1. Retomando.
A hierarquia, a ordem que há no universo, é observada com espanto pelos maiores cientistas. De fato, mesmo a aparente desordem incluída na teoria quântica é capaz de se combinar formando uma sinfonia maravilhosa. “Há uma inteligibilidade”, dizem muitos grandes cientistas, e ali onde há inteligibilidade, há inteligência. Mas a ideia de uma hierarquia no universo, na qual a verdadeira felicidade consista em encontrar seu próprio lugar e estar feliz ali, sem almejar a revolução ou invejar os superiores, parece muito estranha, muito comodistas para nós que crescemos acreditando na premissa básica de que o universo é basicamente uma grande guerra pela sobrevivência, e que a evolução consiste na sobrevivência do mais apto, do mais inclemente, do mais capaz. Seria muito difícil para nós imaginar a estrutura hierárquica como algo querido por Deus mesmo, e não algo a ser combatido, violado, salvo quando somos nós mesmos que estamos no ápice de uma hierarquia. Precisamos, então, redescobrir a alegria de deixar Deus ser Deus, de ver os anjos como superiores de modo natural, de aceitar que uns governam e outros são governados.
Estudemos agora as respostas de Tomás aos argumentos objetores iniciais, que tentam estabelecer que não há uma hierarquia natural entre os anjos – o que, como já vimos, é falso, porque essa hierarquia existe. Vamos a Tomás.
2. Os argumentos objetores iniciais e suas respostas.
O primeiro argumento objetor.
O primeiro argumento objetor lembra que os anjos são o topo da criação, as criaturas mais perfeitas, aquelas que apresentam mais semelhança com Deus e refletem melhor Sua perfeição. Mas a perfeição deve se expressar de todos os modos, inclusive na convivência; ora, segundo Aristóteles, a forma mais perfeita de governo é aquela em que a coletividade é governada por um só, que personifica o bem comum de todos. Portanto, se os anjos exprimem a maior perfeição da criação, e se estão submetidos a algum tipo de governo sagrado, que é exatamente o significado de hierarquia, então deve-se concluir, segundo o argumento, que todos eles estão no mesmo grau de perfeição e se submetem apenas a um governante acima deles, que é o próprio Deus. Assim, não haveria verdadeira hierarquia entre os anjos, mas apenas entre todos os anjos e Deus, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, podemos admitir que a criação é governada perfeitamente por Deus, que é o único Deus da criação inteira, e, por isso, no governo da criação, realiza-se perfeitamente a observação de Aristóteles de que o governo de um é mais perfeito do que o governo de muitos. Mas isso não significa que Deus não tenha determinado que cada criatura participe de modo diferente de seu governo, isto é, que haja uma hierarquia entre as criaturas, quanto ao seu grau de perfeição. É justamente o que ocorre entre os anjos: todos participam do único governo divino, mas cada um o faz de modo diferente, conforme esteja mais próximo ou mais distante, em perfeição de amor e de conhecimento, do próprio Deus. É por isso, pela diversidade da participação no governo, que os anjos podem ter uma hierarquia sem que a unicidade do governo divino seja afetada de nenhum modo.
O segundo argumento objetor.
Se o primeiro argumento era mais político, apelando para a perfeição de uma ordem unitária em comparação com uma ordem escalonada no exercício do poder, o segundo argumento é mais ontológico mesmo, quer dizer, enfoca mais o modo de ser dos próprios anjos. Segundo o Pseudo-Dionísio, diz o argumento, a hierarquia consiste em ordem, conhecimento e ação. Ora, todos os anjos estão submetidos diretamente a Deus, e por isso estão na mesma ordem: a ordem do governo divino. Quanto ao conhecimento, todos os santos anjos conhecem Deus por sua essência; e quanto ao agir, todos estão igualmente regulados pelo amor divino em sua ação. Assim, todos os anjos estão no mesmo grau, com relação aos três elementos que constituem uma hierarquia – e portanto não há escalonamento entre eles, e são todos da mesma hierarquia, conclui o argumento.
A resposta de Tomás.
De fato, todos os santos anjos podem ver Deus em sua presença e em sua essência, e não é aí que se encontra o escalonamento hierárquico entre eles. A hierarquia está na participação dos anjos no governo da criação, ou seja, no modo pelo qual eles se relacionam com a inteligibilidade das coisas criadas, não com o conhecimento do próprio Deus. Deste modo, como vimos na resposta sintetizadora, os anjos mais elevados podem ver a razão das coisas, universalmente, no próprio Deus, e assim participam mais diretamente do governo divino, recebendo Dele mesmo a sua iluminação. A segunda ordem é capaz de compreender a razão universal das coisas pela contemplação abstrata da criação inteira; por fim, a ordem inferior contempla as coisas criadas em sua individualidade, cuidando delas a partir do conhecimento universal que possuem. É esta relação com a criação, com a razão das coisas criadas, com os níveis de governo divino dessas coisas, que determina a hierarquia entre os anjos.
O terceiro argumento objetor.
Os seres humanos estão sujeitos ao governo de Deus; ou seja, submetem-se hierarquicamente a Deus, e participam diferentemente desse governo, conforme sua situação pessoal: uns como pais de família e trabalhadores, outros como sacerdotes, outros ainda como militares e políticos e assim por diante. Ora, todos os seres humanos têm a mesma dignidade, e não existe nenhuma hierarquia natural entre um ser humano e outro, mesmo quando participam de modo diferente do governo divino. Logo, assim deve ser também com os anjos: todos eles têm a mesma dignidade, mesmo quando participam de modo diferente do governo divino. Portanto, diz o argumento, não existe algo como um escalonamento hierárquico natural entre os anjos, conclui.
A resposta de Tomás.
Ás vezes não é fácil para nós, humanos, perceber que cada anjo é de uma espécie diferente, e que não há dois anjos da mesma espécie: de fato, o que permite que haja muitos exemplares de uma mesma espécie é o corpo, que multiplica os indivíduos. Existem, por exemplo, muitos leões porque cada leão tem seu próprio corpo. Todos os leões, portanto, têm, em tese, as mesmas capacidades, as mesmas aptidões, a mesma dignidade, no sentido de representar o mesmo nível de perfeição criatural. Assim ocorre com os seres humanos: todos são indivíduos da mesma espécie, e portanto iguais em dignidade.
Mas os anjos não são corporais, e portanto cada anjo tem sua própria espécie, da qual ele é o único exemplar. E cada espécie de anjo tem sua própria capacidade, seu próprio nível intelectual, seu nível concreto de atuação, seu próprio nível de poder, digamos assim. Logo, diferentemente dos seres humanos, o escalonamento dos anjos em graus, ou níveis hierárquicos, tem fundamento na sua natureza, porque os anjos não são naturalmente iguais entre si em dignidade, capacidade e poder.
3. Concluindo.
A dignidade da pessoa humana é algo a ser sempre reafirmado, inclusive como fundamento de nossas sociedades, de nossa civilização e de nossos Estados. Mas não há algo como a dignidade comum dos anjos, simplesmente porque eles são diferentes entre si. E, assim como um animal, mesmo doméstico, não é feliz quando não pode viver em conformidade com sua própria natureza, e é “humanizado” à força, também os anjos não são felizes quando não vivem de conformidade com sua própria posição na hierarquia do governo divino. Isto pode ser constatado por nós quando contemplamos a ordem maravilhosa das forças naturais.
Deixe um comentário