1. Introdução.
Entraremos agora numa daquelas discussões que eram muito acirradas no tempo de Tomás, mas hoje, a nós homens práticos da nossa contemporaneidade científica, podem parecer pura perda de tempo, pura falta de visão prática do mundo, mas, ao contrário, representam uma visão muito interessante, coerente e rica sobre o funcionamento de um universo pleno de inteligência, vontade e principalmente direção, no qual o governo é partilhado no amor e as coisas são ricas de significado intrínseco. Não o universo frio de leis inflexíveis e impessoais em que vivemos, mas um universo vibrante de liberdade e obediência que, mesmo não interessando aos físicos e aos cosmólogos de hoje, enriquece nossa própria vida, torna compreensível o dinamismo da fé e nos tira da solidão existencial: um universo regido por Deus pessoalmente, que inclui, em sua gestão, as forças pessoais e livres que são os anjos e os humanos.
Já vimos que os anjos são dotados de uma hierarquia natural, uma vez que cada anjo é de uma espécie diferente, e as espécies se estratificam justamente pela capacidade intelectual e o poder volitivo diverso entre elas. De modo amplo, a hierarquia dos anjos foi classificada, nos últimos textos, como possuindo três grandes níveis: 1) os anjos que compreendem o universo a partir das razões que estão em Deus mesmo, que são os mais elevados, 2) os anjos que compreendem o universo a partir das razões que estão na criação de modo abstrato e universal, que são os intermediários, e 3) os anjos que atuam diretamente nas coisas individuais a partir da sua compreensão universal, que são os mais inferiores.
A pergunta, agora, diz respeito à diversidade de funções e atuações desses anjos em seus graus hierárquicos. De fato, sabemos que a nossa relação com Deus envolve a fé, a esperança e a caridade; assim, a função dos anjos no universo pode ser: 1) também diversificada, conforme, por exemplo, desempenhem ações e atribuições mais relacionadas com cada um desses aspectos, apenas para dar um exemplo. Ou pode ser que 2) todas as funções estejam distribuídas por todos os anjos, e então não haveria sentido em falar de ordens ou associações de anjos em razão de sua ação. Este é exatamente o debate aqui.
Vamos a ele.
2. A hipótese controvertida inicial.
A hipótese inicial é que os anjos não poderiam ser agrupados em ordens ou grupos de funções similares dentro de cada nível da hierarquia; na verdade, haveria apenas a separação por níveis de complexidade natural, e não a organização por outros critérios como a atuação ou função.
Existem três argumentos objetores iniciais que tentam comprovar esta hipótese problemática inicial.
3. Os argumentos objetores iniciais.
O primeiro argumento objetor.
Quando acrescentamos elementos a alguma definição, também multiplicamos o conjunto das coisas definidas. Ora, prossegue o argumento, a hierarquia é uma ordem, como ensina o próprio Pseudo-Dionísio. Ora, se eu acrescento à noção de hierarquia a ideia de que cada nível hierárquico pode conter diversas ordens, isto teria como consequência a ideia de que a hierarquia se multiplicaria a cada nível hierárquico, e assim teríamos muitas hierarquias dentro da hierarquia, o que seria simplesmente multiplicar a própria hierarquia, acrescentando nela muitos subníveis hierárquicos. No fim, portanto, o efeito seria apenas o de pulverizar a hierarquia em muitos outros níveis, e não o de estabelecer ordens em cada nível hierárquico, conclui o argumento.
O segundo argumento objetor.
Para afirmar que há muitas ordens de anjos no interior de cada grau hierárquico, teríamos que adotar, como critério, a posse, pelos anjos, de diversos dons espirituais particulares, próprios de cada um deles.
Ocorre que, dentre os anjos, não existe algo como a posse privada ou particular de bens e de dons: tudo o que eles têm é colocado em comum, e possuído por todos, porque não há propriedade privada entre os anjos, ensina-nos a tradição. Assim, não podem existir algo como ordens de anjos com dons próprios, conclui o argumento.
O terceiro argumento objetor.
Quando examinamos a hierarquia da Igreja, que tem alguma analogia com a hierarquia dos anjos, vemos que há distinção, dentre aqueles que receberam o sacramento da Ordem, em relação à centralidade de determinado aspecto desse sacramento com relação a cada grau da ordem: se o sacramento da ordem tem, na Igreja, a função de purificação, iluminação e, finalmente, a função de aperfeiçoamento global dos fiéis. Ora, a separação dos graus hierárquicos, na Igreja, se dá justamente em função desses aspectos: os diáconos se relacionam com a purificação na caridade, e por isso seu grau é denominado de ordem purgativa ou purificadora. Os presbíteros se relacionam com a iluminação, que vem pela distribuição da graça, e por isso são a ordem iluminadora. E, por fim, os bispos conduzem seu rebanho à perfeição, e por isso são a ordem aperfeiçoadora. Isto é o que nos ensina o próprio Pseudo-Dionísio.
Ora, sabemos que os Santos Anjos agem justamente de modo indivisível para nos purificar, iluminar e aperfeiçoar. Assim, não haveria sentido em classificar os anjos em ordens diversas a partir desses critérios, conclui o argumento.
4. O argumento sed contra.
O argumento sed contra nos lembra que a própria Escritura, especialmente nos escritos paulinos, separa os anjos em ordens; ele cita especialmente Efésios 1, 20-21: Deus constituiu Cristo “acima de todo principado, potestade, virtude, dominação e de todo nome que possa haver neste mundo como no futuro”. Ora, São Paulo está citando, nesta passagem, justamente as diversas ordens de anjos – anjos que, embora pertençam a ordens diversas, podem estar num mesmo grau hierárquico, como veremos no artigo sexto desta mesma questão. Assim, dentro de cada grau hierárquico podem haver muitas ordens angélicas, conclui o argumento.
5. Encerrando.
A complexidade da organização dos anjos parece algo remoto e sem interesse; mas ela reflete a complexidade da própria gestão do universo criado e, ainda, a estrutura do céu, já que, como veremos, estas diversas ordens e graus hierárquicos corresponderão à altura da santidade dos fiéis humanos na eternidade. E assim o mundo humano se entrelaça com o céu, no governo da criação.
Mas estamos nos adiantando. No próximo texto estudaremos a resposta sintetizadora de Tomás.
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