1. Introdução.
Temos uma visão um tanto “romantizada” do inferno, hoje em dia, graças a certas obras literárias e teológicas que colocaram o Diabo como um rebelde libertário, e o inferno como um tipo de anarquia democrática, em contraste com o Reino dos Céus autocrático, ditatorial, despotista, e Deus como um ditador implacável e totalitário. Talvez isto se justificasse em determinados momentos históricos, como uma alegoria da luta contra reis e príncipes tiranos que usavam a desculpa de religião para implementar reinados despóticos. Mas, ainda assim, é um erro. Na verdade, estes tiranos usavam falsamente o nome de Deus para justificar seus próprios desmandos, mas imitavam muito mais o regime de governo do inferno. Denunciá-los invertendo as coisas pode tornar tudo ainda mais confuso.
Tomemos, neste ponto, John Milton, no Paraíso Perdido, e o grito que ele põe nos lábios de Satanás, como um convite aos seus seguidores: “é melhor reinar no inferno do que obedecer no céu”. Isto não é verdade em nenhum grau. No céu, caminha-se por amor, por liberdade, convencido de que Deus é o sumo bem e segui-lo e fazer sua vontade é o que há de mais livre e perfeito. No inferno, trata-se do puro poder despótico, e ali manda mais quem pode mais. Nada de amor, mas apenas de exercício puro e simples do poder pela força mesmo. Terror. Domínio despótico dos menores pelos maiores – e nós, humanos, somos menores do que todos os que estão ali.
Este artigo nos mostrará justamente isto: não há uma doce anarquia romântica no inferno, mas poder totalitário do maior sobre o menor, desprovido de qualquer bem, de qualquer razão, de qualquer amor. Não há revoluções no inferno, apenas a triste e desesperada submissão completa à força do mal. Vamos ao artigo.
2. A hipótese polêmica inicial.
Sabemos que esta primeira hipótese é sempre controvertida, polêmica, incompleta, enganadora e falsa, mas ela é apresentada, num primeiro momento, para suscitar a discussão.
No presente caso, a hipótese polêmica inicial é a de que, no inferno, não há poderosos nem governantes, não há superiores hierárquicos, não há domínio e submissão, mas todos seriam iguais entre si. Uma espécie de anarquia doce, um reino no qual, supostamente, cada um poderia “fazer o que quiser, pois a vontade individual seria a única lei”, como pregam alguns satanistas, para seduzir os incautos. Assim, a proposta é a de que não há superiores no comando, no inferno. Todos estariam no mesmo grau de desgraça, num igualitarismo anárquico. Aparentemente, pois, esta hipótese tem convencido muita gente de que o inferno é uma democracia, quando ele não passa de uma perigosa, inflexível e imutável tirania do mais forte. A submissão pura e completa.
Mas estamos nos adiantando. De toda forma, o tema é atual, e esta hipótese arregimenta muita gente, ainda em nossos dias.
Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese do inferno anárquico e democrático.
2. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
A ordem de governo, em que alguns governam e outros são governados, é algo relacionado à virtude da justiça, e envolve a organização para que todos possam ter, do bem comum, a sua cota de participação. Ora, os demônios perderam todas as virtudes, inclusive e principalmente a justiça. Logo, não se pode falar de alguma estrutura de governo no inferno, na qual houvesse inferiores e superiores, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
A estruturação pela qual uns estão acima de outros, de tal modo que uns mandam e outros obedecem, pressupõe o reconhecimento, por parte dos que estão abaixo, da legitimidade dos que estão acima, de modo que possam oferecer sua obediência e submissão. Ora, esse reconhecimento e essa obediência não podem ocorrer ali onde não há concórdia, isto é, não há a consciência de que todos estão envolvidos pela união e pela busca de algo que é comum a todos. Mas isto não existe entre os demônios, como nos atesta a Bíblia em Provérbios 23, 10: “da soberba só vem a discórdia”. Ora, ali onde só há discórdia não pode existir alguma organização baseada em inferiores e superiores; logo, não há esse tipo de estrutura no inferno, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Só há duas fontes para as estruturas hierárquicas: 1) a natureza ou 2) o pecado que leva à culpa e ao castigo. Ora, a fonte da submissão de uma criatura a outra nunca é a natureza, porque no paraíso não existia nenhuma sujeição e nenhum tipo de servidão ou escravidão, mas apenas após o pecado é que este tipo de organização surgiu. Mas também não pode decorrer do pecado e da culpa, porque os anjos mais elevados, ao rejeitarem o amor de Deus, pecaram mais do que os inferiores; assim, no inferno, os superiores estariam submetidos, por culpa e pena, aos inferiores, o que seria ilógico. Logo, não há nenhuma submissão ou superioridade entre as criaturas no inferno, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento contrário à hipótese controvertida inicial traz um comentário (a chamada glosa interlinear) a uma citação bíblica. O versículo é 1 Coríntios 15, 24: (“A seguir haverá o fim, quando ele entregar o reino a Deus Pai, depois de ter destruído todo Principado, toda Autoridade, todo Poder”). Quanto a este versículo, a glosa diz: enquanto existir o mundo em sua atual configuração, os anjos serão governados pelos próprios anjos, como os seres humanos governarão outros seres humanos e os demônios governarão outros demônios. Logo, há algum tipo de relação entre superiores e inferiores no inferno, conclui este argumento.
5. Encerrando.
Pensemos numa grande corporação maligna, uma ditadura da qual não podemos sair nem pela morte, porque no inferno não se pode morrer, e aí termos uma visão do que é a ‘organização administrativa’ de um lugar assim.
O debate está colocado. Os argumentos acima são fortes, mas parciais e errôneos; no próximo texto veremos a resposta de Tomás a eles.
Deixe um comentário