1. Retomando.

Uma ditadura inclemente, baseada apenas na superioridade natural de uns sobre os outros, superioridade que é permanente e eterna e que se fundamenta no puro exercício do poder, sem nenhuma sombra de amor, no poder que submete o outro a seus próprios caprichos e ignora suas necessidades e desejos – poder, aqui, significando simplesmente capacidade de anular a liberdade alheia. Eis a organização do inferno, fundamentada em graus escalonados de poder maléfico.

Mas estamos, como sempre, nos adiantando. Vamos estudar as respostas de Tomás aos argumentos iniciais, que propunham o inferno como uma anarquia libertária sem nenhum tipo de coação – o que não pode estar mais longe de ser verdade. 

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Quando se contempla o nosso universo material, vemos que há, claramente, uma organização estruturada de dependência recíproca: as galáxias, os sistemas solares, os planetas, os seres vivos, os seres humanos, tudo isto existe e está organizado de acordo com as respectivas naturezas. Assim, as galáxias naturalmente influem nas estrelas, estas naturalmente influem nos planetas, nosso planeta sustenta a vida e, dentre os seres vivos, uma grande cadeia ecológica nos liga. Tudo isto funciona de conformidade com a natureza.

Ora, sabemos que os demônios são criaturas de Deus, como vimos no artigo anterior, e que são criados de modo diferente: alguns são mais capazes que os outros, com uma inteligência mais ampla, mais penetrante e mais abrangente, com uma vontade mais poderosa, enquanto outros são mais simples, menos amplos de inteligência, menos poderosos em vontade. 

Assim, é de se esperar que haja uma estrutura, mesmo no inferno, pela qual os mais capazes, inteligentes e poderosos naturalmente submetam a si os inferiores, de modo a configurar um verdadeiro “organograma” infernal, uma estrutura rígida de superior e inferior que representa uma dominação organizada do superior sobre o inferior. Deus não criou nada sem ordem e sem posição, de modo que, mesmo no inferno, a ordem existe, de modo a criar, ali, uma estrutura de submissão e dominação. 

Esta situação reflete a extensão da sabedoria divina, como está dito no Livro da Sabedoria de Salomão (8, 1): “[a Sabedoria de Deus] estende seu vigor de uma extremidade do mundo à outra e governa todas as coisas com felicidade”. O inferno é a rejeição do amor, mas não foge à ordenação divina. Mesmo lá há uma ordem, embora essa ordem seja, como tudo alia, perversa e cruel. 

3. As respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor não aceita que possa haver alguma ordem de graus de submissão no inferno. Este argumento diz que toda ordem que envolve um superior que governa e um inferior que se submete etá fundada, de alguma maneira, numa ideia de justiça. Ora, toda justiça é um bem. Mas os demônios renunciaram completamente ao bem, logo não pode haver nenhum tipo de organização entre eles, e portanto o inferno é uma grande anarquia, sem nenhum tipo de subordinação, conclui falsamente o argumento.

A resposta de Tomás.

Na verdade, os demônios foram criados por Deus como anjos, como criaturas boas em si mesmas, porque Deus nada cria de mau. E entre os anjos não há igualdade, mas diferença natural que determina diferentes graus de inteligência e poder. Assim, quando eles decaíram, não perderam a sua natureza, e portanto há, entre eles, alguns que são mais inteligentes e poderosos do que outros, e são capazes de submeter os outros que lhes são inferiores. Isto decorre, portanto, em última instância, da ordem de Deus, que é infinitamente justo, e não de alguma justiça que pudesse existir entre os demônios. A estrutura de inferiores e superiores, no universo, decorre, pois, ainda que de modo involuntário, da justiça de Deus. E nos deveria fazer pensar muito: a submissão ao poder implacável, sem o amor, é uma parte considerável da maldade que existe no inferno e que, no fundo, castiga os que livremente o elegem. O poder sem amor é um castigo, não uma vantagem, e neste sentido a permissão de Deus para que as coisas sejam assim é justa

O segundo argumento objetor.

Ali onde não há a percepção de que a obediência é devida, com a aceitação da sujeição, não pode haver uma verdadeira relação de ordem de comando. Ora, essa percepção pressupõe a harmonia da concordância recíproca (concórdia), que não existe jamais no inferno, lugar de embates, contendas e orgulho permanente, como diz a Bíblia (Provérbios 13, 10): “O orgulho só causa disputas”. Portanto, no inferno existe uma anarquia caótica, na qual ninguém submete ou é submetido por outro, conclui equivocadamente o argumento. 

A resposta de Tomás.

O fato de que os demônios aceitam colaborar uns com os outros e se submetem aos mais poderosos para um fim comum não decorre de algum tipo de concórdia obediente, mas da perversidade comum que os une na busca de seus objetivos nefastos, que, como percebem, podem ser melhor atingidos caso os inferiores se submetam aos superiores, mesmo com a percepção de que nem uns, nem outros, o fazem por harmonia, mas por estratégia impulsionada por seu ódio comum a Deus e aos seres humanos que buscam a salvação. Assim também existe em determinadas organizações humanas do crime organizado: uns se submetem à maldade de outros mais poderosos porque percebem que esta é uma maneira conveniente de alcançarem o mal mais facilmente

O terceiro argumento objetor.

Só haveria duas possíveis fontes para uma relação de desigualdade hierárquica entre os demônios: 1) as diferenças naturais, ou 2) a culpa e castigo. 

Ocorre que sabemos, pela sã Doutrina com lastro bíblico e de Tradição, que toda sujeição decorre do pecado original, e que não existia no estado de inocência no paraíso; portanto, nenhuma relação de superioridade e submissão pode existir naturalmente. Logo, não é por força da própria natureza que haveria algum tipo de superioridade e inferioridade no inferno. Por outro lado, se tal desigualdade surgisse do pecado, então teríamos que admitir que, como os anjos mais elevados, mais inteligentes e mais poderosos, ao rejeitarem Deus, pecaram mais gravemente do que os inferiores, então a sua culpa e o seu castigo seria o de que os inferiores comandariam os superiores, e não o contrário. Portanto, se não se pode encontrar nenhum fundamento razoável para algum tipo de superioridade de comando no inferno, temos que concluir que esse tipo de comando não existe ali, mas apenas a anarquia igualitária do desentendimento total, conclui erroneamente o argumento. 

A resposta de Tomás. 

Entre os seres humanos não há diferenças naturais de poder e capacidade; somos todos feitos da mesma espécie, com uma alma que saiu das mãos de Deus sempre com a mesma dignidade natural. Mas entre os anjos (e os demônios nada mais são do que anjos, embora decaídos) isto não é assim. Cada um deles é diferente de todos os outros, possui um grau próprio de inteligência e de poder da vontade que é diferente daquele de todos os outros anjos e superior ao de qualquer ser humano. Logo, mesmo entre os demônios, as diferenças naturais entre eles persiste, de modo que os mais poderosos subjugam os menos poderosos, conclui Tomás, e é por esta razão que, no inferno, existe uma ordem implacável de poder e submissão entre os demônios. 

4. Concluindo.
A hierarquia da Igreja, que é a hierarquia análoga ao Reino dos Céus, não está baseada na submissão pura e simples ao poder do outro pelo temor ou pelo ódio, mas no conhecimento do bem e nos laços de amor que unem os bem-aventurados. No Reino, sabemos que a obediência é sempre a abertura ao amor, mesmo quando não o compreendemos perfeitamente, e nos leva ao céu. No inferno, por outro lado, a submissão é simplesmente a aplicação do poder para atingir os objetivos do poderoso, que podem até coincidir com os do subordinado quando ambos são igualmente perversos, mas nunca envolvem a concórdia ou o amor: sempre o medo, a punição, a redução, o domínio das vontades. Não há nenhum tipo de anarquia ou de feliz desordem no inferno: há o poder despótico do que está em cima sobre o que está embaixo.