1. Retomando.
A idade moderna foi tomada por muitas tentativas de estabelecer algum fundamento natural, substancial, para uma suposta hierarquia de perfeição entre os seres humanos. Alguns pregaram que há seres humanos mais “evoluídos” que outros, ou mais intelectualmente capazes, ou ainda mais fisicamente dotados ou mesmo mais poderosos em sua vontade. Os outros, os inferiores, deveriam ser esterilizados, dominados, explorados ou até mortos. Sabemos exatamente onde estes caminhos levaram a humanidade: guerras, holocaustos, abortos, eutanásias, colonialismo, exploração, machismo, todos estes males podem ter sua origem na tendência a achar que há seres humanos naturalmente melhores, em sua conformação natural, que os outros. A única raiz de qualquer hierarquia válida, para os seres humanos, é o amor de Deus, que se manifesta de modo diferente em cada um, e é acolhido também de modo diferente. É certo que Maria Santíssima recebeu uma graça muito mais intensa do que aquela que Deus destinou aos outros santos: nenhum outro teve o privilégio de ser chamado de “kecharitomene” (plena de graça, Lc 1, 28) a não ser ela. Isto não traz nenhuma injustiça: Deus nos ama de modo pessoal, individual, gratuito, e receber mais amor significa estar chamado a servir mais. No mais, temos exatamente a mesma natureza humana: não há hierarquia de natureza entre nós.
Mas entre os anjos não é assim: há, entre eles, diferenças essenciais de natureza: cada anjo é diferente de todos os outros. Há também diversidade de vocações: cada anjo tem sua função, seu chamado, e a graça para realizá-lo. Assim, a diferença entre os anjos fundamenta-se simultaneamente na natureza e na graça.
Mas estamos nos adiantando de novo. Examinemos agora a resposta sintetizadora de Tomás.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Sabemos, porque já vimos nos textos anteriores, que a ordem de um governo, ou seja, a ordem de uma coletividade regida por um governante, envolve a referência dessa coletividade a algum fim. Quer dizer, toda ordem hierárquica, toda ordem de regência coletiva, pode ser definida como a condução da coletividade à(s) sua(s) finalidades. O elemento que faz com que uma coletividade qualquer seja um povo, um grupo organizado, um verdadeiro universo, é o fim.
Neste sentido, podemos dizer que o fim que unifica todas as criaturas é o de conhecer e louvar a Deus. Este é o único fim, e precisamos ter cuidado para não diferenciar o fim da natureza e o fim da graça. Não há um “fim natural” e um “fim da graça” separados, mas apenas um único fim, o de encontrar e louvar a Deus, que pode ser compreendidos de dois modos diversos: como um fim a que a própria natureza já aponta, e como um fim que, para os seres inteligentes, somente pode ser alcançado quando a natureza é elevada pela graça. A graça é uma ordem distinta da natureza, mas não cria uma nova natureza. A graça pressupõe a natureza e a eleva.
Ora, todas as coisas são feitas por Deus e para Deus. Deste modo, tudo busca Deus, tudo tem em Deus o seu fim, embora nem todas as coisas estejam conscientes disso – não o estão as coisas inanimadas, nem as coisas irracionais, ainda que vivas.
Mas, muitas vezes, mesmo aqueles seres racionais que se proclamam ateus ou agnósticos supostamente não acreditam e não querem buscar Deus como seu fim. Então como podemos afirmar que toda natureza busca Deus de modo natural, como aquele fim último para o qual aponta?
Ora, as coisas inanimadas e irracionais buscam a Deus como fim último quando caminham de sua potencialidade para a sua atualidade; isto porque as potencialidades apontam para aquilo que, enquanto não é atual, existe apenas na mente de Deus. Assim, por exemplo, uma semente de feijão é um pé de feijão em potencial, mas, enquanto ela está na condição de semente, o pé de feijão para o qual ela aponta existe apenas na mente de Deus. Quando ela brota e floresce, ela encontra aquilo que é o fim, e pelo qual ela honra a louva a Deus: torna-se, de modo atual, aquilo que estava pensada para ela em Deus. É desse jeito que as coisas buscam a Deus como seu fim natural.
No caso dos seres inteligentes, como o ser humano e os anjos, eles buscam alcançar a perfeição que o próprio Deus lhes designou. Todos buscam a própria perfeição, que está escondida em Deus. A perfeição das naturezas inteligentes é conhecer a Deus para louvá-lo e servi-lo. O fato de que algumas criaturas racionais deliberadamente rejeitem os planos do único verdadeiro Deus para si não significa que eles não estão em busca de algum deus para louvar e servir, mas apenas que rejeitaram o Deus verdadeiro para louvar e servir alguma falsa divindade, que pode ser até mesmo a si próprio, colocando a si mesmo no lugar do Deus verdadeiro. Ou seja, ele naturalmente está dirigido a louvar e servir a Deus, mas escolhe louvar e servir a um deus falso, rejeitando a graça que o levaria ao conhecimento do único Deus verdadeiro. Mas isto tudo é digressão: serve como uma espécie de revisão, para que possamos examinar especificamente a resposta de Tomás.
Voltando aos anjos, Tomás diz que o governo de Deus sobre os anjos, que os organiza em hierarquias e ordens, pode ser entendido, com relação ao seu fim, a partir de dois pontos de vista:
1) Deus encaminha os anjos ao seu fim (como encaminha toda a Criação) como criaturas naturalmente ordenadas a buscar a Deus e glorificá-lo. Aqui, o governo de Deus envolve todos os anjos, e se diferencia de acordo com a capacidade natural de cada anjo. Isto é, um anjo com maior capacidade intelectual, mais poderoso, será naturalmente capaz de conhecer a Deus mais profundamente e servi-lo de maneira mais poderosa. Cada anjo tem, assim, de modo substancial e essencial, uma capacidade naturalmente diferente de inteligir e servir.
2) Na ordem da graça, eles alcançam este fim de conhecer e servir o Deus verdadeiro quando, recebendo a graça santificante, acolhem-na e, a partir de sua liberdade, optam por Deus. Entram, pois, na beatitude completa e podem ver a Deus por essência e gozar de Sua bondade infinita. É claro, pois, que apenas os Santos Anjos alcançam esta ordem, e irão viver a santidade em proporção com a sua própria natureza, elevada pela graça. Quanto mais perfeita for a natureza, mais a graça poderá elevá-la, e mais perfeita será a visão beatífica e o serviço do Santo Anjo.
Portanto, os anjos se organizam em hierarquias e ordens a partir desse duplo critério: diferenças na perfeição da natureza e diferenças na elevação pela graça.
Entre nós, seres humanos, este primeiro critério não existe: temos, todos nós, a mesma capacidade natural substancial e essencial – somos todos igualmente humanos, pela mesma substância humana, essencialmente iguais em dignidade,embora acidentalmente sejamos diferentes, em razão da conformação corporal, da inserção local e histórica e do desenvolvimento natural pessoal. Entre nós, humanos, qualquer hierarquia, quanto ao nosso fim último, somente se estabelece em razão da graça. E, de fato, cada um de nós recebe a graça de modo pessoal, diferente, e a aceita também de modo diferente. Basta lembrar que apenas um ser humano foi declarado expressamente por Deus como pleno de graça (kecharitomene): Maria Santíssima (Lc 1, 28). Mas isto é um outro assunto, apenas uma digressão nossa.
3. Os argumentos objetores.
Tomás considera que a resposta sintetizadora já foi capaz de responder aos argumentos iniciais. Mas vamos recordá-los brevemente, para compará-los com a resposta de Tomás.
O primeiro argumento lembra que a noção de hierarquia tem relação com o governo sagrado, no qual apenas pela graça podemos participar, porque envolve a santidade, a qual mesmo os anjos só alcançam por graça. Assim, diz o argumento, somente a graça poderá estabelecer uma hierarquia entre os anjos.
No entanto, vimos, na resposta de Tomás, que os anjos têm naturezas diferentes, que são elevadas pela graça. Assim, as diferenças hierárquicas, entre os anjos, têm fundamento tanto na natureza quanto na graça.
O segundo argumento exemplifica o caso da ordem dos Serafins. Como se sabe, eles são os anjos que ardem pelo amor de Deus (caridade), daí seu nome, que significa “ardentes’. Ora, o amor de Deus é da ordem da graça, como está registrado em Romanos 5, 5, o que vale também para os anjos. Logo, os anjos são ordenados apenas pela graça, e não pelas diferenças substanciais na ordem da natureza, diz o argumento.
A resposta de Tomás é no sentido contrário, conforme vimos acima. De fato, a capacidade dos anjos de receber a graça e viver o amor de Deus varia não somente em razão da graça recebida, mas da própria natureza essencial do anjo, que é diferente para cada indivíduo.
Por fim, a terceira objeção aponta que a hierarquia eclesiástica, constituída de diácono, presbítero e bispo, espelha a hierarquia dos anjos. Mas não é natureza que alguém é diácono, padre ou bispo; apenas por graça de Deus. Logo, também na hierarquia dos anjos as diferenças são da ordem da graça, não da natureza, conclui o argumento.
Na sua resposta, Tomás já explicou que não há analogia, aqui, entre a Igreja e a hierarquia dos anjos. Na Igreja, temos todos a mesma dignidade de filhos, recebida pelo batismo, pelo simples fato de sermos todos igualmente humanos; todas as outras diferenças são dons da graça. Entre os anjos há diferenças naturais e de graça.
4. Concluindo.
A Constituição Lumen Gentium, no número 32, tratando da igualdade de dignidade e da diversidade de dons e serviços na Igreja diz o seguinte:
A santa Igreja, por instituição divina, é organizada e governada com uma variedade admirável. «Assim como num mesmo corpo temos muitos membros, e nem todos têm a mesma função, assim, sendo muitos, formamos um só corpo em Cristo, sendo membros uns dos outros» (Rom. 12, 4-5).
Um só é, pois, o Povo de Deus: «um só Senhor, uma só fé, um só Batismo (Ef. 4,5); comum é a dignidade dos membros, pela regeneração em Cristo; comum a graça de filhos, comum a vocação à perfeição; uma só salvação, uma só esperança e uma caridade indivisa. Nenhuma desigualdade, portanto, em Cristo e na Igreja, por motivo de raça ou de nação, de condição social ou de sexo, porque «não há judeu nem grego, escravo nem homem livre, homem nem mulher: com efeito, em Cristo Jesus, todos vós sois um» (Gál. 3,28 gr.; cfr. Col. 3,11).
Portanto, ainda que, na Igreja, nem todos sigam pelo mesmo caminho, todos são, contudo, chamados à santidade, e a todos coube a mesma fé pela justiça de Deus (cfr. 2 Ped. 1,1). Ainda que, por vontade de Cristo, alguns são constituídos doutores, dispensadores dos mistérios e pastores em favor dos demais, reina, porém, igualdade entre todos quanto à dignidade e quanto à atuação, comum a todos os fiéis, em favor da edificação do corpo de Cristo. A distinção que o Senhor estabeleceu entre os ministros sagrados e o restante Povo de Deus, contribui para a união, já que os pastores e os demais fiéis estão ligados uns aos outros por uma vinculação comum: os pastores da Igreja, imitando o exemplo do Senhor, prestem serviço uns aos outros e aos fiéis: e estes dêem alegremente a sua colaboração aos pastores e doutores. Deste modo, todos testemunham, na variedade, a admirável unidade do Corpo místico de Cristo: a própria diversidade de graças, ministérios e actividades, consagra em unidade os filhos de Deus, porque «um só e o mesmo é o Espírito que opera todas estas coisas» (1 Cor. 12,11).
Não é assim entre os anjos. As diferenças naturais entre eles se apresentam mesmo entre os Santos Anjos e aqueles anjos que caíram, rejeitando a graça. Lúcifer é um anjo mais naturalmente elevado e capaz do que São Miguel – é naturalmente mais inteligente e poderoso. Mas São Miguel, elevado pela graça santificante, reconhece Deus como soberano e derrota Lúcifer pelo poder de Deus. Isto é muito bonito: a natureza elevada pela graça supera uma natureza decaída, ainda que mais poderosa. Belo exemplo para nós, que está no Livro do Apocalipse 12, 7-9.
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