1. Voltando para encerrar.
Estudamos, neste artigo, as ordens dos anjos que são mencionados na Bíblia, a partir do sistema do Pseudo-Dionísio e de São Gregório. No último texto examinamos especificamente os Anjos, Virtudes, Dominações, Principados e Potestades. Examinaremos agora as ordens dos Arcanjos, Serafins, Querubins e Tronos, esgotando assim as menções bíblicas sobre as ordens de espíritos celestes.
2. Os últimos argumentos objetores e as respostas de Tomás.
O quarto argumento objetor.
O quarto argumento objetor diz que seria inútil e repetitivo existir a ordem dos Arcanjos, como primeiros entre os anjos e líder deles, já que esta função cabe aos Principados. Assim, ele conclui que a classificação das ordens não é adequada, ao distinguir entre Arcanjos e Principados, diz o argumento.
A resposta de Tomás.
Para o Pseudo-Dionísio, diz Tomás, os Arcanjos são uma ordem de anjos de média perfeição, que se coloca entre os Principados e os simples Anjos; os Arcanjos mais perfeitos seriam muito parecidos com os Principados, e os mais simples não se distinguiriam muito dos anjos mais elevados. A comparação que ele dá é de alguma coisa morna: suas partes mais aquecidas poderiam ser chamadas de “quentes”, se comparadas com as coisas frias, e as partes menos aquecidas poderiam ser chamadas de “frias” quando comparadas às coisas quentes. Assim, os arcanjos são simples, quando comparados aos Principados, mas muito elevados em comparação com os simples Anjos.
Para São Gregório, por outro lado, os Arcanjos são como que presidentes da ordem dos anjos, que é anunciando a eles as grandes coisas; os Principados, por outro lado, seriam como presidentes de todas as Virtudes celestes, ou seja, das ordens de Espíritos responsáveis pela execução dos divinos Decretos.
Em todo caso, Arcanjos exercem funções mais simples do que os Principados.
O quinto argumento objetor.
Agora o debate se volta para os Serafins e Querubins. Os Serafins seriam uma ordem de espíritos que se destaca pela caridade que arde, daí o seu nome. Os Querubins, por sua vez, seriam aqueles espíritos destacados em ciência. Ora, prossegue o argumento, caridade e ciência são próprios de todos os Espíritos celestes; assim, não haveria razão para nomear assim duas ordens destacadas de Espíritos, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
A ordem dos Serafins não é simplesmente portadora de caridade na mesma medida de todos os Espíritos celestes; na verdade, nesses anjos, a caridade está num grau tão concentrado que eles refulgem, como que incendiando de amor. É por isso que o Pseudo-Dionísio usa a metáfora do fogo para descrever esses Espíritos, considerando, nessa comparação, três coisas:
1) O fogo se move continuamente para cima; os Serafins são impulsionados continuamente para Deus, pela intensidade com que ardem de amor.
2) O fogo tem um poder ativo de aquecimento: ele, embora não possa ser considerado como o calor absoluto, já que as diversas reações de combustão apresentam graus diferentes de calor, sempre queima aquilo que toca, penetrando profundamente nas realidades que lhe são expostas de modo irrefreável e poderoso. Metaforicamente, os Serafins ardem de amor e podem incendiar tudo aquilo em que tocam, transmitindo o calor do amor divino às outras criaturas de modo a transformá-las profundamente e deixar nelas a sua marca indelével – sem serem, eles próprios, o Amor absoluto, que é o próprio Deus.
3) O fogo ilumina e clareia aquilo que está ao seu redor. De fato, os Serafins trazem consigo a luz do amor e iluminam, com essa luz divina, aquilo que está ao seu redor.
Quanto aos Querubins, têm a ciência num grau tão concentrado, tão alto, que podem ser considerados como detentores da plenitude da ciência, tanto quanto é possível a uma criatura. Essa plenitude da ciência, ou do conhecimento, é descrita pelo Pseudo-Dionísio como tendo quatro dimensões:
1) A dimensão da visão perfeita de Deus, que se manifesta neles de modo mais pleno do que em qualquer outra criatura.
2) A dimensão do pleno recebimento da luz divina, com a qual eles próprios são iluminados e iluminam as outras criaturas.
3) A dimensão da contemplação, porque são capazes de conhecer, em Deus, a beleza da ordem das coisas que Deus criou; e
4) A dimensão da difusão do conhecimento divino, ao derramar e iluminar as outras criaturas com a ciência de que estão repletos.
Assim, explicam-se as designações dos Querubins e dos Serafins.
O sexto argumento objetor.
A palavra “Trono” é usada para designar a sede de um governo, como se diz que “o trono de São Pedro está em Roma”. Ora, diz o argumento, dizemos que Deus se assenta no coração daquelas criaturas inteligentes, quando elas o reconhecem e amam como seu Deus e Senhor. Mas reconhecer Deus plenamente é próprio dos Querubins, e amá-lo com toda a intensidade é próprio dos Serafins. Assim, não é conveniente imaginar que haja uma ordem de anjos especiais chamados de “Tronos”, que possa ser diferente dos querubins e Serafins, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Há uma ordem chamada nas Escrituras de Tronos, mencionada em Colossenses 1, 16 e em Efésios 1, 21. Ela se caracteriza por conhecer, diretamente, em Deus, os motivos das ordens divinas; ela não se confunde nem com a dos Serafins, nem a dos Querubins. Os Serafins conhecem as razões de amor em Deus, os Querubins conhecem a ciência de Deus de modo excelente. De fato, podemos dizer que tudo aquilo que os Tronos conhecem está também no conhecimento de serafins e Querubins, mas o contrário não é verdade: os Tronos não possuem nem a profundidade do amor dos Serafins, nem a profundidade da ciência dos Querubins. Estas duas ordens são, portanto, superiores aos Tronos, e nelas está incluída a ciência que os Tronos têm. Como os humanos incluem em si a sensibilidade dos outros animais, mas não se limitam a ela, uma relação similar existe entre os Tronos e as ordens superiores de Serafins e Querubins.
Também se valendo de uma metáfora, o Pseudo-Dionísio compara os Tronos, como ordem espiritual, à cadeira onde os reis humanos se sentam para governar – eles seriam o equivalente a isso, na ordem celeste. Essa comparação também destaca quatro dimensões de semelhança:
1) Como os tronos terrenos em que os reis humanos se sentam são elevados com relação ao solo, para destacar a dignidade dos governantes humanos, também os Tronos celestes elevam-se até Deus no conhecimento das razões das coisas – a diferença é que, no mundo humano, os tronos elevam os reis. No céu, é o Rei que eleva a dignidade do Trono.
2) Os tronos reais são sempre sólidos e firmes, porque devem dar firmeza ao rei, em seu governo. No reino celeste, é o Rei, o próprio Deus, que dá firmeza e solidez aos Tronos.
3) Os tronos humanos são, muitas vezes, construídos como liteiras, que permitem transportar o rei lá para onde ele deve ir. Assim, de modo semelhante, os Tronos espirituais recebem Deus em si e como que o “transportam” até as demais criaturas.
4) Os tronos reais humanos são construídos de tal modo a possuírem, do lado de cima, uma superfície adequada para receber o rei que se senta. No reino celeste, os Tronos espirituais estão sempre abertos para receber Deus em si e a servi-lo prontamente.
3. Concluindo.
Resgatando, a partir da concepção de um universo conduzido em ordem ao seu bem, que é o próprio Deus, as designações bíblicas das ordens espirituais, os grandes teólogos do passado construíram essas majestosas estruturas celestes, um universo dinâmico e aberto a Deus, no qual nos encaixamos agora, pela Igreja militante, e no qual moraremos quando formos Igreja triunfante. Que Deus nos conduza até lá, porque este quadro nos revela uma eternidade vibrante e sempre ricamente interessante.
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