1. De volta.

Estamos contemplando, ao longo desta questão da Suma, uma visão a respeito do Universo – não um universo rochoso, uniforme e indiferente, impessoal e rígido, neutro ao valor, mas um universo governado por forças pessoais livres, que se conduzem para o bem porque podem conhecê-lo, amá-lo e buscá-lo por um movimento de vontade interior. Muito diferente da cosmologia impessoal e mecânica da nossa contemporaneidade.

Outro ponto muito interessante é perceber a força da graça, que está com aqueles que caminham no bem e na santidade: Satanás, o Diabo, o Grande Dragão, que era originalmente uma natureza espiritual muito elevada, muito poderosa, segundo a narração do Livro de Apocalipse (12, 7-12) é derrotado por São Miguel, que é apenas um arcanjo, isto é, seria algo equivalente a um mero praça, com a patente de cabo, derrotar o general do exército inimigo.
Esta estrutura hierárquica não é evolutiva nem competitiva: cada espírito, na santidade, sabe o seu lugar e sabe-se perfeitamente feliz nele, e não almeja algum lugar mais elevado do que aquele que lhe pertence pela natureza e pela graça. Não há competição nem evolução no céu, mas ordem e felicidade de reconhecer-se e reconhecer o grande amor de Deus.

Por fim, antes de voltar ao texto de Tomás, é interessante pensar não somente que a hierarquia do céu é uma espécie de analogia para a organização social humana – que ela é, de fato, mas guardadas as devidas proporções, já que não existe nenhuma diferença de natureza entre os seres humanos como há entre os anjos – mas ela também revela que a nossa própria santidade implicará que, após a nossa morte biológica, ingressaremos nessa hierarquia, conforme a graça com que tivermos vivido a nossa vida humana (Mt 22, 30). Poderemos estar no lugar dos anjos ou dos arcanjos, o que já seria grande felicidade; mas poderíamos até chegar ao grau de querubins ou serafins, como se acredita que São Francisco chegou; podemos acreditar que Nossa Senhora tenha adotado o posto de Rainha dos Anjos, vago desde a rebelião de Lúcifer (Isaías 14, 12), tornando o céu uma verdadeira casa materna para os humanos redimidos.
Mas a digressão já se alonga. Voltemos ao texto do artigo.

2. Prosseguindo na resposta sintetizadora de Tomás.

Vimos que a classificação de São Gregório, quanto à hierarquia entre as ordens dos Espíritos celestes, difere daquela do Pseudo-Dionísio apenas no segundo e terceiro graus da hierarquia. No primeiro grau ambos concordam em colocar os Serafins, os Querubins e os Tronos. Isto significa que eles concordam que a ordem básica do governo do universo estabelece uma hierarquia fundamental que põe, em primeiro lugar, as chamas do amor divino, e apenas em segundo lugar o conhecimento de Deus. O terceiro lugar está para o exercício de seu poder governamental. Este é o sentido de dizer que os Serafins são os mais altos, e em seguida vêm os Querubins e os Tronos. Até aí concordam os maiores teólogos, e isto é uma herança maravilhosa que perdemos: depois de Descartes o conhecimento assumiu o primeiro lugar (pensar é fundamento de existir), deslocando o amor. E depois de Machiavelli o puro poder passou a ser o fundamento de qualquer governo, e alcançá-lo e mantê-lo, o único objetivo de qualquer estrutura de governo. Quão distantes estamos da visão medieval tão bela! Em vez de colocar uma hierarquia composta por amor, conhecimento e poder, nessa ordem, como defendiam os antigos pensadores cristãos, temos hoje uma hierarquia composta de poder e conhecimento, nessa ordem, com o amor ficando quase banido, relegado às esferas privada e sexual. 

As diferenças entre o Pseudo-Dionísio e São Gregório estão em duas ordens apenas: as virtudes e os principados. Dionísio, seguindo Efésios 1, 21 em ordem inversa, coloca a segunda hierarquia como “Dominações, Virtudes e Potestades”, nesta ordem. A terceira hierarquia seria “Principados, Arcanjos e Anjos”. 

São Gregório segue, porém, Colossenses 1, 16, em ordem decrescente, e coloca na segunda hierarquia as Dominações, os Principados e as Potestades, ao tempo que as Virtudes estão na última e mais baixa hierarquia, acima apenas dos Arcanjos e dos simples Anjos

Tomás reconhece que estamos num campo difícil, e não toma posição. Ambas as classificações reclamam fundamento bíblico, e cada uma tem um sentido diferente, mas ambas são válidas de algum modo, e podem ser defendidas segundo algum ponto de vista. Já vimos as justificações que Tomás deu para a classificação do Pseudo-Dionísio, no último texto. Interessa saber, agora, quais as explicações que Tomás dá sobre a classificação de São Gregório, e como justifica esta inversão entre os Principados e as Virtudes.  

A classificação de São Gregório, diz Tomás, também é bastante coerente e congruente. De fato, quanto ao primeiro grau, há uma concordância plena quanto à hierarquia amor-conhecimento-poder. As diferenças estão nos dois graus inferiores, e refletem uma diferença de ponto de vista na classificação.

De fato, diz Tomás, o segundo grau da hierarquia se inicia com o grau das Dominações, que são responsáveis pela definição e pela regulação de todas as hierarquias que estão abaixo delas. São o grau mais alto daqueles Espíritos que olham para a criação a partir da visão universal do governo, abaixo apenas da primeira hierarquia que é a própria Corte real. 

Assim, a segunda e a terceira hierarquia são, efetivamente, a execução do governo, o eixo entre Deus e a criação. As Dominações, como mais altos da hierarquia intermediária, possuem a visão mais ampla, definem as estratégias e estabelecem os padrões e normas da condução do universo. Nisto concordam também o Pseudo-Dionísio e São Gregório.

Mas, para explicar o sistema de São Gregório, Tomás cita Santo Agostinho, que nos ensina que o mundo material, ou seja, a criação corpórea, é regida a partir de certa ordem: os corpos inferiores, que são inanimados, existem e são regidos pelos superiores, que são os corpos vivos, e estes são regidos pelas criaturas corporais inteligentes, que somos nós, humanos; nós todos, criaturas corporais inanimadas, animadas ou racionais, somos regidos pelos Espíritos celestes, que nos são superiores. Dentre os Espíritos celestes, os Santos Espíritos devem dominar e reger os maus espíritos, que são os demônios. Este é o ensinamento de Santo Agostinho.

Assim, a partir dessa ordem de governo, podemos dizer que, logo abaixo das Dominações, segundo São Gregório, vêm os Principados, que regem os bons e os maus Espíritos, de modo a garantir a harmonia no mundo espiritual. Abaixo dos Principados, diz São Gregório, estão as Potestades, cuja missão específica é a de submeter os maus Espíritos, mantendo-os dentro da ordem do governo divino. São inferiores aos Principados porque não estão encarregados dos bons Espíritos, mas apenas dos maus. São como uma “polícia espiritual” que vigia e submete os malfeitores.

Em seguida vem o grau inferior da hierarquia, que, para São Gregório, é constituída pelas Virtudes (que têm pleno poder sobre a natureza dos seres materiais, e por eles se realizam os milagres que mudam a ordem natural; assim, teriam sido as Virtudes, por exemplo, a acalmar a tempestade no episódio narrado nos Evangelhos, como em Marcos 4, 39 e nos trechos paralelos de Lucas e Mateus).

Por fim, nessa hierarquia inferior, vêm os Arcanjos e Anjos, que lidam diretamente conosco e com os seres materiais individuais. Eles cuidam de nos guiar não somente nas questões de fé, que superam nossa razão sem contradizê-la, mas até nos aspectos puramente naturais de nossa vida. Aqui também há concordância entre São Gregório e Dionísio.

3. O primeiro argumento objetor e sua resposta.

O primeiro argumento objetor.

Talvez aqui, nos argumentos objetores, seja mais nítida a recíproca influência da organização dos Espíritos celestes na gestão do universo e sua analogia com a ordem humana. 

Este primeiro argumento, por exemplo, quer defender que a segunda hierarquia, que cuida diretamente da execução do governo e exerce o poder sobre todas as coisas materiais, deveria estar acima da primeira hierarquia, que tem como encargo lidar com o amor, com o conhecimento e com o poder de Deus; seria, então, uma espécie de laicidade universal: os Espíritos denominados de Dominações, Principados e Potestades têm nomes que implicam superioridade sobre todas as coisas. Portanto, deveriam ser considerados como mais elevados do que aqueles outros cujos nomes significam coisas abstratas e pouco úteis na prática, como os Serafins que ardem de amor, ou os Querubins que se deliciam no conhecimento divino, ou ainda os Tronos, que estruturam a corte celeste. Portanto, diz o argumento, aquela hierarquia que é composta por Dominações, Principados e Potestades deve ser considerada como a suprema, conclui. 

A resposta de Tomás.

Tomás defende a ideia de que ocupar-se com o amor, o conhecimento e o poder de Deus é algo mais nobre e elevado do que exercer poder sobre toda a Criação – algo que nossa contemporaneidade precisa redescobrir.  Assim, aquele grau da hierarquia que se volta para o próprio Deus, para o seu amor e conhecimento, para o seu louvor e adoração, é necessariamente mais elevado do que aqueles graus que se ocupam da atividade de gerir o universo. É por isso que os Serafins, os Querubins e os Tronos são considerados como o grau mais alto da hierarquia celeste.

4. Encerrando.

Uma das propostas do nosso trabalho é a de não deixar nenhuma parte da Suma sem uma visita, sem uma palavra de tentativa de compreensão, sem uma busca de sentido. Isto torna os textos um pouco longos às vezes, como é o caso deste artigo. 

Deixaremos, pois, para o próximo artigo a análise dos três últimos argumentos objetores.