1. Introdução.
A questão da hierarquia dos anjos e de sua divisão funcional em ordens ficou bem estabelecida nos textos anteriores. O debate, agora, é sobre as ordens dos anjos, que os reúnem em razão de seus dons e funções. Temos notícias bíblicas sobre diversas dessas ordens, mas essas notícias não estão organizadas de modo sistemático. Sistematizá-las foi algo que a teologia medieval tentou fazer sempre; Tomás já nos advertiu que essa sistematização é limitada, e decorre do fato de que apenas indiretamente, e de modo superficial, conhecemos os anjos. Assim, estudaremos a sistematização de Tomás, sempre com a consciência de sua precariedade, e com muita admiração pelo modo com que Tomás trata as Escrituras, sempre respeitoso, sempre com o esforço de compreendê-la melhor e lastrear sua reflexão nelas. O tema deste artigo, portanto, é reafirmar e sistematizar a revelação bíblica sobre as ordens de anjos. Vamos ao debate.
2. A hipótese provocadora inicial.
A hipótese controvertida inicial, para provocar o debate, propõe que a revelação bíblica sobre os anjos é inadequada, e que as menções a ordens angélicas nas Escrituras não são convenientes, não descrevem de maneira correta as ordens de anjos em razão da semelhança de suas funções. O presente artigo traz nada menos do que seis argumentos iniciais, que tentarão comprovar a inadequação de cada menção bíblica a uma ordem específica de anjos. Examinemo-los.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor quer comprovar que a denominação “Virtudes” é inadequada para nomear uma ordem de anjos. De fato, diz o argumento, todos os espíritos celestes são chamados igualmente de “anjos” e de “Virtudes”, já que a palavra “virtude” significa o poder, a habilidade ou o hábito, no sentido de disposição adequada para a ação, que alguma criatura tem – e todos os anjos têm algum poder. Assim, diz o argumento, não é adequado tomar um nome que designa todas as criaturas de algum grupo para designar apenas um subconjunto delas; logo, é inconveniente que se dê os nomes de “Anjos” e “Virtudes” a alguma ordem de Espíritos celestes, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
O próprio Deus é chamado de Senhor (Dominus) pelas Escrituras (como se vê, por exemplo, no Salmo 99 (100), 3: “sabei que o Senhor é Deus”. Isto é algo tão forte que, após a Ressurreição, manifestada a divindade de Jesus, ele passou a ser chamado de Senhor (Dominus) pelos fiéis. Mas há registro de que uma das ordens de Espíritos celestes é chamada de “Dominações” – o que é muito inconveniente, diz o argumento, porque “dominação” vem de “Dominus”, que é um nome próprio de Deus, e não pode designar anjos, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
A palavra “Dominação” tem relação com o poder soberano com que se governa algum povo; também os termos “Principados” e “Potestades” se relacionam com um poder desse tipo, quer dizer, algum poder que conduz soberanamente algum povo. Logo, se as três palavras têm, no fundo, o mesmo significado, não parece conveniente que sejam usadas para designar três ordens diferentes de anjos, conclui o argumento.
O quarto argumento objetor.
Agora, neste argumento, será discutida a ordem dos “Principados”. Ora, a palavra “Principado” parece designar uma ordem de Espíritos que é a primeira dentre todos. Mas os primeiros, os maiores dentre os anjos, os de maior perfeição, são chamados de “Arcanjos”. Logo, Arcanjos e Principados não deveriam designar duas ordens diferentes de Espíritos, mas devem se referir aos mesmos Espíritos, conclui o argumento.
O quinto argumento objetor.
O quinto argumento lembra que a palavra “Serafim” deriva de “ardor”, e quer designar aqueles Espíritos que ardem com o amor de Deus, que é a caridade. A palavra “Querubim”, por outro lado, deriva de “conhecimento”, e quer designar aqueles Espíritos que possuem ciência profunda das coisas de Deus. Ora, todos os Espíritos Celestes ardem com o amor de Deus e conhecem profundamente seus pensamentos e planos. Então é inconveniente separar estes termos para designar apenas uma ordem de Espíritos, quando eles podem descrever todos, conclui o argumento.
O sexto argumento objetor.
A palavra “Trono” designa, normalmente, o lugar no qual um soberano está sediado. É por isso que dizemos, por exemplo, que Jerusalém é o trono de Davi, ou que o trono de São Pedro está em Roma. Ora, Deus faz morada no coração das criaturas inteligentes que, pela graça, o aceitam como Soberano de suas vidas. Portanto, todas as criaturas inteligentes que se santificam pela graça devem ser consideradas como verdadeiros “Tronos” de Deus. Portanto, é inconveniente imaginar que a palavra “Trono” possa ser o nome de uma ordem de Espíritos celestes em especial, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra usa simplesmente o argumento bíblico: a Bíblia fala de diversas ordens de Espíritos celestes: em Isaías 6 há a menção a Serafins, em Ezequiel a menção é a Querubins; no Novo Testamento há, em Colossenses 1, 16 menção a Tronos, Dominações, Principados e Potestades, ao lado de outra menção em Efésios 1, 21, que se refere a “principado, potestade, virtude, dominação”. Há, é claro, diversas menções a Anjos e Arcanjos em outras passagens bíblicas relevantes, mas, de tudo quanto aqui transcrito, fica claro que as Escrituras citam, nessas passagens, várias ordens diferentes de Espíritos celestes. Assim, não pode haver dúvida de que essas denominações são adequadas, conclui o argumento.
5. Encerrando.
É certo que, no tempo de Tomás, havia uma leitura muito estrita, muito rígida, dessas categorias bíblicas, atribuindo-as a ordens de anjos. Hoje, talvez, façamos uma leitura menos literal e tendamos a entender estas passagens como metafóricas, alusivas a poderes humanos abstratos, que os autores bíblicos tendiam a personificar. Mas quem está com a razão? De fato, Tomás reconhece – e com ele toda a fé da Igreja – a realidade da existência de inteligências espirituais pessoais colaborando diretamente no governo do universo. Mas sabe que não as podemos conhecer diretamente, e que, portanto, qualquer informação sobre elas, mesmo que com lastro bíblico, não deve ser tomada como inflexivelmente precisa ou cientificamente determinada. São coisas que estão além da nossa experiência, e por isso devemos confiar na Palavra e procurar entendê-la adequadamente.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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