1. Introdução.

Que ordem pode haver no inferno? Se qualquer tipo de organização é um bem, então ao inferno parece restar a anarquia e a desordem absoluta.

Mas é um erro pensar assim. Os antigos já diziam que o mal é a corrupção do bem, isto é, o mal é a degradação do bem. Não há o mal absoluto, não há o mal como algo que se estabelece em si mesmo e representa uma contradição absoluta do bem; o mal existe como bem corrompido.

Deste modo, enquanto no céu existe uma hierarquia fundada no amor, na qual todos os santos encontram seu lugar adequado de modo a desfrutarem o máximo de felicidade que a sua natureza e a graça recebida permitem, sem que haja nenhuma injustiça nos graus da felicidade, no inferno, por outro lado, toda ordem é opressiva, toda organização é monstruosa, toda relação é submissão, cada grau é maximização da infelicidade e da incompletude. Quem já viveu num regime político de opressão e submissão vislumbrou um pouco dessa realidade: o poder, organizado sem o amor e sem o respeito à liberdade e à ordem natural é cruel e destrutivo. Assim é o inferno, numa escala enormemente maior. Se, por um lado, a ordem social e a ordem política são bens, quando ordenados ao fim que é Deus, por outro lado, quando transformados em fins por si mesmos são realmente infernais. Os antigos diziam também que “toda virtude sem Deus é vício”, querendo se referir ao fato de que o mal, quando dotado das disposições adequadas, tem o poder de ser muito mais insidioso e cruel. 

O debate aqui diz respeito a isto: que tipo de ordem pode haver entre os demônios? Como se organizam, como estão dispostos? Será que no inferno há realmente a possibilidade de “reinar sozinho”, que é a grande sedução que Satanás nos oferece? Será que há, ali, uma libertinagem cheia de prazeres, na qual se desfruta o poder de se fazer o que se quer, ou há, ao contrário, a opressão suprema, porque rigidamente organizada para não deixar espaço ao amor?

Vamos ao debate. 

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial parece assumir que o inferno é essencialmente uma anarquia geral, em que reina a desordem completa, caótica, avessa a qualquer tipo de sistematização, na qual todos os demônios se confrontam permanentemente sem que se submetam nunca uns aos outros. Um lugar onde supostamente se ‘reina sozinho’ num reino em que não há súditos, mas apenas o individualismo egoísta mais feroz e autárquico. Assim, diz a hipótese, não haveria nenhuma hierarquia no inferno, nem qualquer tipo de graus de ordem entre os demônios. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Santo Agostinho, na obra De Natura Boni, ensina que a ordem é algo que pertence à própria razão de bem, assim como a medida e a beleza. Ao contrário, ao mal pertencem a desordem, a feiura e a falta de medida. 

Ora, nos anjos bons não há nenhuma desordem. Logo, se os demônios são anjos corrompidos pelo mal, então neles não pode haver nenhum tipo de ordem, ao contrário dos anjos bons. Logo, no inferno não existem ordens de demônios, conclui o argumento. 

O segundo argumento objetor.

A palavra hierarquia tem origem na ideia de uma organização sagrada, que tem em Deus seu referencial organizador. Por isso, a hierarquia dos Santos Anjos os distribui em ordens conforme a sua proximidade de Deus e a santidade das funções que lhes são atribuídas.

Ora, os demônios rejeitaram Deus radicalmente, e estão privados de qualquer santidade; já não podem ser ordenados por algum critério sagrado de semelhança com Deus. Assim, não há ordens de demônios no inferno, conclui o argumento. 

O terceiro argumento objetor.

Sabe-se que anjos dos mais diversos graus, desde os mais altos até os menores, caíram, escolhendo a rejeição de Deus. Ora, ninguém nunca ouviu falar, nem há nenhum registro na Bíblia, de que algum demônio fosse chamado de “Serafim”, de “Querubim” ou de “Trono”. Assim, se houvesse ordens de demônios, haveria demônios nesses graus, como há Santos Anjos neles. Assim, deve-se concluir que não há ordens de demônios no inferno, conclui o argumento.  

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra  lembra que há, sim, na Bíblia, a ideia de que os demônios também estão divididos em graus ou ordens; em Efésios 6, 12, o próprio São Paulo nos lembra que, ao lutar contra os poderes das trevas, lutaremos “contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste mundo, contra as hostes espirituais do mal que povoam as regiões celestiais”. Existem, pois, diferentes graus, mesmo entre os demônios, que os separam em ordens que têm diferentes poderes e funções, conclui o argumento.

5. Encerrando até o próximo texto.

Sempre é bom lembrar que a hipótese controvertida inicial não é a opinião de Tomás, nem é a nossa; é apenas uma provocação para iniciar os debates. E que os argumentos objetores iniciais são sempre em apoio àquela hipótese, e portanto estão equivocados, e seus equívocos serão demonstrados por Tomás em sua resposta sintetizadora e, depois, nas respostas separadas que apresenta a cada um dos argumentos. Estas partes do artigo são sempre examinadas por nós, mas nosso primeiro texto é sempre a apresentação do problema, e sempre apresenta, portanto, a parte equivocada do debate. Digo isto porque tenho recebido mensagens de leitores registrando os equívocos desta primeira hipótese e dos primeiros argumentos como se fossem erros meus ou de Tomás. Não são. Então, peço a todos, caridosamente: leiam todos os textos de um artigo, e muitas vezes a resposta surgirá. Se mesmo assim restarem dúvidas, estou pronto para respondê-las ou acolher as críticas e retificar os textos. Deus nos abençoe!