1. Introdução.
Aqui, neste artigo, ficará claro que as ordens dos anjos não são determinações naturais, mas verdadeiras equipes funcionais, reunindo seres que, sendo desiguais em natureza, realizam o mesmo tipo de função para Deus.
O que devemos ter em mente, quando estudamos estes artigos que nos parecem tão abstratos e distantes da nossa vida cotidiana, desprovidos para nós (que somos seres de superficialidade pragmática, ou seja, nos interessa aquilo que tem reflexo imediato em nossa atividade) de maior interesse prático, é uma dupla dimensão destes ensinamentos condensados aqui:
1. Em primeiro lugar, eles refletem o governo que Deus exerce no universo criado por meio dos seus anjos. São, assim, verdadeiros ensinamentos cosmológicos, verdadeira, digamos, astronomia teológica, que nos ensinam que a fé não é simplesmente um assunto da transcendência, mas envolve o próprio funcionamento do universo em que vivemos. De fato, o universo pode ser perfeitamente explicado de dois modos alternativos: a) como conduzido por forças inteligentes, incorpóreas, fiéis e leais a Deus, os anjos, que o conduzem sob as ordens deste último com uma precisão e uma regularidade assombrosa, ou, b) alternativamente, como fazem os nossos cientistas contemporâneos, como forças impessoais e constantes que conduzem o universo com a precisão de leis científicas. Se essas forças são pessoais, como queriam os antigos, ou impessoais, como querem nossos contemporâneos, na prática a diferença é que, vendo-as como impessoais, podemos facilmente dominá-las de modo que possam trabalhar para nós, e desenvolver tecnologias capazes de explorá-las. Ou, como dizia Francis Bacon (que conhecia tanto a visão clássica quanto a moderna), podemos “torturar a natureza” para que nos revele seus segredos e trabalhe em nosso favor; isto deu origem à ciência moderna, e portanto não é de pequena importância debater estes modos de ver o mundo.
2. Também nos interessa conhecer essa estrutura porque seremos incorporados nela pela nossa morte e ressurreição, como Jesus insinua em Mateus 22, 30, e como veremos num artigo mais adiante (q. 108, artigo 8).
Em todo caso, debateremos agora a própria natureza da divisão dos anjos em ordens. Serão grupos naturais, como formigueiros, ou grupos funcionais, como corporações profissionais?
Vamos ao artigo.
2. A hipótese polêmica inicial.
A hipótese inicial é a de que existem tantas ordens de anjos quanto há anjos, ou seja, cada anjo constitui, por si mesmo, uma verdadeira ordem funcional. Em suma, haveria um individualismo no céu, de tal modo que seria impossível reunir dois ou mais anjos num conjunto, em razão de suas atividades e funções, propõe esta hipótese. Há três argumentos objetores iniciais que tentam defender esta ideia.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que, quando estudamos os anjos, especificamente na questão 50, artigo 4º, que debatemos em dois textos, que podem ser encontrados aqui e aqui, descobrimos que cada anjo é único em sua espécie e diferente de todos os outros anjos. Ora, prossegue o argumento, uma ordem é sempre formada de seres naturalmente iguais entre si, como a ordem das formigas ou das abelhas. Logo, não podem existir ordens de anjos compostas por muitos anjos reunidos, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Não há sentido em atribuir a muitas pessoas aquilo que pode ser feito por uma única pessoa, diz o argumento. Ora, prossegue, as funções de um anjo não precisam de ajuda: ele é perfeitamente capaz de realizar sozinho tudo aquilo que é função sua, como o sol é capaz de realizar sozinho aquilo que é função dele. Ora, o anjo é algo muito mais perfeito do que o sol, já que o sol é apenas um corpo inanimado e o anjo é uma inteligência imaterial. Portanto, se as ordens são formadas em razão das funções exercidas em comum, como foi estudado no artigo anterior, então não há sentido em admitir que possa haver mais de um anjo fazendo a mesma coisa, e portanto não há mais de um anjo com a mesma função, ocupando a mesma ordem, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Já estudamos no artigo quarto da questão 50, cujos links foram colocados no primeiro argumento objetor acima, que não há dois anjos iguais entre si. Ora, se é assim, e se os anjos forem reunidos em ordens de acordo com as funções que exercem, teremos, dentro de cada ordem, anjos mais elevados ao lado de anjos menos elevados, de tal modo que uma ordem mais alta pode incluir um anjo tão inferior aos demais que tenha mais proximidade com um anjo elevado de uma ordem inferior do que com os anjos mais elevados de sua própria ordem; por isso, será somente por classificação arbitrária que ele será classificado em uma ordem e não na outra. Ora, nenhuma ordem que se apresente como real pode ter um fundamento arbitrário; logo, não pode existir mais de um anjo em cada ordem, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
No entanto, há um argumento contrário à hipótese controvertida inicial: é um argumento das Escrituras, e nos impede de aceitar aquela hipótese. De fato, no Livro de Isaías, quando o Profeta contempla os Serafins, ele nos diz que “os Serafins clamavam um para o outro”. Ora, o Profeta descreve mais de um Serafim. Ocorre que a palavra “Serafim” descreve uma ordem de anjos. Logo, conclui o argumento, há mais de um anjo em cada ordem de anjos.
5. Encerrando.
Hierarquias, ordens, funções dos anjos, tudo isto vai se tornando claro na medida que prosseguimos neste estudo. Muita riqueza de pensamento, que nos foi perdida por causa da despersonalização do universo que a ciência moderna realizou. Por um lado, isto causou grande avanço tecnológico. Por outro, a grande crise ecológica e ambiental em que vivemos, lidando com um mundo que consideramos impessoal e sem significado intrínseco, que manipulamos mesmo sob risco de destruição. É o paradoxo da nossa civilização, que poderia se enriquecer pela descoberta d que o universo tem sentido e é governado por forças pessoais, criaturais, capazes de trabalhar em equipe e de obedecer perfeitamente a Deus. Vendo o universo assim, talvez nos tornemos mais cuidadosos. Menos “torturadores” da criação, para usar a expressão de Francis Bacon de novo.
No próximo texto examinaremos a resposta sintetizadora de Tomás neste assunto.
Deixe um comentário