1. Retomando para finalizar.

As ordens de anjos existem, têm fundamento na realidade, mas descrevem muito mais a nossa visão sobre a organização deles do que propriamente o modo pelo qual eles se organizam. De fato, há anjos com funções semelhantes, que ocupam, assim, a mesma ordem; mas, se os conhecêssemos por experiência direta, viríamos que esta ordenação é, na verdade, muito mais complexa do que podemos imaginar.

Vimos tudo isto nos textos anteriores. Passaremos a examinar agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

2. Os argumentos iniciais e as respectivas respostas de Tomás.

O primeiro argumento objetor.

Como já vimos quando debatemos a questão 50, artigo 4, cada anjo é diferente de todos os outros, e é único em sua espécie, lembra o argumento. Ora, colocar vários elementos na mesma ordem, ou no mesmo conjunto, implica reconhecer algo em comum entre eles, algum fator que os iguale, o que não pode acontecer com os anjos. Assim, cada ordem de anjos é um conjunto unitário, e possui apenas um anjo, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

É possível encontrar, entre os anjos, fatores que os relacione e os faça compor uma mesma ordem, pertencer a um mesmo conjunto. Como veremos nos artigos seguintes, há anjos realizando tarefas que são similares, de modo que podem realmente ser agrupados numa mesma ordem por nós. Mas eles não são iguais entre si em espécie, e por isso, como ensina o Pseudo-Dionísio, há, em cada ordem de anjos, aqueles que são mais perfeitos, aqueles que são intermediários e aqueles que são mais simples. Ou seja, numa mesma ordem podem se encontrar anjos de diferentes hierarquias.

O segundo argumento objetor.

Não seria racional admitir que aquela tarefa que pode ser executada por apenas um sujeito precise de uma equipe inteira, de muitas coisas, para realizá-la. Deste modo, basta um sol para iluminar a terra, basta um rei para governar um país, basta um pai para reger uma família. Ora, as funções que Deus dá aos anjos também estão dentro das capacidades deles: basta um anjo para realizar a função que lhe compete, diz o argumento. Assim, não haveria sentido em imaginar que os anjos pudessem aglutinar-se em ordens em razão de suas funções: teríamos que admitir que cada ordem de anjos é composta por apenas um anjo, e não mais do que um, diz o argumento.

A resposta de Tomás.

Se nós pudéssemos examinar os anjos pessoalmente, se tivéssemos conhecimento direto e vivencial deles, teríamos como saber quais são as tarefas individuais deles, que são atribuídas por Deus, e saberíamos que, para cada tarefa, temos um anjo perfeitamente capaz de realizá-la. Deste modo, poderíamos ter ordens de anjos compostas por apenas um anjo, dada a riqueza de detalhes do nosso conhecimento. Mas, uma vez que o conhecimento que temos é apenas indireto, revelado, nós podemos apenas agrupar os anjos em grandes conjuntos, com critérios bastante largos, reunindo-os em razão da semelhança de suas atribuições, que são as chamadas “ordens de anjos” de que estamos tratando aqui.

O terceiro argumento objetor.

Cada anjo é diferente do outro, lembra o argumento, a partir do que estudamos na questão 50,a rtigo 4. Ora, se reunirmos os anjos em razão da semelhança de funções, teríamos anjos de hierarquias diferentes reunidos na mesma ordem. Deste modo, as ordens reuniriam anjos elevadíssimos, ao lado de anjos muito simples, de grau inferior. Mas, neste caso, os anjos teriam mais semelhança com outros anjos da mesma hierarquia, que estivessem em outras ordens, do que com os anjos de sua própria ordem, de tal modo que o anjo mais elevado de uma ordem seria mais parecido com o anjo de outra ordem superior do que com os anjos inferiores de sua própria ordem. Ora, diz o argumento, isto seria ilógico. Mas isto aconteceria, se houvesse mais de um anjo numa mesma ordem. Assim, não há mais do que um anjo em cada ordem, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

Se pintarmos, por exemplo, uma parede parte de branco, parte de preto, por mais que o façamos com todo o cuidado, haverá uma região em que a tinta branca se encontrará com a preta e formará uma região de transição, que na verdade será cinzenta. Ora, essa região de transição será gradualmente mais próxima da cor que estiver adjacente a ela, de tal modo que ora será mais semelhante ao branco, ora ao preto. Algo semelhante a isso ocorre com as ordens dos anjos, haverá sempre uma zona cinzenta entre elas, de tal modo que os anjos que estiverem nos respectivos limites poderão apresentar semelhanças com uma ordem e com outra. Mas, uma vez que eles têm funções próprias, não são apenas as proximidades de natureza (hierarquia por grau de perfeição) que importam aqui, mas principalmente a proximidade de funções, que sempre determinará que o anjo pertença propriamente a uma ordem ou a outra, conclui Tomás.

3. Concluindo.

A Bíblia nos apresenta várias ordens de anjos – por exemplo: principados, potestades, arcanjos, serafins, dominações, etc. Ora, sempre devemos lembrar que essas denominações são limitadas pela linguagem humana, que reflete os próprios limites da capacidade humana de conhecer os anjos. Por isso, devemos saber que as ordens dos anjos existem, porque assim nos foi revelado, mas devemos sempre lembrar que elas são muito mais complexas do que aquilo que conhecemos delas.