Jesus nasceu pobre. Nasceu num estábulo, viveu como um operário num lugar distante, viveu em tudo a pobreza. E nós também devemos viver sempre a pobreza, como cristãos, no sentido de buscar a simplicidade, a solidariedade, a generosidade e a hospitalidade. Mas não é a pobreza de Jesus que estamos celebrando no Natal, mas a Sua divindade que salva. Quem salva é Deus, e Deus somente, e apenas o verdadeiro Deus, o Deus-Trindade que entra na história no Natal é capaz de salvar.

Não é a “pobreza”, principalmente como conceito sociológico, econômico ou político, que é causa de salvação. Ninguém se salva por ser “bonzinho com os pobres” (embora possa perder a salvação por não sê-lo). Do fato que Jesus era pobre não posso tirar a conclusão de que é a pobreza que salva, como do fato de que meu carro é branco não posso tirar a conclusão de que dirijo um branco e não um carro. Isto é um raciocínio equivocado. É aceitando a salvação em Deus que recebo Dele as virtudes da fé, da esperança e da caridade, que me permitem viver uma vida cristã na generosidade e no amor preferencial pelos pobres; assim, o amor pelos pobres é consequência, é resposta, não é causa de salvação.

Assim, não podemos transformar a preocupação com a pobreza, o engajamento social, que em si são coisas boas, no centro da fé cristã. Isto transforma os compromissos sociais num grande obstáculo no caminho da santidade, o pelagianismo, como adverte o Papa Francisco no capítulo 2 da Gaudete et Exsultate. Tomemos um exemplo concreto: a própria Irmã “Dulce dos Pobres” é santa em primeiro lugar porque é de Jesus, e não porque é “dos pobres”. Engajamento social, filantropia, doações, militância político partidária, tudo isso pode ser efeito de ser cristão, ou pode ser, em outros, uma forma muito sutil de arrogância e resistência a admitir que a salvação é um dom de Deus, e não uma conquista dos engajados. E admitir que ninguém se salva sozinho é o primeiro passo para ser cristão. Ou, como diz o Papa Francisco, “não há identidade plena, sem pertença a um povo. Por isso, ninguém se salva sozinho, como indivíduo isolado, mas Deus atrai-nos tendo em conta a complexa rede de relações interpessoais que se estabelecem na comunidade humana: Deus quis entrar numa dinâmica popular, na dinâmica dum povo”. Deus nos salva, engajando-nos num povo. E não o contrário.

Eu tenho um amigo que não costuma ir à missa, embora se declare um cristão engajado e faça longos discursos sobre o que ele acredita que é a fé. Certa feita, quando eu lhe perguntei, por curiosidade, por qual razão ele não ia à missa, ele respondeu: “ora, as pessoas não vão à missa para despertar para a necessidade de viver para os pobres, lutar pelos pobres, ajudar os pobres? Isso eu já sei e já faço, portanto já não tenho necessidade de missa. Um simples voto meu, o apoio à campanha política do partido certo, a denúncia aos opressores econômicos e poderosos que impedem a mudança social, tudo isso é o objetivo de comungar, e tudo isso eu já alcancei. Então faço o mais importante, e deixo esse negócio de devoção para vocês que ainda não descobriram qual o verdadeiro sentido da fé e da conversão”. Achei assustadora sua resposta.

Jesus nasceu. Jesus nos chama. Jesus espera uma resposta de vida concreta. Mas ele salva porque é Deus. Deus nasceu entre nós. Amemos a Deus sobre todas as coisas. E tenhamos coragem de precisar dele.