1. Introdução.

Por que estudamos os anjos? Parecem haver três motivos, ainda relevantes hoje em dia:

1. Para entender como Deus governa o universo por suas criaturas inteligentes, e entender como podemos participar desse governo de modo a cumprir aquilo que rezamos no Pai Nosso: seja feita a Vossa vontade. Isso é um contraponto à posição moderna de submeter o universo a nossos interesses, em vez de nos submeter à vontade do Pai.

2. Entender como nos integraremos nessa ordem na eternidade, já que seremos como os anjos, ou seja, integraremos a ordem deles, nos termos de Mt 22, 30.

3. Entender o que não somos, por contraste com aquilo que os anjos são. Um dos grandes obstáculos no caminho da santidade, como nos ensina Papa Francisco na Gaudete e Exsultate, é a tendência ao gnosticismo, que é viver uma vida desencarnada, como uma mente puramente espiritual, isto é, que um humano queira viver como se fosse na verdade um anjo preso na matéria.

Estes três motivos se apresentam agora, para debater o tema deste artigo; mas especialmente o último tem relevo. De fato, enquanto falamos numa hierarquia de anjos, com ordens que os reúne em razão de suas funções, será que poderíamos falar de uma hierarquia de seres humanos, na qual alguns fossem mais perfeitos, por natureza, do que outros, de tal modo que uns fossem naturalmente superiores a outros? Sabemos que várias ideologias, como o racismo, o nazismo, o etnocentrismo, a eugenia, partiram justamente deste ponto de vista, sem reconhecer que todos os seres humanos, compartilhando da mesma espécie, que é a mesma forma substancial, a alma espiritual, têm exatamente a mesma dignidade, a mesma posição perante Deus, a mesma natureza. Nunca poderíamos falar numa hierarquia de seres humanos no mesmo sentido daquela dos anjos. É certo que, entre os seres humanos, somos diferentes, mas esta diferença não tem origem em nossa essência (como entre os anjos), mas nos acidentes de conformação corporal e nos dons da graça que nos são concedidos de modo especial. Será assim também entre os anjos?

É o que debateremos agora.

2. A hipótese controvertida inicial.

A hipótese controvertida inicial, que quer despertar a polêmica e provocar debate, propõe que essa hierarquia e essa ordenação funcional dos anjos não é algo que decorre de sua natureza, das diferenças naturais entre eles, mas apenas da graça, ou seja, daquilo que Deus lhes concede para elevar sua natureza, como dom. Como no caso dos seres humanos, propõe esta hipótese, todos os anjos seriam iguais em capacidades, direitos e perfeições, e somente aquilo que eleva a sua graça, ou seja, os tipos de dons que Deus lhes concede individualmente, é que estabeleceriam alguma diferença hierárquica entre eles. Numa espécie de democratismo angelical, a hipótese seria a de que todos os anjos seriam naturalmente iguais em perfeição e dignidade, e apenas as diferenças acrescentadas pelos dons de Deus é que os diferenciariam.

Há três argumentos objetores que tentam comprovar esta hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento lembra que, na definição do Pseudo-Dionísio, a hierarquia significa justamente governo sagrado, e governar é atribuir uma ordem às coisas. Ora, o critério de ordenação é exatamente a semelhança com Deus, vale dizer, a organização dos seres pelo grau que apresentam na sua semelhança com Deus. Mas, prossegue o argumento, a semelhança de uma criatura com Deus, ou santidade, é resultado da graça e não da natureza. Assim, a hierarquia dos anjos é estabelecida em razão da graça que eles recebem de Deus, e não em razão das diferenças que apresentam em sua natureza, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Sabemos que as Escrituras apresentam uma ordem de anjos chamados de serafins. Sabemos também que os serafins são definidos como anjos ardentes e incandescentes, como os descreve o Pseudo-Dionísio. Ora, arder e queimar diz respeito, neste caso, às chamas do amor de caridade, que, como nos ensinam as Escrituras, é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos é dado (Romanos 5, 5). Isto não se aplica apenas à santificação dos seres humanos, mas também à santidade dos anjos. Ou seja, os serafins são chamados assim porque ardem com o amor divino, que lhes é infundido pela graça. Logo, é a graça, e não alguma diferença natural, substancial, que faz com que os anjos ocupem determinado grau na hierarquia ou determinada ordem de funções, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

A hierarquia na Igreja é um reflexo da hierarquia celeste dos anjos, afirma o argumento. Ora, não é por natureza que existe, na Igreja, uma ordem hierárquica pela qual alguns são leigos, outros são diáconos, outros são presbíteros e outros, ainda, bispos. Não podemos imaginar que os seres humanos já nascem com alguma diferença natural, em sua substância mesma, que os tornam mais próprios para ocuparem este ou aquele grau na hierarquia eclesial. Trata-se, pois, de uma diferença hierárquica que decorre apenas da graça de Deus, que vocaciona alguns para este grau e outros para outro grau. Assim, analogicamente, o mesmo deve acontecer entre os anjos, e assim as diferenças de grau hierárquico e de ordem entre eles deve decorrer apenas da graça, e não de alguma diferença natural, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra é aquele que não pode aceitar a hipótese inicial, e traz algum fundamento para rejeitá-lo, seja de autoridade, seja de cunho lógico, seja de cunho prático mesmo.

No caso presente, o argumento vem de Pedro Lombardo, respeitadíssimo no tempo de Tomás, conhecido como Mestre das Sentenças. Este mestre afirma que “uma ordem celeste é um conjunto de espíritos celestes” (anjos) “que são semelhantes entre si por algum dom da graça divina, e que compartilham também alguma participação nas mesmas características naturais”. Assim, o grande Mestre Pedro Lombardo garante que a organização dos anjos em hierarquia e ordens envolve não somente diferenças na ordem da graça, mas também diferenças substanciais, naturais, entre eles, conclui o argumento.

5. Encerrando.

Como dissemos, anjos são diferentes entre si, de tal modo que uns são mais perfeitos, mais parecidos com Deus, mais capazes, mais poderosos do que outros; isto, assim como os dons da graça, estabelece diferenças hierárquicas e funcionais entre eles. Diferentemente dos seres humanos, que são essencialmente iguais e acidentalmente diferentes.

Veremos a resposta de Tomás no próximo texto.