1. Introdução.

O assunto aqui tem a ver com dois versículos do Evangelho de Mateus; especificamente Mateus 22, 30 (“Com efeito, na Ressurreição nem eles se casam nem elas se dão em casamento, mas são todos como os anjos do céu”), e Mateus 25, 41 (“Em seguida, dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘apartai-vos de mim,malditos, para o fogo eterno preparado para o Diabo e para os seus anjos’”).

Nestes dois versículos, alguns parecem entender que, depois de mortos, nós nos transformamos em verdadeiros anjos, e os salvos passam a compor as ordens dos Espíritos celestes, enquanto os réprobos tornam-se demônios e caem no abismo.

Com isso, muita gente acha que nós viramos anjos, depois de mortos. Quando morre uma criança, por exemplo, não é incomum ouvir, principalmente entre os mais velhos: “olha, mais um anjinho no céu”. Isto não é verdade. Não pode ser. Entre humanos e anjos há um abismo de espécies, intransponível. Seres humanos são seres humanos eternamente. Anjos são anjos, eternamente. Demônios são anjos que caíram.

Por um lado, é neste último artigo que esta questão encontra sua resposta final: qual o interesse, para nós, em estudar a hierarquia dos anjos?

A resposta é que isto não interessa apenas como uma analogia à hierarquia humana, mas também como uma pista sobre como viveremos no Reino, após a morte, a partir do ensinamento de Jesus.

Vamos ao artigo.

2. A hipótese polêmica inicial.

A hipótese controvertida inicial, para provocar o debate, é a de que não é verdade que, depois do juízo pessoal, ou seja, após a morte, nós seríamos incorporados às ordens dos anjos, isto é, incorporados à ordem da hierarquia celeste, conforme nossos méritos e a graça que recebemos. A morte não teria o efeito de nos fazer entrar nessa ordem celeste, diz a hipótese. Há três argumentos objetores que tentam comprová-lo. Vamos examiná-los.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor lembra que nós, seres humanos, somos inferiores mesmo com relação a mais baixa das categorias dos anjos, isto é, todas as hierarquias humanas estão abaixo do último grau da hierarquia dos anjos, que, por sua vez, está abaixo das outras ordens de anjos. Ora, nenhum anjo de uma ordem inferior jamais passará a uma ordem superior; não existe algo como a “evolução dos anjos”: se eles estão em alguma ordem, permanecerão ali para sempre, sem subir de ordem jamais. Assim, se os anjos não podem subir de grau, tampouco nós, humanos, poderíamos subir de grau, para vir a ser admitidos em alguma ordem que está composta por anjos. Portanto, mesmo após a morte, nenhum ser humano será admitido nas ordens angélicas, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Os anjos têm certas capacidades e funções que envolvem a intervenção direta na ordem existencial do mundo material, como a proteção, a realização de milagres, o afastamento dos demônios e outras, que envolvem efetivamente interagir e modificar o mundo material. Ora, as almas dos remidos não têm essa capacidade naturalmente: aqueles seres humanos que já morreram, mesmo gozando da glória divina, não têm os meios para intervir mais no mundo material, estão fora da possibilidade de interferir diretamente no curso da história. Ora, se é assim, então eles não poderiam ser associados às ordens existentes entre os anjos, simplesmente porque não têm as capacidades necessárias para realizar as respectivas funções, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento objetor caminha no mesmo sentido do segundo: lembra que os anjos efetivamente conduzem-nos ao bem, e os demônios, por outro lado, nos conduzem ao mal. Ora, prossegue o argumento, São João Crisóstomo, em seu Comentário ao Evangelho de Mateus, ensina que é errado acreditar que os seres humanos que morrem na reprovação sejam transformados em demônios. Assim, também seria errôneo admitir que os seres humanos que alcançaram a glória sejam transformados em anjos, ingressando em suas ordens, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

Já sabemos que a hipótese controvertida inicial não está certa; ela existe apenas para induzir ao debate. Já sabemos também que os argumentos objetores iniciais são sempre unilaterais, redutores e muitas vezes errôneos, e que serão devidamente corrigidos por Tomás, ao final de cada artigo. E sabemos, também, que, no início de cada artigo, ele coloca um argumento contrário à hipótese inicial, que demonstra que ela não pode ser simplesmente aceita sem debate, porque há algo, alguma razão forte, que demonstra que ela não pode estar integralmente correta. Este argumento, chamado sed contra, também não é necessariamente um argumento verdadeiro, e às vezes será também corrigido ou complementado por Tomás. Mas ele é como a antítese à tese inicial, que nos levará à síntese final.

Aqui, o argumento sed contra simplesmente lembra que é um ensinamento expresso do próprio Jesus, palavras que ele próprio pronunciou, e que nos revelam que os seres humanos, após a morte, “serão como os anjos de Deus no céu” (Mt 22, 30). Parece claro, portanto, que seremos, após a morte, admitidos nas ordens dos anjos, conclui o argumento.

5. Encerrando.

É claro que há uma analogia entre a hierarquia dos anjos e as hierarquias sociais e políticas dos seres humanos, já vimos isto nos outros artigos. Mas o interesse, aqui, ultrapassa essa dimensão analógica.

Isso tem, de fato, a ver com aqueles dois versículos bíblicos citados na introdução deste texto: o nosso destino final, após a morte, segue o dos anjos. Os que se salvam serão admitidos no reino celeste, associados, conforme o grau de sua santidade, às respectivas ordens dos anjos – sem que se tornem, por isso, anjos. E os réprobos irão para o abismo, isto é, para a ausência do amor de Deus, para aquele reino do mal que não foi preparado para nós, mas para o Diabo e seus anjos. Mas nem por isso viram demônios.

Por fim, devemos notar que, após a morte, não há evoluções nem mudanças de estado: as grandes escolhas são feitas aqui, em vida. Lá, ficaremos no lugar que merecemos. É o que nos ensina Lucas 16, 26: “entre nós e vós existe um grande abismo, a fim de que aqueles que quisessem passar daqui para junto de vós não o possam, nm tampouco atravessem de lá até nós”.

No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás.