1. Voltando para encerrar.

Cada demônio é diferente, cada um tem um grau de inteligência e poder diferente, e neste sentido há uma ordem entre eles – ainda que seja uma ordem de poder, de crueldade, de maldade. Essa ordem é inteiramente baseada nas diferenças naturais (o que coloca os seres humanos réprobos no final da linha, serão os últimos no inferno, submetidos a todos os demônios). Então podemos dizer que há, dentre os demônios, as seguintes classificações:

  1. A ordem de anjos a que eles pertenceram originalmente, e da qual decaíram quando optaram contra Deus. Nesta eles deveriam entrar em razão da sua natureza e da sua graça.
  2. A ordem dos demônios que eles ocupam no inferno, que depende apenas do grau de capacidade e poder de sua natureza.

Há, portanto, uma ordem entre os demônios, que determina graus de inteligência e capacidade entre eles.

Com isto em mente, vamos examinar agora as respostas que Tomás oferece aos argumentos objetores iniciais, que tentavam provar que não existe nenhum tipo de grau, escalonamento ou hierarquia entre os demônios. Vamos a Tomás.

2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.

O primeiro argumento objetor.

Coisas como a ordem, o método e a estruturação são próprias do bem, como dizia já Santo Agostinho, na obra De Natura Boni. Ora, tudo aquilo que é próprio do bem não pode se manifestar entre os demônios, que escolheram contra o bem. Assim, para eles, o próprio é a desordem, diz o argumento. Portanto, não podem existir ordens de demônios, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Diferentemente do Bem, que é um transcendental do ser e é idêntico a Deus – ou seja, há uma causa primeira de todo o bem, que é Deus – o mal não é uma coisa, mas uma deficiência que macula algo bom. Portanto, nunca pode haver o puro mal, sem nenhuma dimensão de bem. Ali onde o mal existe, ele existe porque corrompe algo que é bom, e subsiste porque o bem que lhe sustenta existe. Para entendermos, pensemos numa camisa furada: o mal, que é o furo, só existe porque existe uma camisa e seu tecido, que são bons. Quando o furo cresce a ponto de rasgar todo o tecido e destruir completamente a camisa, já não existe mais a camisa nem o próprio furo.

Assim, mesmo no inferno, onde os demônios vivem mergulhados no mal, há o bem da existência, como há também o bem da natureza angélica que eles têm – e que se submete a graus de inteligência e poder. Logo, há certa ordem no inferno, dentre os demônios, porque, embora possa existir o bem sem nenhuma mistura de mal (o que acontece em Deus), não pode existir o mal sem alguma mistura de bem, nem mesmo no inferno.

O segundo argumento objetor.

O próprio termo hierarquia significa, originalmente, uma ordem sagrada que se submete a Deus. Assim, faz sentido que os Santos Anjos tenham hierarquia, já que estão submetidos ao serviço de Deus. Mas os demônios, ao desprezarem o bem e se recusarem a servir a Deus, já não se submetem a nenhum tipo de ordem sagrada que pudesse ser adequadamente chamada de hierarquia. Logo, não há nenhuma organização dos demônios em graus ou ordens, conclui o argumento.  

A resposta de Tomás.

Quando falamos das ordens celestes, que envolvem os Santos Anjos, usamos a palavra “hierarquia” em seu sentido próprio, unívoco, original, de “organização sagrada submetida a Deus”, porque os Santos Anjos participam do governo do universo em submissão direta e voluntária ao amor de Deus. Mas quando falamos numa “hierarquia infernal”, usamos o termo em sentido analógico, derivado, para dizer que há graus diferentes de inteligência e capacidade entre os demônios, em razão das diferenças em suas naturezas mesmas, que foram criadas assim por Deus, mas que foram corrompidas por livre opção dos próprios demônios. Trata-se, pois, de usos diferentes da mesma palavra, e não há nenhum problema nisso.

O terceiro argumento objetor.

Os demônios não foram criados maus, diz o argumento. Nada de mau sai das mãos de Deus. Eles foram criados naturalmente bons e foram providos da graça santificante, de modo que pertenceram, nesse primeiro momento, às ordens dos anjos: eram Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, etc. Este é um conhecimento comum na teologia.

Ora, quando eles rejeitaram a graça e caíram no mal, deixaram de pertencer às ordens dos Santos Anjos; de tal modo foram lançados ao inferno que não haveria nenhuma possibilidade de que continuassem nas ordens dos anjos. E tanto as coisas são assim que ninguém chama aos demônios de “Serafins” ou “Tronos”, ou mesmo “Dominações” do inferno. 

Ora, se eles não são chamados pelos nomes das ordens dos Santos Anjos às quais poderiam ter pertencido se não tivessem escolhido o mal, então devemos concluir que já não há ordens de anjos no inferno, e os demônios não podem ser organizados em ordens, ali, conclui o argumento. 

A resposta de Tomás.

Sabemos que o nome “Serafim” significa “aquele que é ardente de amor”; a designação “Trono” significa “aquele que sustenta em si o poder de Deus”; mesmo a palavra “Dominações” implica poder sobre o mal. Ora, as denominações dessas ordens de Santos Anjos são inadequadas para descrever as ordens e legiões demoníacas do inferno. Mas há outras menções bíblicas que podem ser relacionadas com tais ordens demoníacas, que dizem respeito aos seus poderes e à maneira de exercê-los, como as menções em 1 Coríntios 15, 24 à derrota, que será determinada por Jesus em sua volta, contra as soberanias, principados e potestades que se colocam contra o Reino de Deus. Portanto, há fundamento bíblico para defender que há graus e ordens de demônios no inferno.

  1. Concluindo.

Os demônios  se organizam, não somente porque seus poderes são diferentes, de modo a determinar que eles se submetam reciprocamente (ainda que, creio, de má vontade) a outros demônios mais poderosos, mas também porque isto facilita ainda mais que alcancem seus objetivos maléficos, como vemos, na Bíblia, nos casos de possessões múltiplas. Este é exatamente o tema que estudaremos nos próximos textos, quando visitaremos o segundo artigo desta interessante questão.