1. De volta.
Vimos os dois sistemas pelos quais os antigos escritores explicavam as menções bíblicas a ordens de anjos: o sistema do Pseudo-Dionísio, que relaciona essas denominações a divisões de graus de perfeição, ou seja, hierárquicas em sentido estrito, e o sistema de São Gregório Magno, que os divide por funções a eles atribuídas. Este é um sistema mais simples e mais claro, mas debater o sistema do Pseudo-Dionísio foi uma oportunidade para que Tomás nos desse uma aula de lógica realista, explicando o fundamento pelo qual atribuímos alguma característica a algum ser.
Precisamos lembrar, também, que, quando falamos de anjos, estamos usando uma palavra que significa uma função: anjo quer dizer mensageiro. Portanto, é mais adequado chamar essas criaturas espirituais incorpóreas simplesmente de Espíritos celestes, conscientes que anjos, em sentido próprio, são apenas aqueles Espíritos celestes cuja função é comunicar Deus a nós.
Agora, começaremos a examinar suas respostas aos argumentos objetores iniciais, nas quais ele debaterá cada uma das denominações bíblicas aos Espíritos celestes, explicando seu sentido e seu cabimento.
2. Os três primeiros argumentos objetores e as respectivas respostas de Tomás.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento recorda justamente que usamos a palavra anjo, em sentido amplo, para denominar todos os Espíritos celestes, e também os chamamos de Forças ou Virtudes celestes, para designar sua atuação no universo, porque todos eles participam, com alguma missão, do governo do Universo criado. Assim, diz o argumento, seria inconveniente usar as palavras “anjo” e a palavra “Virtude” para nomear algum grupo separado de Espíritos, atribuindo-lhes uma ordem própria com essa designação. Assim, o argumento se opõe à ideia de que haja uma ordem separada de Espíritos chamados de Anjos ou Virtudes.
A resposta de Tomás.
Sabemos que a palavra “anjo”, em sentido lato, significa “anunciador”. Assim, de fato, todos os Espíritos Celestes anunciam as maravilhas de Deus, manifestando Suas ordens. Os Espíritos mais perfeitos são anunciadores por excesso, ou seja, dizer que eles são anunciadores é pouco para descrever tudo o que eles são; seria como dizer que os seres humanos são animais sensoriais. Sim, somos sensoriais mas, mais do que isto, somos racionais. Mas podemos dizer, quanto aos animais irracionais, que eles são propriamente sensoriais, como podemos dizer dos anjos mais simples que eles são propriamente anunciadores. Assim, os anjos mais simples, aqueles que se relacionam diretamente conosco, cuidam de nós e vigiam para que a providência divina seja-nos manifestada podem ser propriamente designados pela palavra “anjos”, que somente de modo deficiente pode designar os mais elevados.
Quanto ao termo “Virtude”, ela designa aquelas disposições adequadas que permitem que uma potência facilmente vire ato: imaginemos, aqui, a habilidade desenvolvida por alguém para aprender a tocar um instrumento, ou a falar uma língua. Tomás ensina que essas disposições adquiridas são algo como um “intermediário” entre querer e poder – meu conhecimento de gramática permanece em mim como algo adquirido, e que me possibilita falar bem, mesmo se estou calado ou dormindo. Neste sentido, todos os Espíritos Celestes são dotados de todas as virtudes necessárias para agir bem, e por isso a palavra “Virtude” pode ser aplicada a todos eles.
Mas há um sentido especial: há Espíritos celestes que possuem muito vigor para receber e cumprir tarefas santas e enfrentar desafios. Como um grande pianista é chamado de “virtuose” em comparação com os pianistas comuns, esses Espíritos, por serem dotados desse vigor notável, são especialmente chamados de “Virtudes” por suas características próprias.
O segundo argumento objetor.
O Salmo 99(100), 3, nos ensina expressamente: “sabei que o Senhor, só Ele, é Deus”. Ora, só Deus é Senhor – é por isso que Deus é chamado de “Dominus”, que significa “Senhor”, em latim. Por isso, seria muito inconveniente chamar alguma ordem de Espíritos celestes de “Dominações”, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
Mais uma vez, aqui, Tomás vai usar aquela noção de “nomeação por excesso”, ou seja, Deus é Dominus como excesso, como aquele que ultrapassa essa noção e, portanto, fornece o critério pelo qual a própria noção é participada pelas criaturas. Deus é o fator analogante, e as criaturas são análogas a ele por participação.
Assim, quando as Escrituras denominam determinados Espíritos celestes de “Dominações”, ele está falando daquelas criaturas que mais propriamente participam do domínio divino sobre a Criação, e portanto podem receber essa nomeação de modo próprio.
Assim, o Pseudo-Dionísio, usando dessa noção do pensamento analógico, dá três sentidos principais para chamar essa categoria de Espíritos de “Dominações”:
- Em primeiro lugar, ser “dominação” significa ser governante e não simples governado, ordenar e não ser ordenado, sujeitar sem ser sujeitado. Não se submeter à tirania ou mesmo à servidão de ninguém. Em suma, ser livre em suas relações.
- Em segundo lugar, a palavra “dominação” significa ter firmeza na condução, executar as próprias deliberações de modo seguro e imutável, sempre reto no direito e na justiça, sem se dobrar a nenhuma tirania e opressão da arbitrariedade do mal.
- Em terceiro lugar, significa a participação sem hesitação no poder do único Senhor e Dono, que é Deus, bondade infinita, justiça verdadeira, exercendo o poder apenas a partir da verdadeira fonte de todo poder, único Dominus que é Deus mesmo.
Precisamos lembrar, diz Tomás, que se não pensarmos em termo de participação, se não conseguimos pensar analogicamente, e sempre atribuímos a Deus, de modo unívoco e não participado, tudo aquilo que o caracteriza, por ser Ele mesmo, jamais entenderemos o governo da criação. Tudo aquilo que está em Deus por excesso, de modo unívoco, está nas criaturas de modo analógico, participado.
O terceiro argumento objetor.
O terceiro argumento é um pouco diferente: ele não nega a propriedade das Ordens sob o argumento de que representam alguma propriedade de Deus, mas tenta mostrar que diversos nomes de ordens angélicas que aparecem nas Escrituras são, na verdade, sinônimos, e não ordens diferentes. É o caso dos nomes “Dominação”, “Principado” e “Potestade”, diz o argumento. Os três se referem àqueles que têm posição de mando no governo, e são sinônimos; por isso, não deveríamos imaginar que eles denominam três ordens diferentes de Espíritos Celestes, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
As palavras “Dominação”, “Potestade” e “Principado” estão todas relacionadas com a noção de “governo”; mas não do mesmo modo, explica Tomás.
De fato, consciente de que as Escrituras não trazem palavras inúteis, e que devemos tratar a Palavra revelada como tratamos o Pão eucarístico (com todo cuidado para não perder nenhum fragmento), ele fará a distinção entre essas três Ordens mencionadas pela Bíblia, assim:
- Aquele que rege deve promulgar regras sobre o que se relaciona ao bem da comunidade, preceituando o que se deve fazer. Ora, quem tem a soberania é chamado de Senhor, ou Dominus em latim, em analogia ao senhorio do próprio Deus. Logo, usa-se o termo Dominações para reunir aqueles Espíritos celestes que legislam, normatizam a vida da criação, a partir da própria Lei Eterna.
- As regras precisam ser aplicadas nos casos concretos, de modo a que a realidade se ordene de conformidade com a vontade de Deus. Um ordenamento só é real quando tem vigência e efetividade; ou seja, quando se aplica com poder, executando-se, na prática, aquilo que a lei traz como hipótese. Assim, chamam-se “Potestades” àqueles Espíritos celestes que têm o poder de fazer cumprir a lei, comunicando seu sentido aos inferiores e os conduzindo ao bem comum.
- Finalmente, dentre os que estão responsáveis pela própria execução das leis e recebem as ordens, há aqueles que são os primeiros, que dão exemplo e lideram os outros. Estes são chamados por São Gregório de “Primeiros”, ou seja, “Principados”, que o Pseudo-Dionísio classifica como líderes, condutores dos demais. E a eles se aplica, na realidade espiritual, aquilo que está registrado no Salmo
3. Encerrando.
Só Deus é santo, só Deus é Senhor, Só Deus é bom, mas as criaturas podem e devem participar propriamente desses atributos, e por isso podemos designar os Santos Anjos com denominações de ordens que são, na verdade, participações analógicas daquilo que só em Deus é unívoco. E é assim que podemos, também, chamar algum cristão de santo, como faz São Paulo nas Escrituras: é certo que só Deus é santo, mas todo aquele que vive na fé, na esperança e na caridade, chamado e agraciado pelo próprio Deus, é santo por analogia.
No próximo texto examinaremos os Arcanjos, os Serafins, os Querubins e os Tronos, percorrendo, assim, todas as categorias especialmente mencionadas na Bíblia.
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