1. Introdução.

Os seres humanos são formados por corpo e alma; a alma, ou forma do corpo, está para o corpo como a noção de uma figura geométrica está para a representação gráfica dessa mesma figura. Isto é, quando pensamos num triângulo, sabemos que todo e qualquer triângulo que possa ser desenhado, se for realmente um triângulo, satisfará a definição geométrica de “figura fechada de lados retos cuja soma dos ângulos interiores é igual a cento e oitenta graus”. Todas as almas humanas dos indivíduos existentes ou já falecidos são, igualmente, a alma de um animal racional. Somos da mesma espécie, temos exatamente a mesma dignidade existencial e qualquer diferença entre nós decorre da nossa dimensão corporal, não da nossa dimensão espiritual. Assim, a hierarquia, entre os seres humanos, é sempre resultado de aspectos materiais: da história, da cultura, da capacidade corporal, da política ou mesmo da convenção humana – ou da proximidade com Deus, que nos faz santos. Para nós, pensar em hierarquia entre seres humanos que se fundamente numa diferença espiritual inata não somente seria erado, como causaria injustiças e distorções desastrosas.

Mas entre os anjos não é assim. Uma vez que eles não têm uma dimensão material, a diferença entre eles se encontra no próprio espírito, de tal modo que uns são mais capazes, mais perfeitos, mais inteligentes, mais poderosos, do que outros. E isto leva a uma diferença de dignidade entre eles, que está na ordem do seu ser mesmo, e, afinal, parece determinar a existência de uma verdadeira hierarquia ontológica entre os anjos.

É este o debate, neste artigo: como os anjos podem ser classificados? Há real diferença entre eles que determina que sejam intrinsecamente diversos? Se é verdade que os anjos são as forças invisíveis, dotadas de inteligência e vontade, pelas quais Deus governa o universo, será que isto determina que nosso próprio universo seja estruturado a partir de forças hierárquicas? Vamos ao artigo.

2. A hipótese polêmica inicial.

Já sabemos que os artigos iniciam apresentando uma hipótese inicial que visa causar polêmica, ou seja, é uma hipótese controvertida. No presente caso, a hipótese inicial é a de que os anjos não apresentam diferenças reais entre eles, ou seja, eles são espiritualmente iguais entre si, de tal modo que não poderia haver alguma hierarquia natural entre eles. Todos os anjos seriam intrinsecamente iguais em dignidade, capacidade e poder, de tal modo que qualquer hierarquia entre eles decorreria de algum fator externo, político ou cultural, e não de diferenças ontológicas no próprio modo de ser. Há três argumentos objetores que tentam comprovar esta primeira hipótese.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

Os anjos são as criaturas mais perfeitas de Deus; são aquelas que possuem mais semelhança com Ele, e são, por assim dizer, o coroamento da própria criação, os príncipes do universo, por meio dos quais Deus governa todas as coisas que criou. Ora, Aristóteles nos ensina que o melhor governo é sempre aquele em que a multidão é governada por um só líder, porque ele é capaz de conduzir a todos, sem dispersões, ao bem comum, que é o objetivo de qualquer governo. A noção de hierarquia significa, justamente, governo sagrado, quer dizer, uma diferença entre os níveis das criaturas que é determinada por Deus mesmo. Ora, se houvesse diferenças ontológicas entre os anjos, de tal modo que houvesse uma verdadeira hierarquia entre eles, o seu principado, ou seja, a regência que exercem sobre a criação, não seria de natureza unitária, mas fragmentada em razão das diferenças entre eles. Seria, pois, a partir dos critérios aristotélicos, um governo imperfeito. Mas Deus não cria coisas imperfeitas. Logo, não há hierarquia ontológica entre os anjos, conclui o argumento.

2. O segundo argumento objetor.

O Pseudo-Dionísio, que é uma autoridade indiscutível quanto aos anjos, ensina que a hierarquia é determinada por três fatores: a ordem, o conhecimento e o poder de agir. Ora, prossegue o argumento, todos os anjos estão sob a mesma ordem, isto é, a ordem que o próprio Deus institui e rege, no universo criado. Todos os santos anjos, ademais, estão na presença de Deus, a quem podem ver diretamente, ou seja, a quem podem ver em essência; o seu poder de agir, portanto, está diretamente subordinado ao poder de Deus e ao conhecimento que dele podem ter. Logo, os anjos são perfeitamente unos em ordem, conhecimento e ação e, portanto, não há verdadeira hierarquia ontológica entre eles, conclui o argumento.

3. O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento quer fazer uma analogia entre o governo civil, estatal, dos seres humanos, por um lado, e o governo celeste, que é realizado por meio dos anjos, por outro. De fato, diz o argumento, temos, entre os seres humanos, a hierarquia política, que determina o nosso governo estatal, e a hierarquia religiosa, que representa o governo da Igreja. Ambos têm fundamento natural em Deus mesmo, e portanto são adequadamente denominados de “hierárquicos”, isto é, ordem com fundamento sagrado. Mas isto não significa que os seres humanos sejam essencialmente diferentes entre si: a hierarquia humana tem fundamento político, cultural, histórico e religioso, mas não propriamente ontológico. Portanto, do mesmo modo não existe diferença essencial entre os anjos, formando, dentre eles, alguma hierarquia com base em diferenças ontológicas: todos os anjos, como todos os seres humanos, têm naturalmente a mesma dignidade, e não existe algum tipo de hierarquia ontológica entre eles, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra, isto é, aquele argumento que nega a hipótese polêmica inicial e estabelece verdadeiramente o debate, é retirado, aqui, do próprio Pseudo-Dionísio, que, na sua autoridade quanto ao assunto dos anjos, expressamente diz quer há três hierarquias verdadeiras entre os anjos. Logo, a hierarquia entre os anjos não é meramente um fato social, político, cultural ou religioso, mas se fundamenta na própria essência deles, ou seja, tem fundamento ontológico: os anjos são diferentes em capacidades, em possibilidades, e portanto são organizados naturalmente de modo hierárquico, conclui o argumento.

5. Encerrando.

A hierarquia verdadeira, aquela que se lastreia na vontade de Deus, na obediência a Ele, não é uma hierarquia de opressão ou de dominação, mas de serviço mesmo; isto é o que nos ensina Jesus em Mateus 20, 26: quem quiser ser o maior entre vós, seja aquele que serve. Assim, a resistência natural que temos, na nossa contemporaneidade, à própria ideia de uma hierarquia natural cede ao fato de que, entre os seres humanos, essa hierarquia não significa diferença de dignidade na natureza humana, e, no resto da Criação, não implica menos felicidade para aquelas coisas que são mais simples. A verdadeira hierarquia é de serviço, de amor, não de opressão e poder.