1. Introdução.

Encerrando esta questão que trata sobre a relação dos anjos entre si, na troca de ideias e informações, vem uma pergunta muito interessante: uma vez que a distância física não atrapalha em nada a comunicação entre os anjos, de tal modo que, independentemente dela, um anjo pode falar e o outro pode ouvir, será que isto implica dizer que, quando um anjo fala, todos os outros anjos escutam? De fato, se houver dois seres humanos conversando num tom normal de voz, numa sala pequena, todas as pessoas presentes em tal sala, se fizerem silêncio e prestarem atenção, poderão escutar a conversa dos dois. Ora, se a distância não altera em nada a perfeição da fala angélica, parece que todos os anjos podem ouvir claramente o que cada anjo fala com outro, de tal modo que, no mundo dos anjos, não poderiam existir conversas privadas, troca reservada de informações entre dois interlocutores. Podemos lembrar, aqui, que nem todos os anjos são santos: os demônios também são anjos. Assim, o tema tem sua importância: será que os anjos são capazes de escutar o que os demônios conversam, e vice-versa? Quais seriam as consequências de uma falta de privacidade como essa, para o governo do mundo?

Vamos ao debate.

2. A hipótese controvertida inicial.

Já sabemos que o debate sempre se inicia, em cada artigo, com a apresentação de uma hipótese polêmica, que provocará a discussão. No presente artigo, a hipótese polêmica propõe que, quando um anjo fala com outro, todos os anjos podem ouvir o que eles estão falando. Há três argumentos iniciais que tentam comprovar esta primeira hipótese. Vamos examiná-los.

3. Os argumentos objetores iniciais.

O primeiro argumento objetor.

O primeiro argumento objetor nos lembra que o principal fator que impede alguém de ouvir a fala de outra pessoa, entre os humanos, é a distância física entre eles. Tanto assim que a primeira providência adotada por nós, quando queremos conversar sem sermos ouvidos por estranhos é procurar um lugar isolado, distante dos outros, no qual haja privacidade, porque nossa voz nãos erá ouvida à distância.

Ocorre que, como vimos no artigo anterior, a distância física não atrapalha a fala dos anjos, de tal modo que podem ser ouvidos de qualquer modo, estando longe ou perto. Portanto, tudo aquilo que um anjo diz a outro pode ser escutado por todos os anjos, conclui o argumento.

O segundo argumento objetor.

Os anjos não usam alguma língua articulada, ou sinais convencionais de qualquer espécie para transmitir seus conceitos mentais a outro, como já vimos nos artigos anteriores. Todos os anjos têm a capacidade de transmitir o conteúdo do seu pensamento a outros anjos, e todos os anjos têm a mesma capacidade de receber essa transmissão e compreendê-la. Logo, se um anjo transmite a outro o conteúdo da sua mente, todos os outros anjos podem perceber e receber essa transmissão, de tal modo que tudo o que um anjo fala a outro é percebido por todos os outros anjos, conclui o argumento.

O terceiro argumento objetor.

Já vimos, num dos artigos anteriores, que a iluminação, isto é, a transmissão do conhecimento de alguma verdade a respeito de Deus e da Sua criação de um anjo para outro, é feita, entre os anjos, pela fala. Ora, a iluminação que se transmite de um anjo a outro chega a todos os anjos. O Pseudo-Dionísio ensina que cada indivíduo dentre os Santos Anjos, cada essência celeste, transmite aos demais aquela verdade que recebeu. Portanto, a fala de cada anjo chega a todos os outros, conclui o argumento.

4. O argumento sed contra.

O argumento sed contra nos lembra que um ser humano pode falar privadamente com outra pessoa, sem que isto seja percebido ou captado por terceiros. Assim, prossegue o argumento, é de se esperar que os anjos também possam conversar reservadamente, sem que outros anjos possam ouvir o que está sendo conversado entre eles.

5. A resposta de Tomás.

Um anjo pode conversar com outro sem que o conteúdo da conversa entre eles seja escutado por outros anjos. E isso pode se dar simplesmente porque falar, para os anjos, decorre de dirigir sua vontade a que outro anjo receba, diretamente em seu intelecto, o conteúdo do intelecto daquele que está falando. O que causa a fala, portanto, é o fato de que a vontade de um se dirige ao intelecto do outro, manifestando-lhe o conteúdo de sua mente. Para um anjo, falar é querer abrir sua mente, para que um determinado pensamento seu possa ser conhecido pelo outro anjo.

Ora, é claro que uma causa inteligente pode ordenar uma coisa para um fim e não para outro. Ou seja, a vontade do anjo pode se dirigir ao fim de que um determinado anjo receba a revelação daquele pensamento seu, mas nenhum outro anjo possa recebê-lo também. Deste modo, é a vontade daquele anjo que fala que dirige sua fala a este ou àquele outro anjo, mas não a dirige àqueloutros. Deste modo, o anjo que é o destinatário daquele ato de fala pode perceber o que lhe está sendo dito, sem que os outros anjos o percebam.

É a vontade do anjo que fala, portanto, e não a distância física ou qualquer outro fator externo, que delimita os destinatários da sua comunicação, escolhendo este ou aquele como interlocutores e excluindo os outros. Quando um anjo escolhe outro para falar, isto exclui da conversa todos os que não foram escolhidos.

6. A resposta de Tomás aos argumentos objetores iniciais.

Os dois primeiros argumentos.

Como lembramos, o primeiro argumento propõe que é principalmente por causa da distância física que a conversa entre dois seres humanos não pode ser ouvida por todas as outras pessoas. Portanto, prossegue o argumento, uma vez que a distância física não tem nenhuma influência na conversa dos anjos, todos os outros anjos podem ouvir o que cada anjo fala. O segundo argumento acrescenta que, uma vez que os anjos não usam nenhum tipo de sinal ou língua convencional para falar, todos os anjos são igualmente capazes de entender o que qualquer um dos outros anjos está falando, de tal modo que aquilo que um anjo fala fica imediatamente evidente para todos os outros, diz o argumento.

Tomás nem considera necessário responder esses argumentos; considera que a resposta sintetizadora já esclareceu suficientemente que os anjos podem escolher quem receberá e quem não receberá sua fala, já que a fala é sempre um ato de vontade de um anjo que se dirige a outro.

O terceiro argumento objetor.

O terceiro argumento lembra que a iluminação entre os anjos é, para eles, feita por meio da fala. E o Pseudo-Dionísio ensina que aqueles anjos que conhecem algum aspecto da luz divina deve transmiti-la de tal modo a iluminar todos os outros anjos; isto só poderia acontecer se todos os anjos forem capazes de receber indistintamente a fala dos outros, de tal modo que, quando um fala, todos os outros escutam, conclui o argumento.

A resposta de Tomás.

A maioria das confusões quanto à fala dos anjos consiste em confundir a noção de falar com a noção de iluminar, entre os anjos. De fato, toda vez que um anjo ilumina outro, ele está realizando um ato de fala, e é justamente por meio da fala que a iluminação ocorre. Sempre que há iluminação, portanto, há também fala. Mas nem sempre que há fala, há iluminação; vimos, nos artigos anteriores, que a fala do anjo pode consistir apenas em revelar, ao interlocutor a sua própria vontade, seus desejos, suas decisões pessoais.

Ora, quando se trata de iluminação, o que está envolvido é alguma verdade que tem sua fonte no próprio Deus, e portanto é de interesse de todos os santos anjos. Por isso, a iluminação acaba chegando a todos eles. Mas a fala, como envolve apenas aquilo que é próprio de cada anjo, não precisa chegar a todos, mas apenas àqueles a quem a vontade do anjo que fala se dirigiu.

7. Concluindo.

A vontade dos anjos determina que haja relações particulares entre eles, que não são necessariamente do interesse de todos indistintamente. É a vontade do anjo que determina essa relação que envolve um abrir de coração privado, de um para o outro – sabendo, no entanto, que a palavra coração, aqui, é apenas uma metáfora que se refere ao interior mesmo da pessoa, o centro de sua existência; anjos não têm coração no sentido físico, mas apenas no sentido espiritual. Anjos não são apenas forças cegas. São verdadeiramente pessoas.