1. Retomando.

Alguém já disse que qualquer virtude sem Deus é um vício ainda maior. E isso se aplica também aos infernos. Não pensemos que o inferno seria uma espécie de anarquia, na qual cada um seria um rei de si mesmo, sem dar satisfações a Deus ou ao Diabo. Ao contrário, dado o fato de que a liberdade não é simplesmente a possibilidade de escolher, mas é a possibilidade de atingir o próprio fim, que é Deus,  juntamente com os outros, então o inferno consiste em estar submetido a uma ordem malévola, que impede a liberdade de chegar ao fim em comunhão com Deus e com os outros. 

Vimos, no texto anterior, a hipótese de que não haveria nenhuma organização no inferno, que os demônios não estariam distribuídos numa escala de capacidades e de disposições, que tudo seria uma espécie de anarquia amorfa do mal, uma igualdade indiscriminada; vimos os argumentos objetores iniciais que tentam comprovar essa falsa hipótese. 

Agora estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás, que nos encaminhará à solução adequada desta questão.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Quando estudamos a organização do Reino dos Céus, na comunhão dos santos, vimos que há dois critérios para a hierarquia dos anjos, que será também a nossa hierarquia, quando entrarmos na glória: o grau de perfeição das respectivas naturezas, pela sua complexidade e pelas suas capacidades, e o grau de vida na graça, ou seja, o tamanho do amor de Deus recebido e a pureza da resposta que ele provoca na criatura. 

Isto é, no céu o critério é o amor, vivido com as forças da graças que elevam e aperfeiçoam a natureza. É deste modo, por exemplo, que um anjo que arde no amor de Deus (como são os Serafins) é mais elevado do que aquele que, embora amando-o, destaca-se mais pelo conhecimento do que pelo amor (como é o caso dos Querubins). Por isto, no céu, as classificações levam em conta o grau de capacidade das naturezas, mas principalmente a intensidade da graça e sua resposta. E é por isso que, no reino dos céus, um ser humano que se distinguiu na graça pode alcançar a santidade equivalente a um anjo de ordem muito elevada, embora, por natureza, seja muito inferior a ele. Os seres humanos, no céu, ingressam numa ordem de amor, de liberdade plena, de completa realização, por terem alcançado aquilo para o qual existem: a presença mesma de Deus.

No inferno, no entanto, não existe nenhum amor; ali é o reino da rejeição da graça, e por isso a única diferença é a própria diferença de natureza: aquele que tem mais capacidade, mais poder natural, mais força, estará necessariamente acima daquele que, naturalmente, tem capacidades mais restritas, mais limitadas, por ter uma natureza mais simples, menos poderosa. No inferno cada um vale o poder natural que tem. Deste modo, os seres humanos estarão submetidos, ali, eternamente, a seres que naturalmente são muito mais poderosos e rejeitaram inteiramente o amor.

Se a natureza, suas capacidades e poderes, são o único critério de organização no reino infernal, e se cada anjo é diferente do outro justamente por ter capacidades e poderes mais elevados ou mais reduzidos, não é a queda ao inferno, não é a rejeição ao amor, não é o desprezo a toda graça que os iguala. Eles permanecerão eternamente diferentes, eternamente separados em graus ou ordens de poder e de capacidades, de modo que, no inferno, há uma ordenação malévola, que põe mais acima os de maiores capacidades naturais e abaixo deles os de menor capacidade natural. Aos de baixo cabe submeter-se ao mal e ao arbítrio os que estão mais acima, e a estes cabe submeter-se ao poder do mais elevado entre eles, Lúcifer ou Satanás, que é poderoso o suficiente para dominar todos os que lhe estão abaixo, mas continua sendo uma criatura, submetido, embora a contragosto, a Deus. 

Assim, em determinado sentido, podemos dizer que os demônios um dia foram anjos, e um dia compuseram, em conformidade com a sua natureza e com a graça que receberam quando foram criados, as ordens celestes. Como vimos quando estudamos os anjos (questões 50 a 64), todos os demônios foram criados por Deus como anjos e receberam, no ato mesmo da sua existência, a graça necessária para a salvação – que rejeitaram no instante subsequente. Deste modo, os demônios, ao rejeitarem a graça, já não pertencem às ordens celestes para as quais foram originalmente criados, e às quais deveriam pertencer na conformidade de sua natureza e da graça de Deus que rejeitaram.

No entanto, dada a diferença de poderes e capacidades de suas naturezas individuais, eles estão distribuídos em graus, dentro do inferno, no sentido de que sua natureza continua existindo com os dons naturais com os quais Deus os criou, e que difere de demônio para demônio. Neste sentido, podemos afirmar que existem legiões e ordens de demônios, no inferno, que agrupam, por semelhança, os demônios em graus diferentes de poderes e capacidades. Neste sentido existem, sim, ordens de demônios no inferno, em razão dos graus diferentes de capacidades e poderes naturais, já que não há mais, dentre eles, nem traço da graça que um dia receberam.

3. Encerrando.

Ao contrário do que está escrito no “Paraíso Perdido” de John Milton (“melhor reinar no inferno do que servir no céu”), no inferno somente o Diabo reina, e mais ninguém. Todos os outros vivem uma eternidade sem escolhas, sem vínculos com ninguém senão o vínculo de submissão com o Diabo, sem possibilidade de alcançar a própria plenitude. No inferno, a ordem é a ordem dos túmulos, ou melhor, das tiranias, e as virtudes são os vícios levados ao estado da arte. Os demônios sabem ser cuidadosos, pacientes, meticulosos, observadores, organizados, cada vez que isto os torna mais eficientes em construir a infelicidade. As maiores virtudes sem Deus são os maiores vícios. 

No próximo texto examinaremos finalmente as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.