- Voltando para fechar.
A hierarquia do ser não é uma decorrência do pecado; é parte da própria natureza dos anjos. Além disso, a diferença na graça, na resposta à graça, é parte da relação pessoal com Deus: a liberdade de Deus implica que ele possa conceder a graça na medida que quiser; a liberdade das criaturas inteligentes pressupõe que elas possam responder à graça recebida de modo diferente, pessoal.
Assim, mesmo após o fim do regime instituído pela queda, a hierarquia persiste. A hierarquia do ser não é algo opressor, mas parte da relação querida por Deus. As perfeições infinitas de Deus são refletidas em cada grau da existência. Isto difere severamente da ideia evolucionista, que deveria levar todos os seres da incompletude à plenitude, de modo que, ao final, já não haveria nem diversidade, nem hierarquia, mas apenas a unidade na plenitude. Assim, para os evolucionistas (cuja visão é muito diferente da de Tomás), toda diferença é uma marca de imperfeição a ser superada. Para Tomás, há diferenças que decorrem, sim, do pecado, como é o caso das diferenças que resultam da violência e da opressão. Mas há outras que decorrem da riqueza mesma da criação, que deve refletir a riqueza de Deus. Por isso, haverá hierarquia entre os anjos, como haverá hierarquia entre os seres humanos santos ressuscitados, sem que isto seja fonte de inveja, de opressão nem de tentativas de superação.
Mas deixemos de nos alongar, e demos a palavra a Tomás. Passemos, agora, a examinar, a partir dos elementos que ele colocou em sua resposta sintetizadora, os argumentos objetores iniciais.
- Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que São Paulo, em 1 Coríntios 15, 24, diz que no fim dos tempos, Jesus Cristo entregará o Reino a Deus Pai, destruindo todo principado, toda Potestade, toda Autoridade. Assim, uma vez que estes são os nomes das ordens angélicas, as Escrituras indicam que elas serão suprimidas após o juízo final, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
É preciso interpretar bem as Escrituras: o que se pode entender deste trecho não é simplesmente a supressão da própria organização dos anjos, nem mesmo a supressão de alguma ordem dos Espíritos celestes, mas que já não haverá, para essas ordens, a missão de conduzir a Igreja militante até Deus, porque já não haverá Igreja militante nem padecente, mas apenas a Igreja triunfante, quando todos os seres humanos salvos serão entregue a Deus por Jesus para que usufruam eternamente das bem-aventuranças. É este o sentido do versículo bíblico, quando atesta que Jesus “entregará o Reino ao Pai”.
O segundo argumento objetor.
As ordens angélicas têm por funções essenciais aquelas de purificar quanto àquilo que é desordenado, iluminar quanto à graça e aperfeiçoar no bem. Ora, depois do Juízo Final, com a consumação dos tempos e o advento de novos céus e nova Terra (Ap 21, 1), todos estarão isentos de desordem, plenos de graça e do conhecimento de Deus. Logo, já não haverá nada para purificar, nem para iluminar ou aperfeiçoar. Assim, já não haverá necessidade das ordens de anjos, e portanto elas já não existirão, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Tomás vai usar uma analogia entre o modo pelo qual os anjos conhecem, por um lado, e o modo pelo qual nós, humanos, raciocinamos, por outro.
Devemos lembrar que anjos não aprendem por raciocínio; eles sabem aquilo que é compatível com sua natureza e são iluminados pelos mais elevados quanto àquilo que supera sua natureza.
Nós, seres humanos, aprendemos por raciocínio: a partir de dados conhecidos, podemos chegar, por indução ou por dedução, a alcançar conhecimentos certos que antes não tínhamos. Ora, se, mesmo depois de alcançar um conhecimento que não tínhamos, nós esquecemos o raciocínio pelo qual chegamos àquele conhecimento, ou mesmo descobrimos que não raciocinamos adequadamente, e aquele elemento intermediário que tínhamos usado para alcançar a certeza da conclusão já não é válido para nós, a conclusão também já não é válida. Podemos até continuar a conhecer a conclusão, mas ela não tem mais a certeza de um conhecimento científico, mas é apenas uma opinião ou palpite.
De maneira análoga, quando um anjo menos elevado tem algum conhecimento certo, que ultrapassa sua capacidade natural, e que recebeu ao ser iluminado por um anjo mais elevado, ele depende de que esse anjo continue a iluminá-lo,para que continue a ter como certo esse conhecimento recebido. Portanto, os anjos continuarão a precisar das ordens angélicas para que o conhecimento dado por iluminação, dos anjos mais elevados aos mais simples, seja adequadamente mantido, mesmo na consumação final dos tempos. Essa relação entre iluminadores e iluminados seria análoga à relação entre as premissas e as conclusões, no raciocínio humano. Disso podemos concluir que nem todas as funções dos anjos serão eliminadas após o juízo final.
O terceiro argumento objetor.
A Carta aos Hebreus 1, 14, ensina, a respeito dos anjos, que “são, todos eles, espíritos servidores, enviados ao serviço dos que devem herdar a salvação”. Ora, portanto, todas as funções dos anjos se limitam, afinal, àquela de conduzir os eleitos à salvação. Mas, depois do juízo final, com o advento da consumação dos tempos, já não haverá mais este serviço, porque já não haverá ninguém a ser conduzido à salvação: os eleitos já estarão salvos e os réprobos estarão perdidos para sempre. Assim, já não haverá função para os anjos depois do juízo final, e portanto tampouco haverá mais as ordens de anjos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Aqui, mais uma vez, há uma interpretação equivocada das Escrituras. Os anjos, embora de fato sejam enviados para a nossa salvação, não esgotam sua razão de ser nessa missão: mesmo após a consumação dos tempos, eles terão suas funções, como aquela de iluminar os eleitos ressuscitados na glória, por exemplo, para o conhecimento daquilo que ultrapassa a capacidade natural do nosso intelecto. Portanto, não se pode dizer que eles esgotam suas funções na plenitude dos tempos, conclui Tomás.
3. Concluindo.
Qualquer um de nós perceberá quão justo é que santos como Nossa Senhora estejam acima de nós na hierarquia do ser, e isso nos alegrará, se estivermos entre os santos. A felicidade consistirá justamente em estar no seu lugar próprio, gozando da plenitude da felicidade que nos compete. Por isso, nem todas as funções dos anjos se extinguirão quando vier a plenitude dos tempos: como um exército em tempos de paz, eles serão responsáveis pelo zelo da felicidade, por meio da iluminação das mentes, num mundo renascido na plenitude do amor.
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