1. Retomando.

Servir ou não servir. Aquele que serve está em ordem, é livre, alcança a felicidade. Aquele que se rebela será sempre o de fora, o incompleto, o infeliz, porque jamais alcançará a plenitude que gera a perfeição. Daí a necessidade de ordem no serviço, e daí a existência de ordens angelicais dentro da hierarquia dos anjos. A ordem não é a submissão opressiva ao poder, mas o reconhecimento inteligente do amor e a sua difusão.

Mas, mais uma vez, estamos nos adiantando. Lembramos que o debate, neste artigo, é sobre a suposta existência de ordens dentro da hierarquia angelical – no texto anterior, vimos que o debate foi iniciado justamente negando que ordens assim existam; a hipótese controvertida inicial era justamente esta. Mas, depois dos argumentos objetores, que tentavam comprovar a hipótese inicial, vimos que o argumento sed contra, que confronta a hipótese inicial, traz fortes argumentos bíblicos sobre a existência de ordens na hierarquia celeste.

Acompanhemos, agora, a resposta sintetizadora de Tomás.

2. A resposta sintetizadora de Tomás.

Como já vimos no primeiro artigo desta questão, a noção de hierarquia pode ser definida como um governo único, que conduz uma multidão, mas não o faz de qualquer modo, senão de modo ordenado, isto é, com uma unidade que passa a caracterizar a diversidade daqueles que estão sob tal governo. Poderíamos dizer que o governo, como hierarquia que conduz, é a relação que dá identidade a uma coletividade, e a transforma verdadeiramente num povo.

A diferença entre uma multidão e um povo.

O que caracteriza um povo, diz Tomás, é exatamente o fato de que caminha de modo ordenado, e não de modo disperso – como ocorreria se não houvesse, no povo conduzido, alguma ordem.

E essas ordens respeitam a diversidade do povo que caminha, e, por isso, pode-se falar na existência de ordens, e não de apenas uma ordem. A pluralidade das ordens permite manter a unidade daquilo que é intrinsecamente diverso, e garante que haja, ali, um verdadeiro povo sob um verdadeiro condutor. É assim no universo criado, quanto à hierarquia que representa o governo divino – o respeito à diversidade de atos e funções, ordenados para o bem comum. Isto é, o fato de que estamos todos envolvidos pela providência, participando do governo de Deus, produzindo e recebendo seus efeitos, cada um a seu modo, determina que, nesse reino maravilhoso do amor, estejamos reunidos em diversas ordens. A função, o ato, o ofício, determina a pertença a esta ou aquela ordem. Isto está bem descrito em 1 Coríntios 12, 28-30:

Na Igreja, Deus constituiu primeiramente os apóstolos, em segundo lugar os profetas, em terceiro lugar os doutores, depois os que têm o dom dos milagres, o dom de curar, de socorrer, de governar, de falar diversas línguas. São todos apóstolos? São todos profetas? São todos doutores? Fazem todos milagres? Têm todos a graça de curar? Falam todos em diversas línguas? Interpretam todos?”

Assim, para compreender as ordens angelicais, podemos examinar, por analogia, os reinos e Estados dos seres humanos. Os seres humanos, embora pertençam todos, indistintamente, ao mesmo grau da hierarquia do ser (todos temos a identidade espiritual de pertencermos à mesma espécie, e portanto a mesma dignidade), no entanto, nos reinos e Estados em que vivemos, somos organizados em classes sociais, ou grandes ordens que se distinguem por seu modo de viver, de produzir, de se relacionar com os demais cidadãos. Há os que vivem na cidade e há os que vivem no campo, há os que exercem funções públicas e os que estão no mercado, ou seja, no setor privado. Há os que são militares e os que são civis, há os que trabalham como profissionais da saúde e os que trabalham com a justiça, há os que trabalham ativamente e os que são incapacitados ou inativos, e assim por diante. Há, pois, grandes ordens de cidadãos que, embora com diversas inserções na coletividade, são todos igualmente cidadãos de um mesmo Estado, pertencem de modo ordenado ao mesmo povo, ou seja, gozam da mesma cidadania, embora de maneira diversa.

Mas, embora haja uma pluralidade incontável de atividades e funções dentro do mesmo povo, diz Tomás, de modo geral podemos dividir o povo de um determinado Estado em três grandes camadas ou ordens: a camada superior, que é responsável pela gestão geral daquele país, e a quem cabem as grandes decisões políticas e os julgamentos coercitivos; há a classe inferior, que honrosamente se encarrega das atividades concretas e individuais do dia a dia (operários, trabalhadores braçais e do campo, faxineiros, mecânicos, etc.); e há a classe média, que dirige uma pequena parcela da economia ou da sociedade e faz a ligação entre o povo simples e as esferas elevadas de governo. Esta divisão tríplice, diz Tomás, faz sentido como ordenação do povo, porque em toda ordenação há aquilo que é princípio, há aquilo que é meio e há aquilo que é fim. Por isso, O princípio é o que conduz, porque é o princípio que estabelece a ordem; o meio, aqueles que ligam o povo a partir de dentro; e o fim, o próprio povo, que se dirige ao bem comum.

É preciso, aqui, chamar a atenção para uma diferença de visão entre os nossos tempos e os tempos de Tomás. Quando Tomás fala de ordem no povo que está sob a condução de um governo, ele não está pensando em termos econômicos, ou mesmo sociológicos, a partir das categorias que utilizamos hoje em dia. Tomás não pensa em classes sociais a partir de pressupostos marxistas, nem mesmo liberais ou burgueses. Não pensa em termos individualistas nem coletivistas, como se o Estado fosse um acidente que reúne indivíduos isolados sob um suposto pacto artificial, que sempre embute em si algum tipo de opressão. Nada disso passa pela mente de Tomás. Quando falamos de um povo organizado em classes ou ordens sob um governo, Tomás está sempre pensando numa situação que, embora se manifeste na história e sob condições culturais diversas e contingentes, representa um traço natural da humanidade: a necessidade mesma de ser reunida de modo ordenado para adquirir sentido e buscar o bem comum. Qualquer tipo de injustiça social, portanto, é sempre um acidente que mancha uma união que, em si mesmo, é boa, mas que não pode deixar de evidenciar o pecado original que marca a humanidade. Não leiamos Tomás, pois, com os nossos olhos ideológicos da contemporaneidade, mas abramos nosso coração para aprender com uma visão mais pura, mais profundamente otimista, mais feliz que a nossa. As ordens em que as pessoas são divididas, no pensamento de Tomás, caracterizam-se pela diversidade no modo de servir ao bem comum, e não na capacidade de mandar ou de acumular riqueza.

Os anjos e sua organização funcional.

Ora, seguindo a analogia que ele apresentou com a ordenação dos Estados humanos, sob governos humanos (marcados, embora, pelo pecado original que torna mais difícil a ordem), Tomás conclui que também no reino dos Santos Anjos deve haver uma divisão em ordens, conforme a divisão de funções em cada hierarquia angélica. Lembremos, aqui, que, diferentemente dos seres humanos (para os quais não há hierarquia natural, ontológica, entre os indivíduos, pois somos todos da mesma espécie), os anjos têm diferenças de espécie entre si: cada anjo é de uma espécie diferente, com diferentes capacidades e aptidões.

Assim, dentro de cada grau da hierarquia celeste (hierarquia que se caracteriza por reunir aqueles anjos com capacidades e aptidões naturais semelhantes, como vimos no artigo anterior), há diversidade de funções e de atos. É por isso que o Pseudo-Dionísio, em analogia com as classes sociais humanas, distingue três ordens em cada grau da hierarquia celeste: a classe superior, a classe média e a inferior.

3. Encerrando.

Essas classes, ou ordens angélicas, serão estudadas de modo mais detalhado em nossos próximos textos, que examinarão os próximos artigos de Tomás. Mas esta longa resposta torna clara a importância desse debate sobre a hierarquia e as ordens celestes: não se trata de mero diletantismo medieval, como pode parecer a nossos olhos contemporâneos impregnados de utilitarismo e economicismo, mas de conhecer a estrutura invisível da criação, para entender não somente o lugar em que estamos, mas também o lugar que somos chamados a ocupar no Reino de Deus.

No próximo texto, olharemos as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, a partir dos princípios que ele estabeleceu aqui, em sua resposta sintetizadora.