1. Retomando.
Muitas vezes não é fácil escrever sobre o tema dos anjos, hoje em dia. Confesso que preciso de muita oração para enfrentar aquilo que me parece, num olhar superficial, apenas preciosismos medievais pouco esclarecidos sobre um mundo invisível e fantasmagórico que não tem nenhuma importância real. Mas sempre que me aprofundo um pouco na oração vejo as coisas de um modo diferente.
Tomás de Aquino nunca foi crédulo nem bobo. Nunca deixou de ter acesso ao melhor do mundo acadêmico, nunca deixou de ter uma vida intensa de oração, nunca se afastou da busca mais insistente da santidade, nunca deixou de demonstrar agudo senso prático, em sua vida e em seus escritos. Nunca temeu o novo, nunca desrespeitou os antigos. Neste sentido, devemos sempre presumir que aquilo a que ele deu importância era importante de fato, mas de uma importância que nos escapa, talvez porque nossa mente moderna tenha sido treinada a desprezar as coisas realmente importantes. Talvez o limite seja nosso, não dele. Se eu for capaz de olhar Tomás com os olhos adequados, que refletem a minha humildade perante a grandeza dele, terei muito a aprender, e talvez eu descubra que a sua insistência em temas como, por exemplo, a organização dos anjos, que parecem perfeitamente irrelevantes a nós, sejam tesouros a redescobrir, num momento em que nosso próprio mundo parece caótico. É uma ordem que talvez tenha muito a ensinar à nossa própria falta de ordem – e verdadeira repugnância que fomos ensinados a ter a todo tipo de ordem. Como doentes que foram treinados a ter repugnância justamente aos remédios.
Mas estamos nos alongando. Vamos examinar a resposta sintetizadora de Tomás quanto à organização dos anjos em suas tarefas de reger o universo.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Os grandes sistemas de classificação do Pseudo-Dionísio e de São Gregório.
Tomás sabe que há dois grandes sistemas de classificação dos anjos em suas hierarquias e ordens, o sistema do Pseudo-Dionísio, que está mais interessado na graduação de perfeição e, apenas em segundo lugar, nas funções que os anjos exercem. Aqui, a função decorre do grau de perfeição, e não o contrário. O outro sistema é o de São Gregório Magno, que coloca as funções como mais importantes e, em segundo lugar, a hierarquia de perfeição, de modo que, na mesma ordem, anjos de diversos graus de perfeição podem estar reunidos sob a mesma função.
De modo geral, os dois sistemas coincidem, dividindo os anjos em três grandes hierarquias: a primeira e mais elevada, daquelas cujo conhecimento e amor está diretamente ligado a Deus, e que podem ver a razão de todas as coisas em Deus mesmo. Hoje, diríamos que seriam como que os Espíritos teólogos, porque seu conhecimento sempre é referido a Deus e eles podem ver as razões das coisas em Deus. Neste primeiro grau estão os Serafins, que ardem de amor por Deus, os Querubins, que conhecem intimamente os segredos de Deus, e os Tronos, que alicerçam o poder de Deus sobre o universo criado. O primeiro grau da hierarquia, tanto para o Pseudo-Dionísio quanto para Gregório, sera assim:
1. Serafins, grau mais alto.
2. Querubins, segundo grau mais alto.
3. Tronos, grau inferior da primeira hierarquia celeste.
No segundo grau da hierarquia encontram-se aqueles Espíritos que são capazes de ver sempre as razões universais das coisas. Usando da analogia com as ciências dos seres humanos, diríamos que estes são os anjos filósofos, que penetram profundamente nas razões das coisas criadas pela contemplação do próprio universo. Aqui há uma divergência entre o Pseudo-Dionísio e São Gregório. O Pseudo-Dionísio, ao classificar os Espíritos do segundo grau da hierarquia, segue a enumeração que São Paulo faz em Efésios 1, 21: principado, potestade, virtude, dominação. Assim, o Pseudo Dionísio lê este trecho como uma descrição do segundo grau da hierarquia feita de modo ascendente, isto é, da menor para a maior. Assim, iniciando pelos Principados, que estariam no terceiro grau da hierarquia (segundo o Pseudo-Dionísio), depois viriam as Potestades, acima destas as Virtudes e, por fim, no grau mais elevado da segunda hierarquia, as Dominações. O segundo grau da hierarquia, para o Pseudo-Dionísio, em obediência a este versículo da Bíblia, seria assim:
1. Dominações, grau mais alto.
2. Virtudes, em segundo lugar de perfeição.
3. Potestades, como grau mais baixo da segunda hierarquia.
Os Principados seriam, para o Pseudo-Dionísio, do grau inferior, ou seja, do terceiro grau da hierarquia, junto como os Arcanjos e, por fim, os Anjos em sentido estrito. O terceiro grau, que é o grau capaz de aplicar as razões divinas e universais àquilo que é concreto (seriam, em nossa linguagem, os Espíritos políticos ou gestores) para o Pseudo-Dionísio, seria assim:
1. Os Principados, grau mais alto da terceira hierarquia.
2. Os Arcanjos, grau intermediário aqui.
3. Os simples Anjos, grau mais baixo e simples dentre todos os espíritos celestes.
São Gregório, por outro lado, prefere seguir a sequência que São Paulo enumera em Colossenses 1, 16: “Tronos, dominações, principados, potestades”. Aqui, ele enxerga uma numeração descendente, de tal modo que o segundo grau da hierarquia seria formado assim:
1. As Dominações seriam o grau mais elevado desta segunda hierarquia;
2. Os Principados estariam em segundo lugar, nesta segunda hierarquia.
3. As Potestades estariam no último lugar deste segundo grau hierárquico.
Por fim, no terceiro grau da hierarquia, São Gregório coloca as Virtudes, os Arcanjos e os simples anjos, e este grau ficaria assim:
1. As Virtudes, como degrau mais alto da terceira hierarquia.
2. Os Arcanjos, como degrau intermediário.
3. Os simples Anjos, como degrau inferior.
A classificação do Pseudo-Dionísio.
Após apresentar as duas classificações (ambas, como vimos, apresentam-se a partir de dados bíblicos), Tomás vai passar a fazer uma análise mais profunda da classificação do Pseudo-Dionísio.
A primeira consideração diz respeito ao próprio critério adotado pelo Pseudo-Dionísio para proceder às suas classificações. O critério, como vimos, é de dividir os Santos Anjos em três grandes graus hierárquicos:
- O primeiro grau hierárquico vê as razões de tudo a partir do próprio Deus, isto é, participa diretamente do modo divino de contemplar a criação. São, diria eu, os Espíritos teólogos – lembrando que esta não é uma expressão de Tomás, mas apenas uma metáfora que uso para compreender melhor o critério.
- O segundo grau hierárquico contempla a criação a partir de suas razões universais, ou seja, daquelas razões que não são particularizadas no tempo e no espaço, mas explicam a própria criação como universo, como sistema, como cosmos. Seriam, diria eu usando uma metáfora, algo como Espíritos filósofos.
- Finalmente o terceiro grau contempla a criação a partir das razões universais, mas sob o enfoque dos efeitos especiais, concretos, localizados, daquelas razões. Poderiam ser chamados, dentro da ideia da metáfora, de Espíritos gestores, ou políticos, no melhor sentido da palavra.
Ora, prossegue Tomás, Deus é o fim de tudo, porque é o princípio de tudo. Não só para os Santos Anjos, mas para toda a criação. Assim, o primeiro grau contempla diretamente o fim, o segundo grau relaciona o fim com o universo e o terceiro grau executa, conduz concretamente todas as coisas ao fim, que é Deus. Esta é a grande visão que decorre desses sistemas: um universo que não é neutro, que não é indiferente ao bem, que é Deus, mas se dirige a ele como ao seu fim, de modo inteligente e livre, guiado pelos anjos. E o faz compreendendo as razões universais das coisas e conduzindo-as concretamente a Deus.
Portanto, nesse governo universal, inteligente, livre e espiritual, Dionísio deduz, dos nomes bíblicos dados aos Espíritos mencionados nas Escrituras, as funções de cada ordem. Serafins, Querubins e Tronos são como que a Corte Celeste, que está em plena intimidade com Deus e conhece não somente as razões pelas quais ele criou tudo o que existe, mas também conhecem e querem ardentemente os fins determinados a elas por Deus e o bem que é toda a estrutura de gestão da criação. São como os faróis que conduzem toda a gestão do universo.
O segundo grau seria o grau do governo geral, que é capaz de compreender profundamente a criação e estabelecer os caminhos pelos quais o governo divino será efetivado na Criação, e como todas as coisas serão conduzidas à perfeição que Deus espera delas. Por isso, aquelas denominações que são analógicas a algum tipo de governo geral são colocadas aqui: Dominações, Virtudes e Potestades. Por fim, aqueles que põem a mão na massa, que se ocupam de cada coisa concretamente, estão no grau inferior: Principados, Arcanjos e Anjos.
É aqui que se revela o grande sentido dessas complexas classificações: a partir da ordem dos Espíritos Celestiais, podemos vislumbrar uma ordem adequada para nós, humanos, diz Tomás.
De fato, também na organização humana, há um grau mais elevado, que é como a corte do governo, o centro decisório, que está bem perto do Rei, convive com ele e conhece profundamente seu modo de ser e governar. Dentro das cortes governamentais, há também graus a distinguir: há aqueles que servem diretamente ao Rei, dando-lhe condições para governar. Seriam como o trono em que ele se senta. Há aqueles que conhecem os segredos do Rei, penetram em seu coração e conhecem profundamente sua mente, seu modo de pensar. São os Querubins. Por fim, aqueles que se inflamam do amor do Rei, que querem viabilizar seus projetos, que querem ardentemente o que o Rei quer: são os Serafins, ardentes de amor, os mais elevados dessa ordem. Tomás diz que todos eles formam a corte celeste, ou seja, todos são Tronos, em sentido amplo. Mas apenas o grau mais baixo dessa ordem é chamado de Tronos em sentido estrito, porque possuem apenas o que é comum, e não o que é especial em Querubins e Serafins. O primeiro grau, portanto, é o grau que equivale à corte real, entre nós humanos.
O segundo grau é algo como um poder executivo entre nós. Em primeiro lugar, há o exercício da soberania de governo, de modo a determinar os rumos que se vai tomar: isto equivaleria, entre os anjos, ao grau das Dominações. O segundo grau dispõe do poder de tornar efetivas as grandes determinações, de fazê-las acontecer: são as Virtudes. Finalmente o grau inferior estabelece as regulamentações governamentais, possibilitando o efetivo cumprimento das regras: são as Potestades.
Por fim, na ordem última, as coisas se passam como nas instâncias humanas de execução governamental. Há os que dirigem a execução, como os maestros dirigem a orquestra: são os Principados. Outros são como soldados rasos, que simplesmente executam as ações na prática: são os simples anjos. E, entre as duas esferas, estão aqueles que coordenam e lideram a execução: são os arcanjos.
Tomás considera esta uma boa classificação, porque traz em si uma gradualidade, de tal modo que o primeiro grau da inferior se aproxima muito do último grau da superior. Também no reino material é assim, diz Tomás: há animais que são tão simples, e vegetais que são tão complexos, que às vezes é difícil distinguir os dois. Então ele dá um quadro geral da hierarquia do Ser:
- O modo mais alto do Ser é o próprio Deus, em quem a terceira Pessoa (terceira em emanação, não em poder, uma vez que não há hierarquia interna entre as Pessoas divinas) é o Amor; com isso, há uma proximidade com a mais elevada das criaturas, que são os Serafins, cujo nome significa ardentes de amor.
- A última ordem do primeiro grau das criaturas puramente espirituais é a dos Tronos, que representam aqueles Espíritos pelos quais Deus anuncia seus juízos. Eles seriam, então, muito próximos das Dominações, que é o primeiro grau da segunda hierarquia.
- A última ordem do segundo degrau é a das Potestades, que ordena as coisas para que os Principados possam coordenar a execução dos maravilhosos decretos divinos. Assim, o menor grau da segunda hierarquia está muito próximo do grau mais alto da terceira, na visão do Pseudo-Dionísio.
3. Encerrando.
Em vez de um universo vazio de vida e inteligência, regido por leis cegas que funcionam como mecanismos que podem ser dominados mas não conhecidos em si mesmos, Tomás nos presenteia com o dinamismo de um universo complexo, vivo, livre e atuante, ansioso por conhecer e caminhar para o bem, livre para reconhecer o bem e encaminhar todas as coisas a ele não com o poder da coerção das leis, mas pelo poder da atração do bem. Em vez de enormes radiotelescópios que esquadrinham o céu em busca de vida inteligente (que também são importantes, convenhamos), mas que esquecem de olhar a inteligência por trás de cada ínfimo detalhe da criação, Tomás vê a vida, o bem, o amor, a inteligência e a cooperação em cada pequeno detalhe do universo, da criação, da enormidade cósmica em que estamos mergulhados.
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