- Retomando.
Novos céus e nova terra. Alguém me disse, uma vez, que há, na Bíblia, dois capítulos em que o Reino dos Céus não está maculado pelo pecado e tudo ocorre na conformidade da santidade de Deus: os dois primeiros capítulos do Livro do Gênesis e os dois últimos capítulos do Apocalipse. Uma bela simetria.
O problema que está sendo debatido, aqui, é o de saber se o ministério dos anjos na criação material só existe por causa do pecado, ou se ele envolve a própria condução de um universo santificado, restaurado na plenitude do bem. Vimos, no último texto, a hipótese polêmica de que já não haverá função para os anjos no universo restaurado, e que, portanto, as ordens angélicas não existirão.
Mas não é essa a opinião de Tomás. Veremos agora sua resposta sintetizadora.
- A resposta sintetizadora de Tomás.
Há dois aspectos que devemos considerar neste debate, diz Tomás: há as diferenças de capacidade entre os anjos, porque cada anjo é único, tem seu próprio grau de intelecção e seu próprio poder de vontade; e, por outro lado, as diferenças em suas funções, naquilo que é seu serviço quanto ao governo do universo material por Deus. Examinemos, então, essas duas dimensões, que são fontes de diferenças entre os anjos e permitem sua classificação em ordens hierárquicas:
- Quanto à diferença de natureza entre os anjos, bem como as diferenças na ordem da graça, isto é, nas suas capacidades naturais e no amor derramado neles por Deus e na respectiva resposta a esse amor, essas diferenças sempre existirão. A natureza das criaturas é essencialmente boa pelo próprio fato da criação, ou seja, por serem criaturas de Deus. Assim, o juízo final e a restauração de todas as coisas não apagará nem a natureza, nem a graça. As diferenças nestes dois campos continuarão existindo.
- Mas certamente o modo de gestão do universo, após o juízo final e a restauração de todas as coisas em Deus, mudará. Já não haverá mais a tarefa de salvação: os bons estarão na glória, os maus na perdição eterna. Portanto, as funções de governo da criação permanecerão, mas outras funções, relacionadas com a presença do pecado no mundo e a necessidade de salvação das criaturas, cessarão.
Podemos dizer, então, que, no universo restaurado da glória, a hierarquia entre os anjos não desaparecerá: eles continuarão sendo diferentes em capacidade natural e em resposta ao amor, ou seja, na ordem da graça. Mas as funções dos anjos, que determinam sua classificação em ordens, certamente sofrerão profundas mudanças: as funções de governo do Reino permanecerão, mas aquelas funções relacionadas com a necessidade de salvação das criaturas a caminho já não existirão.
3. Encerrando.
Tomás nos presenteia, aqui, com uma bela metáfora, mais uma vez relacionando as ordens dos anjos com a organização de um exército. De fato, diz Tomás, as funções militares são diferentes em tempo de paz daquelas que existem em tempos de guerra, mas certamente há funções militares próprias também para os tempos de paz.
De certo modo, a atuação dos anjos em nosso mundo decaído é uma guerra espiritual. Mas no Reino restaurado dos últimos tempos haverá a paz completa, perfeita, do amor de Deus. Ali, as funções dos anjos subsistirão, mas também transformadas em missão de paz.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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