a hipótese inicial não pode ser aceita, recorre à obra De Trinitate,de Santo Agostinho. Ali, Agostinho,  grande Padre da Igreja latina, afirma que o espírito de vida irracional é governado pelo espírito racional de vida; assim, o grande santo nos ensina que os Santos  Anjos dominam sobre os demônios. No mesmo sentido, São Gregório Magno, quando trata das ordens dos anjos, ensina que as potestades são chamadas assim porque imperam sobre as forças contrárias. Portanto, os demônios estão submetidos aos Santos Anjos, conclui este argumento.

  1. Encerrando.

Os Santos Anjos são  mais poderosos que os demônios, nem sempre por natureza, mas sempre pela graça de Deus, na qual eles vivem. Isto nos deve trazer grande segurança: o bem espiritual é sempre mais poderoso que o mal.

No próximo texto veremos a resposta de Tomás sobre este tema, que vai justamente neste sentido.