1. Introdução.
Já vimos que os Espíritos celestes, que costumamos chamar pelo nome genérico de “anjos”, não são iguais em essência, mas apresentam diferentes capacidades individuais de inteligência e, consequentemente, de poder volitivo. Nós, hunanos, por outro lado, somos essencialmente iguais em espírito, mas diferentes apenas na conformação acidental do corpo.
Portanto, reunir os anjos em ordens implica reconhecer que essas mesmas ordens incluem Espíritos diversos entre si, e portanto relacionados como o superior ao inferior; em outras palavras: há hierarquia entre os anios, por motivos perfeitamente naturais, mesmo dentro das ordens angelicais.
A pergunta, agora, é: qual a hierarquia entre as ordens de Espíritos celestes? Quais as hierarquias mais elevadas e quais as inferiores? Como se dá a relação entre os anjos mais elevados de uma hierarquia inferior e os menos elevados de uma hierarquia superior? Como organizar hierarquicamente as ordens citadas na Bíblia, uma vez que as Escrituras não revelam explicitamente qual a hierarquia entre as ordens?
Este é o debate aqui. Vamos a ele.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial é a de que as tentativas de interpretar as Escrituras no sentido de classificar as Ordens angélicas são inconvenientes, ou seja, as classificações propostas não são adequadas para descrever de fato a organização dos anjos em ordens. Há quatro argumentos objetores no sentido desta hipótese inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento afirma que a ordem dos anjos mais elevados, mais perfeitos, deve também ser a ordem mais poderosa. Ora, certamente as ordens que a Bíblia chama de Dominações, Principados e Potestades são, como os próprios nomes revelam, as mais elevadas, as ordens supremas na condução e governo do universo, reunindo os anios mais perfeitos e poderosos, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O segundo argumento nos propõe um critério de proximidade: quanto mais elevada e perfeita é alguma coisa, tão mais próxima de Deus estará. Ora, nada pode ser mais próximo de um rei do que seu trono, porque é o lugar em que ele se senta, e não há distância entre alguém sentado e o respectivo assento. Logo, a ordem dos Tronos, mencionada nas Escrituras, deve ser a ordem espiritual mais elevada, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento objetor começa propondo que o conhecimento tem prioridade sobre o amor, já que ninguém pode amar aquilo que não conhece. Assim, o intelecto está acima da vontade, e, portanto, os espíritos que se sobressaem pela perfeição intelectual devem ser mais perfeitos do que aqueles que se sobressaem pela intensidade do amor. Então a ordem dos Querubins (Espíritos que se destacam pela perfeição no conhecimento) deve ser mais perfeita do que a ordem dos Serafins ( que são chamados assim por serem ardentes de amor), conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor quer comparar as diferenças entre os ensinamentos do Pseudo-Dionísio, por um lado, e os do Papa São Gregório Magno, por outro. Sabemos que ambos são grandes autoridades quanto aos anjos, mas que usam critérios diferentes para classificá-los, como vimos no artigo anterior.
Ora, prossegue o argumento, São Gregório coloca os Principados acima das Potestades, em sua classificação. Logo, os Principados não podem estar logo acima dos Arcanjos, como ensina o Pseudo-Dionísio, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra adota integralmente o pensamento do Pseudo-Dionísio na classificação dos anjos.
Assim, diz o argumento, conforme esse importante escritor, na hierarquia mais alta, a primeira e mais perfeita, estariam os Serafins, seguidos pelos Querubins em segundo lugar e os Tronos como os menos elevados da primeira hierarquia.
No grau intermediário da hierarquia estariam as Dominações, como mais elevados; as Virtudes, como intermediários e as Potestades, como os menores do grau médio.
por fim, o Pseudo-Dionísio coloca, na hierarquia mais baixa, em primeiro lugar os Principados, como os mais elevados da hierarquia inferior, seguidos pelos Arcanjos, cono intermediários, e por fim os Anjos em sentido estrito, como os mais simples dentre todas as criaturas espirituais incorpóreas. A grande autoridade do Pseudo-Dionísio e a estrutura clara e simples de sua organização devem ser acolhidas, conclui o argumento.
5. Encerrando por enquanto.
Mostra-se, nesta questão 108 – e especialmente neste artigo 6 – uma das maiores diferenças entre a visão de mundo teológica da época de Tomás e a nossa própria visão hoje: para Tomás o universo se organiza, quanto a suas forças e leis fundamentais, a partir da ordem hierárquica de Espíritos inteligentes e amorosos, que são de natureza criatural: as forças que regem o universo são pessoais, mas, à diferença do pensamento pagão (e, atualmente, do pensamento chamado de New Age), não são divinas.
Para nós, hoje, o universo é regido por forças impessoais, cegas, inanimadas, que tentamos explicar por meio da noção de leis naturais homogêneas, uniformes e implacáveis. A pergunta que remanesce para nós é: como podemos entender que essas leis sejam efetivas? Quem as torna assim? É claro que Tomás nunca debateu isto, porque nunca conheceu este problema. O que não nos impede de pensar.
Mas estamos nos alongando em digressões. No próximo texto começaremos a estudar a resposta sintetizadora de Tomás.
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