- Introdução.
Já tratamos muito, nas questões anteriores, sobre o modo pelo qual os Santos Anjos podem se instruir reciprocamente, transmitindo uns aos outros a luz da verdade que recebem de Deus. A este processo de comunicação Tomás chama de iluminação, e implica o fato de que os superiores, mais argutos, mais capazes intelectualmente, podem instruir na verdade os inferiores, de modo a tornar comuns suas capacidades e seus conhecimentos.
Mas como poderíamos falar em iluminação no inferno? Em que medida o reino das trevas poderia envolver a transmissão de luz? Não há dúvida – e vimos isto no último artigo – que alguns demônios são mais sagazes, mais intelectualmente capazes e argutos do que outros, e por isso há uma estrutura hierárquica perversa entre eles. E é certo que eles se comunicam entre si para coordenar suas ações maliciosas. Mas será que podemos chamar essa comunicação de iluminação? Será que toda transmissão de ciência e de conhecimento, ou mesmo de intenções e estratégias, tem o mesmo significado e valor de uma iluminação? Há uma neutralidade para o valor, na transmissão de conhecimento? É o que debateremos agora.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese proposta neste artigo – que, como sabemos, é proposta apenas para provocar controvérsia e nos fazer pensar, e não podemos aceitá-la simplesmente como verdadeira – é a de que entre os demônios existe a iluminação, isto é, um demônio superior pode comunicar a outro uma verdade que possui e que excede a capacidade do inferior, caso em que o superior ilumina o inferior na verdade. Existem dois argumentos objetores iniciais que tentarão comprovar esta hipótese de que há iluminação entre demônios no inferno.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que iluminar, entre os anjos, é aquela capacidade que os anjos mais elevados têm de comunicar a um anjo menos elevado alguma verdade que possui e que ultrapassa a capacidade do inferior. Ora, prossegue o argumento, há demônios que são naturalmente mais capazes, do ponto de vista intelectual, do que os outros; a queda deles não abalou essa capacidade natural, apenas os afastou da graça de Deus. Deste modo, eles continuam capazes de transmitir verdades naturais aos inferiores, de modo que os demônios superiores podem iluminar os inferiores, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor faz uma analogia dos anjos com o sol; de fato, o sol brilha fortemente, e seu brilho ilumina tudo o que está em volta dele, simplesmente porque ele irradia sua luz. Ora, os anjos mais capazes, mais dotados das aptidões naturais de inteligência e vontade, são, no mundo espiritual, como o sol no mundo material: irradiam suas capacidades àqueles que estão à sua volta. E essas capacidades naturais não são perdidas por eles quando caem e se tornam demônios. Assim, um demônio mais elevado pode iluminar outro inferior, conclui o argumento.
- O argumento sed contra.
O argumento sed contra lembra que há diferença entre simplesmente conversar e se comunicar, por um lado, e iluminar com o conhecimento divino, por outro. A iluminação implica uma purificação espiritual de quem recebe a comunicação; mas nenhum demônio pode purificar alguém, nem tampouco purificar outro demônio, porque, como diz a Bíblia (Eclesiastes 34, 4): “Que coisa pura poderá vir do impuro? Que verdade pode vir da mentira?”. Portanto, embora os demônios possam se comunicar entre si, eles certamente não podem iluminar uns aos outros, conclui este argumento.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Demônios não podem iluminar ninguém; um demônio superior nunca ilumina um inferior.
De fato, quando estudamos a iluminação entre os santos anjos (q. 107, artigo 2, textos aqui, aqui e aqui). A palavra iluminar, entre os Espíritos (anjos e demônios) significa propriamente manifestar a verdade divina ao outro, e toda verdade, neste caso, vem de Deus apenas. Portanto, um demônio nunca ilumina outro. Muito ao contrário, na verdade os demônios querem afastar os outros da verdade divina, distanciá-los de Deus, ou seja, obscurecer. Levar para mais perversidade, nunca informar para o bem.
Assim, um demônio pode comunicar a outro suas próprias concepções e pensamentos, seus próprios propósitos e visões; mas isto não ilumina o outro, mesmo se aquele que recebe a comunicação é naturalmente inferior àquele que comunica. Portanto, um demônio nunca ilumina outro.
- As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento parte da ideia de que iluminar significa manifestar a outro a verdade sobre alguma coisa. Ora, há demônios mais intelectualmente capazes de penetrar na verdade do que outros, por serem naturalmente mais inteligentes e poderosos, diz o argumento. Logo, quando este demônio manifesta a outro algum tipo de conhecimento verdadeiro que seria inalcançável pelo outro, há, aqui, iluminação. Logo, mesmo um demônio pode iluminar outro demônio de grau inferior, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Não é qualquer manifestação de verdade que pode ser adequadamente chamada de iluminação. Quando um demônio revela a outro a verdade sobre suas próprias intenções perversas, ou mesmo sobre algum aspecto da natureza criada que beneficie seus planos nefastos, não podemos dizer que há verdadeira iluminação aí. A palavra iluminação somente pode se referir à verdade tal como existente em Deus. Portanto, uma vez que os demônios nunca transmitem aos inferiores a verdade tal como se manifesta no coração de Deus, então podemos dizer que um demônio superior nunca ilumina um inferior.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento objetor parte de uma analogia: de maneira análoga àquela pela qual o sol, apenas por ser naturalmente muito luminoso, é capaz de difundir sua luz e iluminar os corpos sem luz que estão à sua volta, de modo natural. Ora, prossegue o argumento, os demônios são anjos, embora decaídos; dentre eles há, portanto, aqueles que são muito altos em natureza, com inteligências brilhantes e grande capacidade de penetração natural. Essas inteligências brilhantes, então, são capazes de iluminar os outros demônios com a luz da sua capacidade intelectual natural, que pode conhecer verdades naturais muito profundas e ricas. Assim, com seu brilho intelectual natural, eles podem iluminar os demônios inferiores, conclui apressadamente o argumento.
A resposta de Tomás.
Nenhum anjo ou demônio ignora alguma verdade natural. Todos eles, quando são criados, recebem de Deus todo o conhecimento natural que precisam e precisarão em toda a sua existência. Todo ser espiritual, anjo ou demônio, já possui todo o conhecimento natural que precisa. Discutimos isso na questão 55, artigo 2, em dois textos, aqui e aqui. Assim, não há espaço nem possibilidade de que um demônio ilumine outro com conhecimentos de ordem meramente natural. E, na ordem sobrenatural, eles decaíram da graça, e não têm nada a iluminar. Assim, não se pode dizer, em nenhuma hipótese, que um demônio ilumine outro.
- Concluindo.
Nem sempre conversar, transmitir conhecimentos, informar, significa iluminar, tornar mais rico, mais brilhante, mais verdadeiro, o intelecto de um interlocutor. Há uma diferença entre a conversa de dois demônios, por mais elevados naturalmente que sejam, e a iluminação que um Santo Anjo mais elevado faz no intelecto de um inferior. O bem é diferente do mal. Precisamos lembrar disso sempre.
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