1. Retomando.

Nunca é demais repetir: não somos anjos. Somos seres humanos. Somos, essencialmente, seres materiais animados por uma estrutura espiritual, mas nunca seremos seres imateriais, nunca seremos completos sem nossos corpos. Embora nossa vida biológica se limite a esta primeira etapa desde a nossa concepção até a nossa morte, o estado intermediário em que permanecemos como almas sem corpo, que se estende desde a nossa morte até o juízo final, é uma etapa de incompletude: somente na ressurreição final, após o juízo, em que teremos de volta nosso corpo, já não mais biológico, mas espiritual, como o corpo glorioso de Jesus (1 Coríntios 15, 44).

Por isso, não há sentido em imaginar alguma coisa como a reencarnação, uma ideia de que a alma humana é uma realidade essencialmente completa em si mesma, que, na verdade, seria muito mais verdadeira quando desencarnada, e que é capaz de “vestir” corpos humanos sucessivos, como roupas que são usadas e descartadas no caminho de uma “evolução”: isto eliminaria a diferença entre nós e os anjos, o que, aliás, certas correntes espíritas proclamam: para eles, anjos e demônios não seriam mais do que almas humanas em diferentes estágios de evolução. Não é esta a fé católica, simplesmente porque isto não corresponde aos fatos. Eu escrevi bastante sobre isso no livro “Cartas a Probo”, da Editora ComDeus, no qual faço um longo debate sobre as diferenças entre certas correntes espíritas e a verdadeira fé católica. Não é o caso, então, de alongar o assunto aqui.

Mas veremos mais sobre isto ao longo do artigo. Examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Como vimos nos textos anteriores, os anjos são naturalmente diferentes entre si: cada um tem um grau de inteligência e uma força da vontade que é diferente de todos os outros. Assim, há uma hierarquia do ser que separa os anjos por suas diferenças naturais. Mas esta diferença natural não existe entre os seres humanos, pelo menos não quanto a seu espírito. Somos, todos os seres humanos, perfeitamente iguais em inteligência e vontade, embora a estrutura do nosso corpo, que nos individualiza, inclusive com a marca do pecado, não nos permita expressar igualmente, na prática, essa igualdade essencial. Mas somos essencialmente iguais, todos os seres humanos. Após a nossa morte biológica, essa igualdade se exprime ainda melhor, porque já não há as diferenças corporais que a ocultam nesta vida.

Assim, se as ordens dos anjos fossem formadas somente com respeito às diferenças naturais entre os espíritos, não seria possível imaginar que os seres humanos, após a morte biológica, pudessem se dividir entre as várias ordens de anjos. Na verdade, nosso espírito sobrevivente não estaria à altura sequer da menor das ordens dos anjos, porque qualquer anjo, por menor que seja, é dotado de capacidades que superam muito as humanas. Então, se considerássemos apenas a natureza, não haveria sentido nas palavras de Jesus, quando nos assegura que, na vida eterna, seremos como os anjos do céu (Mt 22, 30).

Mas as palavras de Jesus encontram seu sentido no fato de que não é somente em razão das capacidades naturais que as ordens de anjos são formadas; elas também são formadas em razão da graça concedida por Deus e acolhida pelas criaturas para que possam realizar sua vontade e desempenhar as funções às quais são chamados. De acordo com o § 1996 do Catecismo da Igreja Católica, “a graça é o favor, o socorro gratuito que Deus nos dá, a fim de respondermos ao seu chamamento para nos tornarmos filhos de Deus (João 1, 12-18.) filhos adotivos (Romanos 8, 14-17.) participantes da natureza divina (2 Pedro 1, 3-4) e da vida eterna (João 17, 3)”.

A graça atua sobre a natureza como a forma atua sobre a matéria, de tal modo que, mesmo de uma matéria menos nobre como a natureza humana, Deus possa formar filhos seus tão perfeitos, tão santos, quanto os anjos mais elevados. É assim que podemos, por exemplo, acreditar que Maria Santíssima, Nossa Senhora, que foi chamada pelo anjo de “kecharitomene” (plena de graça, Lucas 1, 28) tenha recebido e acolhido uma graça tão plena, tão alta e tão santificante que lhe elevou acima dos anjos, e lhe fez rainha deles, como Mãe de Deus que ela é (Lucas 1, 43). É neste sentido, no sentido da graça que se recebe e que se acolhe, que os seres humanos (que alcançam a felicidade da glória eterna) são elevados à dignidade das ordens dos anjos, por atingirem alturas, no amor de Deus, que correspondem àquelas ocupadas pelos anjos em suas respectivas ordens. É neste sentido que, por exemplo, São Francisco de Assis é chamado de “seráfico” pelos filhos de sua ordem religiosa, que reconhecem, nos seus estigmas e na sua vida de intensa resposta à graça, que sua alma arde de amor por Deus no grau dos Serafins.

Há teólogos que defenderam, ao longo da história da Igreja, que, dentre os que se salvam, apenas aqueles que viveram de modo especial os conselhos evangélicos da pobreza, da castidade e da obediência, por uma vida religiosa professa, é que alcançarão a dignidade de ser transferidos às ordens angélicas. Esta opinião prevaleceu em alguns ambientes eclesiais, distinguindo, então, entre duas classes de seres humanos no |reino dos Céus: os religiosos professos, pertencentes a institutos e ordens religiosas eclesiais, (padres, freiras, monges, consagrados em geral) que integrariam as ordens dos anjos, e os outros fiéis, que, mesmo que alcançassem a glória, estariam relegados a uma posição passiva, alheia à atividade dos anjos. Seriam como uma “segunda categoria” inferior de membros do reino de Deus.

Mas Tomás não se alia a esses “elitistas do Reino de Deus”. Ele sabe que o chamado à santidade é universal, como a Igreja veio a declarar expressamente setecentos anos após a morte de Tomás, na Lumen Gentium (Vaticano II), nº 41: “Nos vários gêneros e ocupações da vida, é sempre a mesma a santidade que é cultivada por aqueles que são conduzidos pelo Espírito de Deus e, obedientes à voz do Pai, adorando em espírito e verdade a Deus Pai, seguem a Cristo pobre, humilde, e levando a cruz, a fim de merecerem ser participantes da Sua glória. Cada um, segundo os próprios dons e funções, deve progredir sem desfalecimentos pelo caminho da fé viva, que estimula a esperança e que atua pela caridade”. E Tomás nos lembra que Santo Agostinho, na obra “Cidade de Deus”, já ensinava que “não haverá duas sociedades no Reino dos Céus, mas apenas uma, porque a bem-aventurança de todos, ali, consiste em aderir ao Deus uno”. Todos os que alcançam a santidade, sejam santos anjos, sejam santos humanos, pertencem ao mesmo e único Reino, e estão engajados nas mesmas fileiras do serviço a Deus. É a plenitude da comunhão dos santos na Igreja triunfante.

3. Encerrando.

Nascemos e morremos como seres biológicos com uma estrutura espiritual. Esta estrutura sobrevive precariamente à morte biológica, e é recebida no Reino dos Céus conforme a altura da graça que recebeu e viveu (“na casa de meu Pai há muitas moradas…” João 14, 2), e inserida numa das ordens angélicas. Não se transforma em anjo: permanece como uma alma humana incompleta à espera da ressurreição final, corporal. Anjos permanecerão eternamente imateriais, porque são essencialmente imateriais. A diferença é que, por serem essencialmente imateriais, os anjos têm poder sobre toda a matéria, à qual são intrinsecamente superiores. Por isso, podem agir sobre a história, intervir nos fatos, interagir com os viventes. Nós, humanos, somente temos poder espiritual sobre a matéria que constitui nosso próprio corpo, e ainda assim é um poder limitado, no atual estágio, pelas operações biológicas naturais, que não estão sob nosso controle, como o bater do coração.

No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.