1. Retomando.
Examinamos, nesta questão, o modo pelo qual os anjos se organizam para gerir, sob o governo divino, as coisas do mundo criado. Vimos que eles se dividem em hierarquias a partir de sua essência, que é única para cada anjo e apresenta diversos graus de penetração na inteligência e diversos graus de capacidade na vontade. Estamos vendo, agora, a organização dos anjos em ordens, que os relacionam a partir de suas funções. Trata-se, pois, de uma verdadeira sociologia dos anjos, que quer encontrar, nessa organização invisível, não somente a estrutura da gestão do próprio universo como até mesmo nosso próprio destino eterno, ao menos para aqueles que alcançarem a santidade.
Vimos, então, no último texto, a ideia de que os anjos não teriam algo como uma vida social, ou seja, eles não se organizariam em ordens em razão da semelhança de suas funções, mas atuariam isoladamente, sendo que cada anjo constituiria, sozinho, uma ordem por si mesmo. E vimos, como argumento contrário a essa ideia de que a função dos anjos seria sempre algo solitário, uma citação bíblica (Isaías 6, 3) na qual o Profeta Isaías contempla vários Serafins a conversar entre si – lembrando que Serafim seria o nome de uma ordem de anjos.
Estudaremos agora a resposta sintetizadora de Tomás sobre este assunto.
2. A resposta sintetizadora de Tomás.
Quando conhecemos perfeitamente alguma coisa, podemos distinguir, nela, tudo o que diz respeito à sua natureza, suas capacidades e suas funções. Assim, podemos elaborar, sobre elas, distinções e classificações precisas, que refletem adequadamente aquilo que elas são.
Mas quando conhecemos alguma coisa somente de modo superficial, as classificações que realizamos sobre ela são imprecisas, genéricas, superficiais, e não refletem adequadamente aquilo que elas são. Como alguém que olha o céu a olhos nus, em comparação com alguém que dispõe de lunetas e telescópios de precisão.
Portanto, quando conhecemos algo superficialmente, tendemos a fazer classificações muito amplas, como alguém que classificasse as coisas em “coisas do céu”, “coisas da Terra inanimadas” e “coisas vivas”, dentre estas “vegetais” e “animais”. Alguém, porém, que detenha profundos conhecimentos, digamos, astronômicos, não classificará os corpos celestes como “coisas do céu”, mas poderá distinguir entre estrelas, planetas e asteroides, por exemplo.
No caso do conhecimento que temos quanto aos anjos, ele não é um conhecimento empírico, direto, detalhado e científico, mas apenas um conhecimento muito indireto, revelado, superficial e genérico. Assim, somente de um modo muito geral é que podemos discernir as funções dos anjos, suas atribuições, e por isso tendemos a fazer classificações muito amplas, muito superficiais, que incluem muitos anjos numa mesma ordem. Nosso conhecimento do mundo dos anjos parece mais com aquele conhecimento que as crianças têm do universo, classificando as coisas do céu em “sol, estrela e lua”, do que aquele que os astrônomos possuem, e que os leva a distinguir detalhadamente os astros em satélites, planetas, galáxias, supernovas, anãs brancas e assim por diante. Por isso, quando falamos em ordens de anjos, falamos em classificações que, mesmo tendo fundamento na verdade, correspondem mais aos nossos limites de conhecimento do que ao modo que os próprios anjos estão organizados.
De fato, se pudéssemos interagir diretamente com os anjos, se pudéssemos nos relacionar direta e pessoalmente com eles, numa relação consciente e recíproca, saberíamos perfeitamente quais são as distinções entre os anjos, e poderíamos conhecer a função concreta de cada um deles; deste modo, talvez nem falássemos em ordens de anjos, porque saberíamos que cada anjo tem sua própria atribuição, suas próprias capacidades e, portanto, a rigor, cada anjo é de uma ordem diferente. Mas, como nosso conhecimento sobre eles é superficial e genérico, falamos em ordens de anjos como se fossem corporações de ofício, e abrangessem seres muito semelhantes entre si, que trabalhassem sempre em conjunto nas mesmas funções.
3. Encerrando.
Não podemos, no entanto, confundir a imperfeição, a limitação do nosso conhecimento sobre os anjos com algum tipo de erro ou arbitrariedade. A própria Bíblia, quando trata de anjos, usa a noção de ordens de anjos, como na passagem de Isaías 6, 3, já citada, ou nos escritos paulinos, em que ele às vezes agrupa os anjos em ordens, por exemplo, em Efésios 3, 10.
No próximo texto examinaremos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais.
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