1. De volta para concluir.
Lembramos que a hipótese inicial, neste artigo, era a de que não seríamos admitidos à ordem dos anjos, após morrer na graça e entrar na glória. Vimos os três argumentos objetores iniciais que tentavam provar essa hipótese, e o argumento sed contra que nos lembra que foi o próprio Jesus que nos revelou que as coisas seriam assim, conforme registrado em Mateus 22, 30.
O Reino dos Céus é um só: nós e os Santos Anjos, no serviço do Senhor, eternamente. Mas quando Jesus disse que “seremos como os anjos” não quis dizer, de modo nenhum, que somos ou seremos anjos. Somos seres humanos, e sempre seremos. Mas estaremos no serviço com os anjos, incorporados às ordens angélicas conforme a altura da graça que recebemos, aceitamos e vivemos nesta vida.
Vimos tudo isto nos últimos textos.
Voltaremos, então, agora, aos argumentos objetores iniciais, examinando-os, com Tomás, a partir dos princípios estabelecidos na resposta sintetizadora, que examinamos no último texto, e estudaremos as respostas que Tomás oferece a cada um desses argumentos iniciais. Vamos a eles.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que a alma espiritual dos seres humanos, que é seu elemento imaterial, é inferior, em poderes e capacidades, mesmo aos anjos mais simples, que pertencem à ordem mais baixa na hierarquia dos anjos. Ora, um anjo de ordem inferior nunca passa por algum tipo de evolução ou crescimento natural que o permita progredir para uma ordem superior, mais elevada. Ele permanecerá eternamente ali em sua própria ordem. Assim, do mesmo modo, os seres humanos nunca poderiam subir a uma ordem angélica que é naturalmente mais elevada do que qualquer ser humano jamais poderia alcançar. Portanto, não é verdade que os seres humanos que alcançarem a glória serão admitidos em alguma ordem angélica existente, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A graça que Deus concede aos anjos é proporcional aos seus dons naturais; deste modo, os anjos que acolheram a graça, nos primeiros tempos, responderam ao apelo de Deus e entraram no Reino dos Céus como Santos Anjos, mas em perfeita ordem, obedecendo à hierarquia natural de suas capacidades. De fato, o sim ou o não dos anjos à graça não tem gradações: é sempre pleno, e portanto sempre proporcional à sua própria natureza.
Mas entre os seres humanos não é assim. Como somos todos perfeitamente iguais, substancialmente, em natureza, então a resposta que damos à graça é sempre diferente, sempre pessoal, sempre dinâmica, de modo que alguns recebem graças enormes e as rejeitam, preferindo o pecado, enquanto outros abraçam as graças ordinárias do cotidiano e se santificam de modo magnífico, alcançando grandes alturas de santidade. Assim, os graus de santidade, entre os seres humanos, não tem proporção com a natureza, mas com a resposta de amor que a graça provoca neles. Deste modo, um ser humano pode alcançar a glória com diferentes graus de santidade, e deste modo ser admitido em alguma ordem celeste muito elevada. Isto está revelado pela palavra de Jesus que diz: “na casa do meu Pai há muitas moradas” (João 14, 2). É por isso que um ser humano, mesmo com uma natureza tão limitada, pode vir a ser admitido numa ordem angélica muito elevada – o que não ocorreria entre os próprios anjos.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento lembra que os anjos têm um papel ativo no governo do mundo, e são capazes de intervir na história, guardando as pessoas que caminham neste mundo, realizando milagres, interagindo com a matéria e repelindo os demônios. Ora, nenhuma dessas atividades é adequada à alma dos que já morreram, mesmo estando na glória de Deus. Os seres humanos, quando morrem, perdem a possibilidade de interagir com a matéria, que é uma atividade que se relaciona à corporeidade, e já não caminham na história, mas estão guardados no seio do Senhor. Assim, não há sentido em imaginar que os seres humanos, ao entrar na glória, sejam transferidos às ordens dos anjos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Os anjos estão naturalmente colocados como intermediários entre nós e Deus, ou seja, sua função natural é a de gerir o universo, interagindo com o mundo material e modificando-o. Eis porque, de ordinário, se houver algum tipo de manifestação preternatural em nosso mundo, não devemos atribuí-la Às almas de seres humanos mortos (que não têm esse poder), mas aos anjos, sejam os Santos Anjos, no caso das atividades boas e em conformidade com Deus, ou aos demônios, naquelas manifestações que nos afastam de Deus e nos enganam em questões de fé.
Ora, os seres humanos que já morreram estão privados da possibilidade de se relacionar naturalmente com a história, com o universo criado. A morte nos isola da história. Assim, de fato, os santos que já morreram não se relacionam diretamente conosco nem com o universo criado, e portanto não adquirem este tipo de função, ao serem transferidos às ordens dos anjos. Sua relação conosco envolve apenas a intercessão junto a Deus em nosso favor, e neste sentido eles influem indiretamente no curso da história.
É claro que Deus pode permitir, excepcionalmente e por milagre, que um santo que já está na glória possa se manifestar a alguém vivo, e há relatos fiáveis de milagres diretos, de intervenções frente aos demônios e mesmo de contatos e mensagens divinas transmitidas assim; são, porém, raríssimos os fenômenos autênticos, e devem sempre ser discernidos pelo Magistério (Catecismo da Igreja Católica, §67: “No decurso dos séculos tem havido revelações ditas «privadas», algumas das quais foram reconhecidas pela autoridade da Igreja. Todavia, não pertencem ao depósito da fé. O seu papel não é «aperfeiçoar» ou «completar» a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época da história. Guiado pelo Magistério da Igreja, o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja. A fé cristã não pode aceitar «revelações» que pretendam ultrapassar ou corrigir a Revelação de que Cristo é a plenitude. É o caso de certas religiões não-cristãs, e também de certas seitas recentes. fundadas sobre tais «revelações»”). O Catecismo, portanto, está em sintonia com Tomás, que, por seu turno, cita Santo Agostinho, que nos ensina, na obra “O cuidado Devido aos Mortos”, que em ocasiões especiais, é concedido a certos santos, vivos ou mortos, intervir na história miraculosamente, ou mesmo afastar demônios, por permissão excepcional de Deus.
Portanto, os seres humanos que entram na glória são transferidos às ordens dos anjos, mas não participam, ordinariamente, dos encargos que envolvem a intervenção direta no mundo material.
O terceiro argumento objetor.
Sabemos que os Santos Anjos têm, como missão, conduzir o universo ao bem; os demônios, que são anjos caídos, conduzem, por outro lado, as coisas ao mal.
Ora, sabemos que São João Crisóstomo, em seu Comentário ao Evangelho de Mateus, ensina, com muita verdade e correção, que é errado pensar ou dizer que os seres humanos réprobos se convertem em demônios quando morrem. Logo, também é errado dizer que os seres humanos santos são transferidos às ordens dos anjos quando alcançam a glória, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Mais uma vez, Tomás faz uma distinção muito necessária: quando Jesus diz que os seres humanos serão “como” os anjos (Mt 22, 30), ou que os réprobos serão enviados ao inferno preparado para o Diabo e seus anjos (Mt 25, 41), isto não significa imaginar que os seres humanos serão transformados em anjos ou em demônios, muito menos significa que os demônios são apenas seres humanos condenados, que pagam suas penas e chafurdam no mal. Anjos são anjos, demônios são anjos caídos, seres humanos são seres humanos sempre e sempre o serão. Mas os seres humanos seguem, no pós-vida, a sorte dos santos anjos ou dos demônios, a depender da salvação que abraçaram ou renegaram – sem que se transformem em anjos ou demônios. É este último pensamento que São João Crisóstomo – e com ele a reta doutrina da fé – rejeita.
3. Concluindo.
Os Santos Anjos já vivem a plenitude do Reino, porque escolheram a glória e ela lhes foi, por graça, concedida. Os demônios, por outro lado, vivem no inferno que escolheram ao rejeitar Deus. A sua sorte será a nossa sorte, após a morte, conforme escolhamos o bem com a graça ou o mal sem ela.
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