- Introdução.
Já não estamos acostumados a pensar no evento “juízo final” como um evento certo, algo que acontecerá e consumará a caminhada do nosso universo decaído pelo pecado original, levando-o à perfeição final – que ainda será uma perfeição criatural, mas não mais provisória nem sujeita a pecado. Isto está muito bem documentado na Bíblia, em especial na Carta aos Romanos 8, 19-23 e nos dois últimos capítulos do Livro das Revelações (Apocalipse de São João). Não é um relato mítico, mas uma ocorrência certa, da qual não sabemos nem podemos saber o tempo (Mc 13, 32).
Aliás, no encerramento do nosso último texto já registramos que o estudo da hierarquia dos anjos seria muito importante para nos guiar quanto às estruturas que determinam o próprio governo humano, nossa organização social, política e religiosa. Sabemos que ela está longe desses ideais, mas sem eles nós perdemos o rumo. E é fato que, após o juízo final, já não haverá mais o pecado.
Mas a criação continuará existindo, de algum modo maravilhoso, transfigurado, do qual a ressurreição de Jesus foi o proêmio, como diz São Paulo em 1 Coríntios 2, 9.
Como se organizarão os anjos, naquela oportunidade? Em suma, será que as funções atribuídas aos anjos decorrem somente da desordem resultante do pecado, ou será que continuarão com encargos, depois da restauração de tudo? Em qual grau a hierarquia, a ordem, as funções, a gestão da criação, estão ligadas ao universo decaído e desaparecerão no redimido? É o assunto que enfrentaremos agora.
- A hipótese controvertida inicial.
A hipótese controvertida inicial, para levantar a polêmica e provocar o debate, propõe que já não haverá a necessidade de que os espíritos angélicos tenham alguma função, depois do juízo final. Curado o universo, restabelecida a ordem plena e divina, já não haveria função para os anjos, e eles deixariam de ser agrupados em ordens. Assim, depois do Juízo, com o estabelecimento final daquilo que o Apocalipse chama de novos céus e nova Terra (Ap 21, 1) , já não subsistiriam as ordens dos anjos, propõe a hipótese. Há três argumentos objetores no sentido desta hipótese, que passaremos a examinar.
- Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que, em 1 Coríntios 15, 24, São Paulo nos ensina que Cristo destruirá, no fim, todo Principado, toda autoridade, toda Potestade, quando entregará o reino ao Pai. Ora, isto acontecerá após o juízo final, ou seja, na consumação dos tempos. Uma vez que o versículo citado, diz o argumento, menciona a destruição de ordens angélicas, fica claro que a consumação dos tempos implicará a supressão de todas as ordens de Espíritos celestes, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
A função essencial das ordens angélicas é a de purificação, iluminação e aperfeiçoamento. Ora, com a consumação dos tempos e o juízo final, já não haverá mais essa atividade de purificação, iluminação e aperfeiçoamento, porque já não haverá mais nenhum avanço ou aperfeiçoamento, nem purificação: os maus serão punidos, os bons, premiados e tudo permanecerá eternamente como é. Nem anjos, nem seres humanos, progredirão mais em pureza, ciência e perfeição. Então, já não haveria razão para que as ordens angélicas permanecessem, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Na Carta aos Hebreus (1, 14), as Escrituras nos ensinam, a respeito dos anjos, que “todos eles são espíritos servidores, enviados ao serviço dos que devem herdar a salvação”. Ora, diz o argumento, parece muito claro que as funções dos anjos consistem basicamente em conduzir os seres humanos à salvação. Mas a salvação será obtida até o juízo final; após a consumação dos tempos, seus eleitos já estarão salvos e os réprobos, perdidos. Logo, já não haverá função, e portanto não haverá mais ordens de anjos, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra cita um versículo das Escrituras, Juízos 5, 20: as estrelas lutaram, mas permaneceram em seus caminhos”. Ora, a interpretação lê, neste versículo, uma alusão aos anjos, que, portanto, mesmo após a luta, permanecerão sempre nos seus rumos. Logo, há fundamento bíblico para dizer que, mesmo após o juízo final, com a consumação dos tempos, os anjos permanecerão em suas funções, e as respectivas ordens continuarão a existir.
5. Encerrando.
Não é por causa do pecado, não é apenas em vista da salvação que há uma hierarquia, que há um governo, que há ordem e liderança no universo. Esta discussão, que agora se trava, quer justamente nos mostrar que a ordem, a hierarquia, a dinâmica do governo do universo, permanecerão, mesmo quando o pecado já não se fizer sentir entre os eleitos.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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